UM ATIVO INTANGÍVEL
- Carlos A. Buckmann
- 24 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

UM ATIVO INTANGÍVEL
Chegando aos oitenta anos, mantenho com afinco o ritual de leitura diária, ao menos um livro por semana, sem falhar. É meu pacto com o tempo, uma forma de continuar escavando conhecimento mesmo quando os ossos já não têm o mesmo entusiasmo de outrora. Não por vaidade intelectual, mas por reconhecimento humilde de que, como dizia Sócrates, “só sei que nada sei.” É curioso perceber como quanto mais se aprende, maior se torna o abismo do que ainda falta saber.
Não raro, as luzes da minha sala se estendem pela madrugada, iluminando as páginas de um novo volume. A meta autoimposta de ao menos um livro por semana, acompanhada da humilde constatação de que “ainda nada sei”, reflete não uma patologia de acumulação, mas sim a intrínseca compreensão da impermanência do saber e da dinâmica exponencial do progresso informacional. Esta postura de Lifelong Learning não é um passatempo, mas sim uma metodologia existencial, uma arquitetura cognitiva que me permite transitar pelos complexos ecossistemas contemporâneos.
Foi nessa toada que me deparei com O MBA da Vida Real, de Jack Welch, leitura que faço questão de revisitar a cada dois ou três anos. A frase que me fisgou nesta última leitura foi: “... quando o assunto são negócios, nunca paramos de aprender.” - Welch, ex-CEO da General Electric e um dos líderes corporativos mais influentes do século XX, não apenas revolucionou a estrutura organizacional da empresa, mas redefiniu o papel da liderança no ambiente corporativo. Welch, conhecido por sua gestão arrojada e foco em resultados, transformou a GE em uma potência global, demonstrando na prática a validade de seus princípios sobre adaptabilidade e aprimoramento contínuo. O livro, embora não técnico no jargão, é profundamente técnico na essência: ensina lições estratégicas com base em experiência prática, algo que nenhum diploma substitui.
No mundo dos negócios, o conhecimento é o maior ativo intangível. Num cenário de aceleração exponencial das tecnologias, inteligência artificial, blockchain, biotecnologia, quem não se atualiza é simplesmente substituído. A concorrência não dorme, ela roda em ciclos de inovação contínua. E nós, profissionais do século XXI, somos obrigados a afiar nossas competências como quem afia facas: de forma constante e criteriosa.
A estagnação do conhecimento se torna, nesse contexto, um fator de obsolescência, uma vulnerabilidade estratégica que compromete a capacidade de competir. A inovação é o novo capital, e a aquisição de novos saberes é a moeda de troca. Em um mercado onde a concorrência não cessa de crescer, a busca por “armas” que nos permitam continuar atuando e sendo relevantes é uma questão de sobrevivência. A capacidade de desaprender e reaprender, de se adaptar a novos paradigmas, torna-se a principal vantagem competitiva.
Essa ideia não é monopólio de Welch. Peter Senge, com seu conceito de Learning Organizations, defende que empresas que aprendem são as únicas capazes de se adaptar e prosperar em ambientes voláteis. Já Alvin Toffler nos alertava que os analfabetos do futuro não seriam os que não sabem ler, mas os que não sabem aprender, desaprender e reaprender. O próprio Charles Handy, com sua visão humanista da gestão, reforça que o profissional do futuro deve ser um eterno aprendiz.
Particularmente, vejo o aprendizado contínuo não como um diferencial competitivo, mas como uma responsabilidade cidadã. Uma sociedade que se educa permanentemente tende a ser mais crítica, mais inovadora e menos manipulável. E, no campo dos negócios, um líder que não estuda é como um piloto que se recusa a ler os manuais de voo antes de uma tempestade.
Talvez, um dia, eu chegue aos meus noventa e poucos e possa finalmente dizer: “Acho que estou começando a entender um pouco sobre o que é que eu não sei”. Até lá, o cafezinho e os livros seguem sendo meus melhores amigos e, se bobear, até mesmo o ChatGPT me ensina uma ou duas coisas. Afinal, a aposentadoria da mente é um luxo que o futuro não nos permite mais.
Para fechar, deixo aqui um alerta: se você não leu nenhum livro nesta semana, fuja de mim na roda de café da empresa, posso acabar te convencendo a levar na mochila a Crítica da Razão Pura. E nem venha com a desculpa de que está sem tempo... afinal, se até eu, chegando aos 80 e vista cansada, me viro bem com um Kindle, você também pode!




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