SÓ NOS RESTA VIVER
- Carlos A. Buckmann
- 15 de mai.
- 3 min de leitura

SÓ NOS RESTA VIVER (*)
(Da série A FILOSOFIA NA MPB)
Ângela Ro Ro, a mulher de voz gutural e olhar de quem já viu o fundo do poço de tão perto e que aprendeu a enxergar nele um céu estrelado.
Buscava um sentido para a vida no seu jeito de viver, e que jeito era aquele! Entre noites de blues e manhãs de ressaca existencial, cantava como quem filosofava com o fígado.
Dizia Schopenhauer que a vida oscila entre a dor e o tédio; Ângela, essa, oscilava entre a dor e a festa. E foi nesse balanço que ela nos deixou uma lição que atravessa décadas como um trem em linha reta, na letra de “SÓ NOS RESTA VIVER”
"Dói em mim saber que a solidão existe / E insiste no teu coração"
A solidão não é um acidente. É uma insistência. O filósofo Emmanuel Levinas ensinou que o rosto do outro nos convoca à responsabilidade, mas o que acontece quando esse rosto se fecha numa redoma de vidro?
Dói em mim saber que você, mesmo rodeado de gente, carrega um deserto dentro do peito. Hoje, a solidão se veste de notificações de WhatsApp e stories vazios. A atualidade? Toda ela: o vizinho que não olha nos olhos, o amigo que responde com figurinha, a multidão no metrô onde ninguém toca ninguém.
A solidão insiste. E dói em mim como se fosse minha.
"Dói em mim sentir que a luz que guia o meu dia / Não te guia, não"
Sartre diria que estamos condenados à liberdade, mas e quando a liberdade do outro é escolher a escuridão? Cada um tem sua própria lanterna. A minha aponta para o nascer do sol; a sua, para um túnel sem fim. Não posso acender sua chama com a minha, e essa impotência é uma dor de dente na alma.
Quantas vezes, assistimos de braços cruzados a quem se afunda na própria noite? As redes sociais estão cheias de "você não está sozinho", mas a verdade é que ninguém pode carregar a lanterna do outro. Dói. Dói saber que minha luz não te guia.
"Quem dera pudesse a dor que entristece / Fazer compreender"
Aí está o grande paradoxo. Nietzsche escreveu que o que não me mata me torna mais forte, mas e o que me mata por dentro, lentamente? A dor que entristece deveria ser professora, mas muitas vezes só nos deixa repetentes.
Quem dera a tristeza ensinasse alguma coisa! Quem dera cada lágrima fosse uma lição de filosofia aplicada!
No entanto, a vida real, essa que vemos nos noticiários e nos ônibus lotados, mostra o contrário: a dor muitas vezes só produz mais dor. E ainda assim, Ângela canta.
"Os fracos de alma sem paz e sem calma / Ajudasse a ver"
Kierkegaard falava do desespero que não se sabe desespero. Os fracos de alma são esses: os que perderam a bússola e nem perceberam. Vivem numa agitação sem sossego, numa paz que é só ausência de barulho. Ajudá-los a ver, eis a tarefa impossível.
Por que ver o quê? Que a fragilidade não é vergonha? Que a alma sem calma é apenas uma alma à procura?
Hoje, no século da ansiedade clínica e do burnout decorativo, somos todos, em alguma medida, fracos de alma. O truque talvez seja admitir a fraqueza sem transformá-la em espetáculo.
"Que a vida é bela / Só nos resta viver"
O estribilho que é quase um tapa na mesa.
Albert Camus, no auge do absurdo, escreveu que é preciso imaginar Sísifo feliz. Ângela vai além: ela não imagina, ela decreta. A vida é bela. Não apesar da dor, mas com a dor dentro.
Como uma fruta com caroço. Só nos resta viver, e esse "só" não é resignação, é coragem. Porque viver, realmente viver, é aceitar que a beleza não exclui o espinho. A beleza não precisa ser justificada. Ela está no café quente, no abraço inesperado, no sol que nasce mesmo depois da noite mais longa.
"Laraiá, lararaí"
A canção termina na melodia de um balanço que não precisa de palavras. Laraiá, lararaí, é o som de quem já discutiu com a filosofia, já brigou com Deus, já se reconciliou com o nada, e resolveu dançar.
No fim das contas, Ângela, que tanto buscou um sentido no seu jeito de viver, talvez tenha encontrado a resposta mais simples: o sentido não está na busca, está no passo. Naquele gingado do corpo que insiste em seguir, mesmo quando a alma pesa.
Viver, meus caros, é o que nos resta. E se é resto, que seja banquete. Que seja festa.
Que seja, antes de qualquer tratado metafísico, esse Laraiá que a gente canta sem saber por que, e que, por não saber, acerta no centro da vida.
(*) Assista o clip no YouTube




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