SENTAR SOBRE BAIONETAS
- Carlos A. Buckmann
- 10 de mai. de 2022
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Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, quando ministro de Napoleão Bonaparte, lhe deu o seguinte conselho: -“Com as baionetas, Sir, pode-se fazer tudo, exceto uma coisa: sentar-se sobre elas”. Os pouco letrados comandantes de nosso exército nunca aprenderam essa lição. Em 1987, quando dois oficiais planejaram explodir a adutora do Guandu no Rio de Janeiro e também alguns quartéis, o tribunal militar sentenciou o capitão apenas a quinze dias de prisão e o premiou com a reforma, passando-o para a reserva com todos os direitos, dando origem a esse esbirro, arremedo de Hitler tupiniquim instalado no Palácio do Planalto. O comando se sentou sobre as baionetas, perdendo a força de sua hierarquia e o princípio da obediências às normas e regulamentos do exército. Vejam que falo de hierarquia e obediência, e nunca em disciplina; Isso porque, a palavra disciplina vem do latim: discipulum, dando origem ao nosso termo discípulo, que significa aquele que quer aprender. Em todos os exércitos do mundo, o que temos é obediência, que também vem do latim, Oboedire, que significa escutar, obedecer. E pelas normas e regulamentos, quem não escuta, quem não obedece, quem quebra a hierarquia está sujeito às penas previstas nestas normas e regulamentos.
Agora, mais uma vez, o comando do exército se senta sobre as baionetas, ao passar a mão, tão feroz sobre os civis e tão doce sobre a cabeça de generais que desobedecem às suas normas e regulamentos. As normas e regulamentos foram vilipendiadas, jogadas na vala comum da insubordinação. Os ferimentos constrangedores de quem se senta sobre as baionetas deixa cicatrizes profundas, dilacerando por completo o pouco respeito que nós civis e militares, ainda podíamos ter por essa instituição.
Em tempos de paz, lugar de milico é na caserna. É preciso entender que as forças armadas não são um poder, mas sim subordinadas aos três poderes da república: Executivo, Legislativo e Judiciário. Estes são os que detêm as armas do poder; as forças armadas têm apenas o poder das armas, constitucionalmente a serviço da defesa de nossas fronteiras ou da pátria em tempos de guerras.
Ah! Se forem me tachar, como nos tempos da ditadura, de subversivo, é bom lembrar quem primeiro subverteu a ordem e a disciplina dos quartéis. Quem se sentou sobre as baionetas e causou suas próprias feridas.
É preciso respeitar nossas instituições. Faço aqui “Mea culpa”, mas não fui quem primeiro desrespeitou sua própria história. Respeito sim o exército de Caxias, mas é difícil aturar uma força que o morador do Planalto chama de “meu exército”. Prefiro respeitar o exército dos brasileiros.
E os que se sentaram sobre as baionetas, que curem como puderem suas feridas, mas tenham a certeza de que carregarão para sempre essas vergonhosas cicatrizes.
Beto Buckmann
Maio de 2022.




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