NO LIMIAR ENTRE O CORPO E A ALMA
- Carlos A. Buckmann
- 22 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de jul. de 2025

SEXO, ÁLCOOL E PALAVRAS NO LIMIAR DA ALMA.
Café Entre Fluxos, um espaço onde o pensamento não se acovarda diante da nudez da experiência. Hoje o café ferve como sangue: AnaÏs Nin, Vladimir Nabokov e Charles Bukowski adentraram ao Café como se noite ainda fosse. Com suas presenças a atmosfera se adensa, carregada de desejo, contradição e vício.
Sensações são o que fazem do Café Entre Fluxos um lugar onde pensamento e carne se tocam. Alguns elementos sensoriais tornam a atmosfera ainda mais vívida e filosoficamente carregada nessa manhã de noite mal dormida:
Velas tremulantes que criam sombras instáveis sobre rostos e palavras, sugerindo a impermanência da verdade, relógios sem ponteiros, livros com páginas rasgadas, espelhos que distorcem o reflexo, símbolos do tempo, da fragmentação e da subjetividade.
Cigarros e charutos liberam neblinas suaves que dançam entre os diálogos, como se os pensamentos ganhassem forma no ar. Jazz melancólico, murmúrios clássicos ou gravações de vozes filosóficas em línguas diversas, criando um pano de fundo caótico e poético.
Hoje os aromas são contrastantes: café fresco misturado ao perfume de absinto, lavanda e tabaco, uma alquimia que envolve os sentidos e sugere decadência sensual.
Elementos que transformam o cenário num organismo pulsante. Afinal, como diria Anaïs Nin:
- “A realidade não é aquilo que vemos, mas aquilo que sentimos ao tocá-la.”
O Café respira lascívia e lucidez. As paredes são revestidas por páginas em línguas diversas, francês, russo, inglês, alemão, todos fragmentos de textos proibidos ou ignorados. Luz vermelha se esparrama como pecado sobre cada mesa, e o odor que paira não é apenas o da torra de grãos, mas o do tabaco cubano, do Bourbon barato e da memória de uma noite que não quer acabar. Os clientes observam em silêncio, como cúmplices involuntários da catarse. Há um jukebox que só toca canções que doem, e as taças transbordam antes mesmo de serem pedidas.
Este encontro inusitado leva cronista bartender a viajar no tempo, e se encontrar com o jovem boêmio dos tempos em que era estudante do curso de letras e apaixonado por filosofia e... por algumas colegas de classe com quem gravou belas lembranças.
Bukowski, com sua cara de eterna ressaca de vinho do porto, um gosto que nunca entendi, está com o rosto inchado de bebida e uma ironia afiada como faca de açougueiro:
- “Odeio política, odeio promessas. Meu romance ‘Factótum’ é só isso: eu tentando sobreviver aos dias inúteis. O álcool é mais honesto que a maioria das pessoas.”
Nabokov, com seu sotaque russo, sorri com sarcasmo elegante, os dedos tamborilando sobre o exemplar de Lolita:
- “O vício não está no álcool, Bukowski. Está no desejo mal compreendido. Lolita não é pornografia, é dor estilizada, desejo impossivelmente narrado. A estética é meu vício.”
AnaÏs Nin puxa uma longa tragada do cigarro francês e sua voz é um sussurro sensual:
- “Escrevi Delta of Vênus não para escandalizar, mas para libertar. O erotismo é um idioma que só os corajosos decifram. Eu e Henry Miller não tínhamos vergonha. Tínhamos desejo.”
Bukowski coça o rosto com desprezo:
- “Vocês são sofisticados demais pra mim. Mas a verdade é que toda poesia vem de uma ressaca que a alma não consegue curar. Ninguém é puro. Só os hipócritas.”
Nabokov, debochado, ri baixinho:
- “A pureza é uma armadilha sem estilo. Eu prefiro o labirinto da linguagem, onde nada é o que parece, nem mesmo o narrador.”
Anaïs, a eterna amante de Miller, encara os dois com ternura quase maternal:
- “No fim, escrevemos porque não conseguimos viver sem nos despir. A alma quer se expor, mas o corpo a teme.”
Há concordância no vício pela linguagem, na confissão como forma de arte. Mas se contradizem nos métodos: Bukowski quer sujar a página, Nabokov quer polir, Anaïs quer tocar com dedos e pele. O Café observa, enquanto atrás do balcão, enxugo os copos como quem limpa memórias.
Depois que saem, o Café retorna à sua penumbra criativa. E então penso:
“Alguns se embriagam com álcool, outros com palavras, mas todos, sem exceção, derramam sua lucidez em goles que o tempo não devolve.”




Comentários