top of page

SOBRE RAIOS E MONTANHAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

SOBRE RAIOS E MONTANHAS

A Ilusão da Invencibilidade

            Li Dom Quixote de La Mancha duas vezes na vida, e entre uma leitura e outra, passaram-se mais de quinze anos. A primeira, aos dezenove, com a impaciência do jovem que busca heróis; a segunda, aos trinta e tantos, com a melancolia do adulto que já viu moinhos virarem gigantes de verdade.

            Cervantes publicou o primeiro volume em 1605 e só retomaria o fidalgo enlouquecido em 1615, uma década de silêncio, de guerra, de cárcere, de pobreza extrema. Entre esses dez anos, o mundo mudou. E ele também. Quando voltou a escrever, já não era só para rir da loucura alheia, mas para chorar a própria.

            Miguel de Cervantes y Saavedra nasceu em 1547, soldado, prisioneiro em Argel, funcionário público mal remunerado, escritor tardio e quase ignorado em vida. Sua obra-prima foi escrita nas frestas do desespero, com a tinta da ironia e o papel da resignação. E, no entanto, foi ele, o ferido, o esquecido, o caído, quem nos legou uma das frases mais lúcidas sobre o destino dos que se erguem demais: 

            “Os raios caem sobre os montes mais elevados, e onde encontram mais resistência é onde provocam o maior dano.”

            Essa frase me persegue desde que comecei a observar o mundo dos negócios, não como espectador, mas como quem já viu torres desabarem sob o peso da própria arrogância.

            Quantas vezes não vemos empresas que, no auge do sucesso, se tornam impenetráveis? Crescem, erguem sedes de vidro espelhado, contratam consultorias caríssimas só para ouvir o que já sabem, e passam a tratar o mercado como um súdito a ser dominado, não como um parceiro a ser compreendido. Tornam-se montanhas: altas, orgulhosas, aparentemente inabaláveis. Mas é justamente aí, na rigidez da autoconfiança excessiva, que o raio encontra seu alvo perfeito.

            O raio não é o concorrente novo. Não é a crise econômica. O raio é a incapacidade de dobrar-se. É a recusa em ouvir o cliente insatisfeito, o funcionário desmotivado, o jovem que propõe um modelo disruptivo. É a crença de que “sempre fizemos assim” é resposta suficiente para qualquer tempestade.

            Nietzsche, que conhecia bem os perigos da altura, escreveu: “Quem luta contra monstros deve cuidar para não se tornar um monstro.” Mas poderia ter acrescentado: “E quem se ergue demais deve cuidar para não atrair os céus.” O que nos leva a Heráclito, que milênios antes, já sabia: “Tudo flui.” Nada permanece. Resistir à mudança não é força, é fragilidade disfarçada de fortaleza.

            Quem não lembra dos exemplos da Kodak e da Blockbuster?

            A prevenção, então, não está em evitar o crescimento, mas em cultivar a porosidade. Empresas resilientes não são as mais altas, mas as mais flexíveis. Como o bambu, que se curva na tempestade e não quebra.

            Peter Senge, em “A Quinta Disciplina”, chamou isso de “aprendizado organizacional”: a capacidade de questionar pressupostos, de admitir ignorância, de transformar erros em conhecimento coletivo.

            Edgar Morin, por sua vez, defende o “pensamento complexo”, a arte de enxergar as contradições, os paradoxos, as interdependências. Quem pensa assim não se ergue como montanha. Caminha como rio: moldando-se ao terreno, mas sempre avançando.

            A verdadeira grandeza não está na altura, mas na capacidade de acolher o vento sem se quebrar.

            Vivemos numa cultura que idolatra o “topo”: CEO, “unicórnio”, “market Leader”,” influencer”. Mas esquecemos que o topo é o lugar mais exposto, não só à glória, mas à queda. E quando a queda vem, não é suave. É estrondosa. Porque quem se recusa a ceder, quando cede, desmorona por inteiro.

            A inspiração da música nos traz, às vezes, grandes lições. Lembro  de um samba antigo, “A Banca do Distinto”, gravado por Elis Regina que dizia:

“A vaidade é assim, põe o tonto no alto E retira a escada Mas fica por perto esperando sentada Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão

Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do tonto afinal Todo mundo é igual quando o tombo termina Com terra em cima e na horizontal”

            E voltando a Cervantes, não se engane: o raio não escolhe alvos ao acaso. Ele busca a rigidez. A soberba. A ilusão de que o sucesso é mérito absoluto, e não fruto de circunstâncias, sorte e ajuda alheia.

            Portanto, não tema crescer. Tema endurecer. Mantenha os pés na terra, mesmo quando o mundo o colocar num pedestal.

            Ouça mais do que fala. Aprenda mais do que ensina. E, sobretudo, lembre-se:  a montanha mais alta não é a mais forte, é a mais solitária.            E os raios, como bem sabia Cervantes, preferem a solidão dos orgulhosos.

            Então, não seja montanha. Seja jardim: fértil, acolhedor, capaz de florescer até depois da tempestade.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page