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SER UM PROCESSO, NUNCA UM PRODUTO

  • Carlos A. Buckmann
  • 23 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

SER UM PROCESSO, NUNCA UM PRODUTO

            Na indústria, tudo começa com um desejo: criar algo novo, útil, desejável.           Para isso, engenheiros, designers e pesquisadores mergulham num longo processo, protótipos são esboçados, testados, descartados, refeitos. Um carro não sai da linha de montagem perfeito na primeira tentativa; passa por simulações de colisão, ajustes aerodinâmicos, testes de consumo, feedbacks de consumidores.

            Um medicamento leva anos, às vezes décadas, entre laboratórios, ensaios clínicos, aprovações regulatórias, até ser considerado “pronto” para o mercado. E mesmo então, pode ser aperfeiçoado, atualizado, substituído. O que vale na indústria é claro: o produto é o ápice provisório de um processo contínuo.

            Mas eis o paradoxo humano: enquanto aceitamos com naturalidade que objetos, fórmulas e máquinas dependam de iteração e imperfeição inicial, insistimos em tratar o ser humano como se fosse um produto acabado, ou pior, como algo que deveria ser acabado.

            Aos vinte anos, já se espera que o jovem saiba “quem é”; aos trinta, que tenha carreira definida; aos cinquenta, que seja uma “referência”. E assim, muitos, em algum momento da vida, proclamam, com orgulho ou cansaço: “Sou isso. Pronto. Não mudo mais.”

            É aí que o perigo se instala.

            Pois quando alguém se entende como um produto, selado, rotulado, exposto nas prateleiras do mercado de trabalho, do amor, da reputação, fecha as portas ao próprio movimento vital. Torna-se rígido. Frágil. Incapaz de aprender com o erro, porque erro não cabe em produto “perfeito”. Recusa-se a escutar o outro, porque o outro pode exigir dele uma mudança. Vive sob a tirania da coerência, como se ser fiel a si mesmo significasse repetir eternamente os mesmos gestos, as mesmas opiniões, os mesmos medos.

            Carl Rogers, psicólogo humanista e um dos maiores pensadores da subjetividade no século XX, viu com clareza esse equívoco. Em seu livro Tornar-se Pessoa, ele escreve que a saúde psicológica não está em alcançar uma identidade fixa, mas em abraçar a fluidez da existência. “O indivíduo parece se mostrar mais satisfeito em ser um processo ao invés de um produto”, diz ele, e nessa frase simples reside uma verdade profunda: a vida não é um destino a ser conquistado, mas um caminho a ser vivido. Rogers não idealiza o “eu ideal”; celebra o “eu em movimento”, aquele que se permite duvidar, desaprender, recomeçar, até nos últimos dias.

            E como não poderia ser diferente?

             Desde o Australopithecus que ergueu os olhos do chão e começou a caminhar ereto, o ser humano nunca foi uma espécie de conclusão biológica.        Somos, por essência, experimentação viva. Nossos cérebros se remodelam com cada experiência, neuroplasticidade não é metáfora, é fato.

            Nossas emoções evoluem com cada encontro. Nossas crenças se transformam com cada leitura, cada luto, cada surpresa.

            Nietzsche já dizia que “tornar-se o que se é” não é um ato de revelação de uma essência fixa, mas um trabalho de criação contínua.

            Heidegger via o “Dasein”, o ser-aí, como um projeto aberto, nunca encerrado.  

            Até o budismo, milenar em sua sabedoria, ensina que o apego à ideia de um eu permanente é a raiz do sofrimento.

Hoje, chegando aos oitenta anos, minhas mãos tremem um pouco mais, minha memória às vezes vacila, mas meu espanto diante do mundo continua intacto.

            Ontem li um poema de Rilke que me fez chorar; hoje, ouvi uma jovem falar de inteligência artificial com tal paixão que me fez querer me aprofundar em novas plataformas de IA.

            Não sou um produto empacotado pela idade. Sou um rio que ainda corre, mais lento, talvez, mas não menos profundo.

            Vivemos numa era que valoriza o “deliverable”, o resultado, o “conteúdo pronto”. Mas a alma humana resiste a essa lógica mercantil. Ela não quer ser vendida. Quer ser vivida. E viver é, por definição, não estar acabado.

            Que possamos, então, desconfiar de quem se apresenta como “definitivo”.          Que celebremos, ao contrário, os que duvidam, os que mudam de ideia, os que se permitem ser contraditórios, porque só quem se sabe em processo pode, de fato, crescer.

            O ser humano não é um produto a ser consumido. É um verbo. Um movimento. Uma pergunta que se renova a cada amanhecer.

             É nisso, nessa inquietação sagrada, que reside sua mais bela e inalienável dignidade.

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 
 
 

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