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TRABALHAR, IMPORTA EM AMAR

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

TRABALHAR, IMPORTA EM AMAR    

            Com os olhos postos na complexidade da existência, reflito sobre a essência do amor, esse motor que impulsiona e desafia a própria teia da vida. Desde as clássicas distinções de Aristóteles, que desdobrava o amor em suas facetas: a “philia”, a amizade virtuosa e desinteressada; a “eros”, o desejo ardente, por vezes carnal, mas também a busca pela beleza e perfeição; e a “ágape”, o amor divino, sacrificial e incondicional, até a profunda introspecção de Santo Agostinho, para quem amar era, em sua essência, desejar o bem do outro, e cujo único limite era o amar sem limites, percebo que o amor é uma força multifacetada, capaz de se manifestar em incontáveis formas, cada qual com sua ressonância única em nossa alma.

            Essas definições reverberam em mim sempre que acordo com vontade de transformar o cotidiano em algo com sentido. Porque o amor, em suas múltiplas formas, não é só o abraço de quem nos espera em casa. Ele está também na admiração por uma ideia, na entrega a um projeto, e principalmente, no carinho por aquilo que fazemos diariamente.

            É na vivência desse espectro amoroso que desvendamos nossa própria jornada. No desenvolvimento pessoal, o amor se revela no autoconhecimento, na aceitação das imperfeições e na busca incessante por aprimoramento. Amar a si mesmo, não como egocentrismo, mas como reconhecimento do próprio valor, é o primeiro passo para estender essa capacidade aos outros e ao mundo. Profissionalmente, essa máxima ressoa com ainda mais veemência. Quantas vezes não ouvimos a máxima de que “trabalhar com o que se ama não é trabalho”? Não é mera retórica; é a materialização de uma verdade profunda. Quando há amor pelo que se faz, a labuta transmuta-se em paixão, o esforço em propósito e o cansaço em satisfação. As horas fluem, os desafios são encarados como oportunidades de aprendizado, e a criatividade brota de um poço inesgotável. O amor pelo ofício não é um luxo, mas uma necessidade intrínseca para a realização plena.

            E é nesse ponto que as palavras de Bertrand Russell ecoam com uma verdade contundente:

            "Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos." 

            Há uma lucidez brutal nessa afirmação. O indivíduo que se recusa a amar, seja a si mesmo, ao próximo, ou àquilo que o move no mundo, fecha as portas para a plenitude da experiência humana. Um trabalho sem amor é, de fato, a própria morte em vida. É a repetição mecânica, a ausência de brilho nos olhos, a rotina esmagadora que consome a alma e transforma o ser em uma sombra do que poderia ser. A ausência de amor no que se faz, seja por coerção externa ou por falta de autoconhecimento, leva à estagnação, à melancolia e, em última instância, à apatia existencial. A energia vital se esvai, e o tempo se torna um carrasco, e não um aliado.

            Amar o que se faz não é luxo, é sobrevivência da alma. Profissionalmente, quando me afasto do amor, seja pela rotina mecânica, pelas tarefas sem propósito ou por ambientes que sufocam o entusiasmo, sinto a existência escorrer pelos dedos. Um trabalho sem afeto é uma vida sem música: pode até haver som, mas falta melodia.

            Essa visão não é exclusividade de Russell. Inúmeros pensadores e artistas, ao longo da história, comungaram desse entendimento. Viktor Frankl, em sua obra "Em Busca de Sentido", ressaltou a importância de encontrar um propósito na vida, um "porquê" que nos permita suportar quase qualquer "como". Esse propósito, muitas vezes, está intrinsecamente ligado ao amor – seja o amor pela família, por uma causa, ou pelo próprio trabalho que dignifica. Khalil Gibran, em "O Profeta", discorre sobre o trabalho como "amor tornado visível", um ato de devoção que enobrece a alma. E não podemos esquecer de Sócrates, que, em sua busca pela verdade e pelo conhecimento, defendia que a vida não examinada não vale a pena ser vivida, e essa "vida examinada" passa necessariamente pela compreensão e vivência do amor em suas múltiplas dimensões. O cinema e a literatura estão repletos de personagens que, ao encontrarem o amor em suas vidas ou em suas paixões, transcendem as adversidades e realizam feitos extraordinários, provando que o amor é, sim, a maior força motriz.

            A correlação entre a vivência plena do amor e a satisfação pessoal e profissional é exponencial. Indivíduos que cultivam o amor em suas ações demonstram maior resiliência, criatividade e um senso de propósito mais aguçado. A ausência, por outro lado, gera padrões de baixa performance e um aumento significativo em índices de esgotamento e frustração. É uma equação simples: amor é vida, ausência de amor é a antecâmara do esquecimento.

            E digo mais: quem nunca teve um chefe que parece ter feito estágio com o Minotauro? Amor no ambiente de trabalho não é sobre abraços corporativos, é sobre respeitar talentos, valorizar trajetórias e permitir que cada um floresça sem precisar pedir licença para ser quem é.

            No fim das contas, quem teme o amor provavelmente também teme dançar em público, rir alto na hora errada e admitir que já chorou por causa de uma música brega. Mas quer saber? Melhor parecer ridículo e estar vivo do que parecer impecável e estar morto por dentro.

            Se você está lendo isso e pensando que precisa de mais amor na vida, talvez o universo esteja te dando um sinal. Ou talvez você só precise de uma pizza. Afinal, amar a pizza também é um tipo de amor, e quem sou eu para julgar?

 

 
 
 

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