TRÊS APITOS
- Carlos A. Buckmann
- 3 de jun.
- 4 min de leitura

A FILOSOFIA DO OPERÁRIO POETA (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Noel Rosa, o filósofo de Vila Isabel, nasceu em 1910 e partiu em 1937, aos vinte e seis anos.
Tinha o rosto marcado por uma atrofia da mandíbula, mas a alma desmesurada. Em menos de uma década de criação, deixou mais de duzentas canções; um legado que espanta.
Como pôde um jovem, quase menino, morador de um quarto modesto, com saúde frágil, compor obra tão vasta e tão rica? Talvez porque a morte prematura tenha um privilégio: a urgência. Quem sabe que o tempo é curto não desperdiça um só instante. A filosofia da MPB começa aqui: não há sabedoria sem consciência do fim.
“Quando o apito da fábrica de tecido / Vem ferir os meus ouvidos / Eu me lembro de você”
O apito não é um som qualquer. É um ferimento.
Schopenhauer (sempre mal humorado) diria que a vida é uma oscilação entre a dor e o tédio, e o apito da fábrica é a dor do trabalho que separa os amantes.
Mas há um deslocamento genial: o apito que fere os ouvidos do compositor é o mesmo que governa a vida da amada. A lembrança não nasce da saudade voluntária, nasce da violência sonora do capital.
Benjamin, ao analisar a experiência na modernidade, falava do choque como matéria-prima da memória. Noel já sabia: o amor se lembra na fumaça das chaminés.
“Você que atende ao apito de uma chaminé de barro / Por que não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?”
Aqui reside uma questão ontológica. A amada obedece ao apito da fábrica, um objeto frio, de barro, que ordena seu corpo. E não atende à buzina do carro, um grito humano, um sinal de aflição.
Heidegger nos ensinou que a técnica moderna transforma o mundo em reserva, algo a ser controlado.
A mulher tornou-se parte da reserva fabril. O eu lírico, com sua buzina, ainda é um existente que chama por outro existente. A fábrica vence. E a filosofia pergunta: por que nos curvamos mais às coisas do que aos rostos?
“Você no inverno sem meias vai pro trabalho / Não faz fé com agasalho / Nem no frio você crê”
Negligência ou resistência?
Talvez as duas coisas. A amada não crê no frio, como se o corpo fosse mais forte que o clima.
Espinosa falaria de um conatus exagerado, um esforço para perseverar na existência mesmo contra as intempéries.
Mas há também a leitura marxista: o trabalho precário a obriga a ir sem meias.
Noel não escolhe; ele mostra. Eu penso que a fé não está apenas nos deuses, mas também no agasalho que não se tem. A mulher que não crê no frio é, paradoxalmente, a que mais sente frio.
“Sou do sereno poeta muito soturno / Vou virar guarda noturno / E você sabe por quê”
O poeta se anuncia como sereno. Palavra ambígua: pode ser a calma da noite, mas também o orvalho que molha quem vaga sozinho. Soturno, escuro. Ameaça virar guarda noturno: uma profissão de vigília, de solidão armada. Por quê? Para vigiar a amada? Para proteger o amor? Para ocupar o mesmo turno da fábrica?
Foucault nos lembraria que o poder se exerce por meio da vigilância. Mas aqui a vigília é trágica: o poeta não quer controlar, quer apenas estar perto. A filosofia da MPB é essa: o amor que se disfarça de ofício para não morrer de ausência.
“Mas só não sabe que enquanto você faz pano / Faço junto de um piano esses versos pra você”
Eis a verdadeira divisão do trabalho.
Ela faz pano, matéria, trama, suor. Ele faz versos, ritmo, rima, alma.
Marx diria que ela produz valor de troca sob exploração; ele produz valor simbólico sob inspiração. Os dois são operários, mas um opera a máquina têxtil, o outro opera as palavras. E o poema, feito “junto de um piano”, é o testemunho de que a arte não alimenta o corpo, mas sustenta o desejo. O gerente impertinente que dá ordens a ela jamais dará ordens aos versos. Aí está a pequena vitória da poesia sobre o trabalho.
“Nos meus olhos você vê / Que eu sofro cruelmente / Com ciúmes do gerente impertinente / Que dá ordens a você”
Ciúmes do gerente. Não do amante. Não do rival afetivo. Do patrão. Que deslocamento filosófico extraordinário! O ciúme típico é pelo corpo amado; aqui é pela autoridade que manda.
Sartre diria que o olhar do outro me constitui como objeto. O gerente tem o poder de objetificar a amada, dar-lhe ordens, reduzi-la a função. O poeta, que a vê como sujeito, sofre por não poder interromper essa redução. O ciúme não é posse, é impotência.
A MPB, mais uma vez, reinventa a psicologia.
Noel Rosa morreu aos vinte e seis anos, mas seus versos são mais vivos que muito tratado de filosofia.
Ele nos ensinou que o apito da fábrica pode ferir os ouvidos, mas pode também, por estranha alquimia, despertar a memória do amor. Que a buzina do carro é um grito tão humano quanto uma prece. E que o gerente impertinente, que dá ordens no chão da fábrica, jamais ouvirá os três apitos que o poeta soprou para a eternidade.
Este cronista, que começou falando da morte precoce de Noel, termina ouvindo o eco de sua vida vasta.
E se há filosofia na MPB, ela está nessa lição final: o amor não vence o trabalho, mas o transforma em verso.
E o verso, esse sim, não atende a apito nenhum.
Apenas ecoa, nos labirintos da alma.
Assista o clipe no Youtube, na voz de Maria Bethânia:




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