O filósofo que ouve o silêncio no meio do ruído
- Carlos A. Buckmann
- há 2 horas
- 6 min de leitura

Byung-Chul Han (1959-)
O filósofo que ouve o silêncio no meio do ruído
Conheci Byung-Chul Han antes de ler uma só linha sua.
Foi através de uma fotografia: um homem de olhar sereno, sentado em algum lugar que parecia um jardim, com livros ao redor e nenhum smartphone à vista. Na legenda, li que ele se recusava a dar entrevistas, não possuía telefone celular, ouvia música apenas em aparelhos analógicos e cultivava o próprio jardim como forma de resistência política. Naquele instante, pensei: eis um filósofo que encarna o que pensa.
Mas quem é este homem que, nascido na Coreia do Sul em 1959, tornou-se uma das vozes mais incisivas da filosofia contemporânea alemã?
Sua biografia tem algo de romance de formação. Antes de chegar à filosofia, Han estudou metalurgia na Universidade da Coreia, uma escolha prática, esperada, que quase terminou em tragédia quando uma explosão química em sua casa o fez abandonar o curso. Aos 26 anos, tomou uma decisão radical: mentiu para os pais, partiu para a Alemanha sem saber uma palavra de alemão e sem ter lido quase nada de filosofia. Queria estudar literatura alemã, mas lia tão devagar que se transferiu para a filosofia. "Para estudar Hegel, a velocidade não é importante. Basta ler uma página por dia", explicou mais tarde.
Há uma sabedoria profunda nesta declaração aparentemente simples. Ela já contém, em germe, toda a sua crítica à aceleração contemporânea.
Han doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Estudou teologia e literatura alemã em Munique. Lecionou em Basileia, Karlsruhe e, desde 2012, é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade das Artes de Berlim. Católico declarado numa Europa secularizada, ele não faz segredo de que sua fé informa seu pensamento. Mas seria redutor classificá-lo como "filósofo religioso", sua obra dialoga com ateus e crentes justamente porque toca em feridas que todos compartilhamos.
O contexto em que Han emerge é o da passagem da sociedade disciplinar, descrita por Michel Foucault, para algo novo e mais sutil. Se Foucault analisou como o poder se exercia sobre os corpos em instituições fechadas, prisões, escolas, fábricas, Han diagnostica uma mutação: hoje, o poder já não precisa vigiar de fora porque aprendemos a vigiar a nós mesmos.
Este é o solo de onde brotam suas obras mais conhecidas. Em Sociedade do Cansaço (2010), seu best-seller, ele argumenta que a sociedade do século XXI não é mais disciplinar, mas uma "sociedade do desempenho". Deixamos de ser sujeitos da obediência para nos tornarmos "empresários de nós mesmos". O lema já não é "você deve", mas "você pode". E este "poder" revela-se mais cruel que qualquer proibição: agora, exploramo-nos voluntariamente, convencidos de que somos livres, até cairmos em depressão, burnout ou transtornos de atenção. "O que adoece a sociedade não é o excesso de negatividade, mas o excesso de positividade", escreve Han. Não somos vítimas de um poder opressor; somos algozes de nós mesmos.
Em Sociedade da Transparência (2011), ele aprofunda esta crítica. Vivemos sob o imperativo da exposição total. Tudo deve ser visível, acessível, comunicável. Mas esta transparência compulsória, longe de produzir liberdade, gera uma sociedade da desconfiança e do controle. Quando nada pode permanecer oculto, quando a intimidade se torna espetáculo, perdemos a capacidade do segredo, da vergonha, do mistério e, com eles, a possibilidade do amor autêntico.
É o que ele desenvolve em A Agonia de Eros (2012). Numa sociedade narcisista, onde tudo deve ser "curtido" e consumido, o outro desaparece. O amor, que exige abertura ao estranho, ao incontrolável, ao que não podemos reduzir a nós mesmos, torna-se impossível. Resta a pornografia, não apenas a sexual, mas a pornografia generalizada de existências transformadas em mercadoria exposta. "O inferno do igual", ele chama.
