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SOBRE O QUE NÃO VEMOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 5 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

SOBRE O QUE NÃO VEMOS

            Há um instante, enquanto caminhava pelas ruas de Porto Alegre, cidade que, como toda metrópole, parece sussurrar filosofias entre os azulejos e os rangidos dos carros que passam apressados, parei diante de um espelho partido, abandonado numa vitrine esquecida. Olhei para os fragmentos. Cada pedaço refletia um pedaço de mim, mas nenhum compunha a imagem inteira. Foi então que me ocorreu: talvez a verdadeira sabedoria não esteja em acumular conhecimento, mas em reconhecer, com humildade, o quão pouco sabemos. A vida, em sua essência, é um campo de incertezas, um labirinto onde os mapas que desenhamos são sempre provisórios, e os problemas que nos cercam, como sombras, mudam de forma conforme a luz muda de ângulo.

            É nesse terreno movediço do saber e do não-saber que entro em diálogo com Lacan, cuja psicanálise me oferece uma lente particularmente aguda para observar a condição humana. Para Lacan, o Outro, não apenas o outro ser humano, mas o campo simbólico, a linguagem, a ordem social, é o lugar de onde provém nosso desejo e nossa identidade. Não nos conhecemos diretamente; somos constituídos pela maneira como o Outro nos vê, nos nomeia, nos interpela. Ver o Outro, portanto, não é uma simples operação óptica; é um ato ético, um exercício de escuta do que ele é além da máscara que lhe impomos. Mas, como Lacan bem sabia, estamos condenados a errar. A imagem que temos do Outro é sempre uma méprise, como escreveu Lacan, um equívoco, uma ilusão capturada no espelho do imaginário.

            É aqui que a frase de Saramago ressoa como um grito abafado no silêncio das certezas: “A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente.” Essa cegueira não é a ausência de luz, mas a presença de uma opacidade interior, uma incapacidade de ver o que está diante dos olhos, mesmo quando iluminado. Não se trata de ignorância factual, mas de uma resistência ontológica ao novo, ao diferente, ao inesperado. É a cegueira que impede o reconhecimento do Outro como sujeito, reduzindo-o a um objeto de nossos desejos, preconceitos ou conveniências.

            Nesse sentido, a sociedade moderna é um campo de batalha de cegueiras múltiplas. Vivemos cercados por rostos, por vozes, por histórias e, ainda assim, enxergamos apenas reflexos distorcidos de nós mesmos. Não vemos o mendigo como alguém que poderia ter sido professor, o imigrante como portador de saberes ancestrais, o colega de trabalho como um ser atravessado por dores e esperanças que não cabem em seu cargo. Essa incapacidade de ver o Outro como ele é, em sua alteridade radical, é a raiz da indiferença, da injustiça, da violência simbólica que sustenta estruturas opressivas.

            Mas a cegueira mental não se limita ao plano ético ou social. Ela se estende, com voracidade, ao mundo dos negócios, onde, paradoxalmente, se exige visão estratégica, inovação, adaptação. A vida, como bem ensinou Heráclito, é fluxo: panta rhei. Tudo muda. Nada permanece. E, no entanto, quantos empreendedores insistem em governar suas empresas como se o mundo fosse um relógio suíço, previsível e imutável? Apegam-se a modelos ultrapassados, a hierarquias rígidas, a produtos que já não dizem nada à alma contemporânea. Não enxergam que o consumidor de hoje não compra apenas um bem, mas uma narrativa, uma identidade, um sentido. Não veem que o trabalho não é mais apenas uma troca de tempo por salário, mas um campo de significação existencial.

            Essa incapacidade de ver a mudança como essência do real é o que leva à obsolescência. Empresas que foram gigantes, Kodak, Blockbuster, Nokia, não foram derrotadas por falta de recursos, mas por cegueira mental. Não viram o digital, não viram o streaming, não viram o smartphone. Viram, sim, mas recusaram-se a reconhecer o que tinham à frente. Como os personagens de Ensaio sobre a Cegueira, andavam com os olhos abertos, mas estavam cegos. E, como em Saramago, a epidemia de cegueira não é biológica, é simbólica. É uma pandemia da percepção.

            Outros pensadores ecoam essa advertência. Hannah Arendt falava da banalidade do mal, que nasce justamente da incapacidade de pensar, de ver o outro como humano. Adorno denunciava a indústria cultural que anestesia a consciência crítica. Foucault mostrava como o poder se exerce através de dispositivos que moldam o que podemos ver e dizer. E todos, de formas distintas, apontam para o mesmo abismo: a negação do outro, a recusa do novo, a idolatria do já-sabido.

            Nos negócios, essa cegueira é suicídio. O mercado não perdoa quem insiste em vender mapas de um território que já foi engolido pelo mar. A inovação não é um luxo; é a respiração do empreendimento. E quem não respira, morre. Mas a inovação autêntica não vem de tecnologia, mas de percepção. De ver o que está diante dos olhos com olhos novos.

            É hora, então, de um diagnóstico cruel: a cegueira mental é o mal-estar da civilização contemporânea. É o vício de acreditar que já sabemos, que já vimos, que já entendemos. É a arrogância de quem, diante de um espelho, só vê a si mesmo, e chama isso de sabedoria. - Como me respondeu um empresário de quem eu cobrava a rapidez da mudança: “Aqui a gente faz as coisas mais devagar.” Eu preferi sair correndo de perto dele.

            Que triste comédia: criamos algoritmos capazes de reconhecer rostos, prever comportamentos, traduzir línguas antigas, mas somos incapazes de reconhecer um colega triste no corredor, um cliente insatisfeito, uma mudança no vento. Nossos sistemas enxergam mais do que nós. Nossos data centers têm mais empatia do que nossos conselhos de administração.

            Enquanto as máquinas aprendem a ver, nós, humanos, aprendemos cada vez menos. Avançamos com os olhos vendados pela certeza, tropeçando em futuros que já estão aqui, mas que teimamos em não reconhecer.

            Afinal, o que é mais cego: quem não tem olhos ou quem tem olhos, mas recusa a luz? Talvez Saramago já tenha respondido. Talvez Lacan também. O problema é que, como sempre, não estamos ouvindo nem vendo.  - E enquanto isso, o mundo muda. E nós, cegos, continuamos a dizer: “Mas como assim? Ninguém me avisou.”  - Como se o aviso não estivesse escrito em cada rosto que cruzamos, em cada espelho fragmentado que nos mostra em partes, em cada mudança que sentimos no ar, em cada frase como esta, que você, agora, lê, e talvez já esteja esquecendo.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora.

 
 
 

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