UM CAFÉ COM CLARICE, EPICURO E SIMONE.
- Carlos A. Buckmann
- 20 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

UM CAFÉ COM CLARICE, EPICURO E SIMONE.
A manhã anunciava-se com uma luz morna, daquelas que não nascem do sol, mas da suspensão do tempo. Abri o Café como quem desvenda um segredo: lentamente, consciente de que certos encontros exigem silêncio antes do verbo.
Já haviam acontecido reuniões improváveis entre tempos e consciências, mas aquela… Aquela não se anunciava com passos. Ela acontecia com presença. Primeiro entrou Epicuro, com seu semblante sereno, quase indiferente à agitação da modernidade. Pediu um copo d’água, não por austeridade, mas por reverência à simplicidade. Logo depois veio Simone de Beauvoir, com olhos que carregavam abismos e a inquietude da liberdade. Sentou-se sem pedir licença, como quem exige espaço não com força, mas com razão. Clarice chegou por último, como se flutuasse entre os dois polos de pensamento, trazendo consigo a linguagem do indizível.
Eu, mero cronista e bartender, preparei suas bebidas como quem participa de um ritual cósmico. Epicuro sorvia o instante; Simone confrontava o sistema; Clarice diluía significados com palavras que pareciam feitas de névoa.
A primeira pergunta nasceu do nada, como as melhores perguntas costumam surgir:
- E se o prazer for, na verdade, a forma mais sofisticada de liberdade? - Lançou Epicuro, com o tom gentil de quem planta mais do que colhe.
Simone respondeu, não com resistência, mas com profundidade:
- Liberdade pressupõe consciência do outro. O prazer, se desvinculado do mundo, pode se tornar egoísmo refinado.
Epicuro sorriu, com a paciência de quem já pensou muito sobre isso:
- Mas acaso o egoísmo não se dissolve quando se entende que o prazer mais duradouro nasce da convivência pacífica?
Clarice interrompeu, não com um argumento, mas com uma dúvida que desestrutura:
- E se o prazer for apenas uma distração do abismo que carregamos?
Houve silêncio. Desse tipo raro que não é ausência de som, mas presença de sentido.
Simone voltou ao tema, apontando para Clarice:
- Talvez a questão seja: entre o abismo e a distração, o que escolhemos construir como realidade?
- Ou como ficção — acrescentou Clarice.
Epicuro ergueu a xícara:
- Se é ficção, que seja ao menos bela e tranquila.
Mas Clarice não cedeu:
- A beleza às vezes fere mais que a feiura, porque vem disfarçada de sentido.
Simone assentiu, contemplando a espiral no vidro:
- O paradoxo está em viver entre verdades possíveis e mentiras necessárias.
Eu, atrás do balcão, apenas observava. Os argumentos eram ondas, e eu, um farol tímido naquela manhã filosófica.
- A liberdade não é dada, é conquistada - disse Simone, olhando para Epicuro como quem desafia a serenidade.
Epicuro respondeu sem urgência:
- E o prazer, quando autêntico, é um exercício da liberdade. Mas muitos buscam o excesso por não compreenderem o suficiente.
Clarice não interveio, escreveu. Com a ponta do dedo no vidro embaçado, desenhou um espiral.
- Talvez tudo seja busca, e cada um desenha o labirinto que pode, murmurou, como se falasse consigo ou com o tempo.
A conversa não era debate. Era dança. Cada ideia lançada desenhava caminhos e pontes, não muros. Simone falava do compromisso com o outro; Epicuro, da paz interior. Clarice, de um tipo de verdade que não se explica, apenas se sente.
Olhei ao redor e vi que o Café havia se transformado. Não em outro lugar, mas num espaço onde os conceitos se abraçavam. A filosofia deixava de ser teoria e tornava-se afeto, gesto, presença.
Antes de partirem, cada um deixou algo na mesa: Epicuro, uma folha com aforismos sobre alegria discreta; Simone, um pequeno livro sobre ética e política; Clarice, um bilhete escrito à mão: “O que me inquieta me define.”
Fechei o Café mais tarde do que o habitual, não por falta de tempo, mas por excesso de reflexão. Na bancada, entre migalhas de ideias e marcas de copos, senti que aquela manhã não havia passado, ela havia entrado em mim.




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