A lista de obras é vasta e coerente como uma sinfonia. Em Topologia da Violência (2011), Han mostra como a violência mudou de forma: já não é a decapitação do inimigo, mas a depressão do trabalhador que se autoexplode. Em Psicopolítica (2014), atualiza Foucault e Deleuze para a era digital: o poder hoje coloniza nossa psique através de algoritmos que preveem e moldam nossos desejos. Em No Enxame (2013), analisa a multidão digital, indivíduos isolados que se agregam virtualmente sem formar verdadeiramente um nós, incapazes de ação política coletiva. Em A Salvação do Belo (2015), critica a estética do "liso", do "polido", que elimina qualquer rugosidade, qualquer negatividade, qualquer profundidade.
Há ainda livros menores (em tamanho, não em importância) sobre o entretenimento como nova fórmula do mundo, sobre a hiper culturalidade, sobre a morte, sobre o zen-budismo. Em todos eles, repete-se um mesmo gesto filosófico: mostrar como a suposta liberdade do sujeito contemporâneo é, na verdade, uma nova forma de servidão.
De onde vem este olhar capaz de ver o que nós, imersos no ruído, não conseguimos perceber?
As influências de Han são múltiplas e dialogam de maneira original. De Heidegger, herdou a atenção ao ser e à técnica, mas também a ideia de "disposição afetiva" (Stimmung), a percepção de que nosso humor fundamental revela algo sobre nosso tempo. De Foucault, tomou a análise do poder, mas para mostrar que a biopolítica já não basta: precisamos de uma "Psicopolítica". De Deleuze, recolheu a intuição sobre as "sociedades de controle", mas a levou adiante ao mostrar como o controle se tornou invisível e internalizado.
Há também Hegel, Nietzsche, Agamben, Barthes, Baudrillard, Levinas. Mas talvez a influência mais singular seja a do zen-budismo. Han não é um pensador oriental exoticamente instalado na academia alemã; ele é alguém que consegue articular, de forma única, a tradição fenomenológica europeia com a sabedoria contemplativa asiática. Seus livros são curtos, claros, quase aforísticos, um estilo que ele próprio relaciona à lentidão necessária para pensar. Enquanto muitos filósofos escrevem tratados de centenas de páginas, Han escreve ensaios que podem ser lidos numa tarde. Mas sua leveza engana: eles pesam como âncora na consciência de quem os lê.
Críticos apressados chamam-no de "superficial" ou "filósofo para iniciantes”. Han rebate: "Dizem que meu pensamento é fácil de entender. Mas Faces da Morte não é. Ao lê-lo, descobre-se outra faceta do meu pensamento, completamente diferente, complexa”. A questão não é a profundidade, mas o método: Han diagnostica o presente com a precisão de um médico que sabe que, para certas doenças, o tratamento não pode ser outro senão a clareza.
E aqui chego ao que realmente importa: o que fica de Byung-Chul Han para nós, habitantes deste começo de século tão acelerado quanto vazio?
Há quem o acuse de pessimismo, de nostalgia, de propor um retorno romântico a um passado que nunca existiu.
Não creio que seja justo. Han não quer que abandonemos a tecnologia nem que neguemos o progresso. O que ele nos oferece é um diagnóstico: mostrou-nos que a gaiola dourada em que vivemos foi construída por nós mesmos, com nossos próprios desejos de sucesso, visibilidade e reconhecimento.
Sua mensagem é, paradoxalmente, libertadora. Se o problema é o excesso de positividade, a tirania do "sim", do "pode", do "curtir", então a saída não está em novas conquistas, mas numa certa ascese: reaprender o silêncio, a lentidão, a contemplação.
Han não nos convida a largar tudo e viver no campo (embora ele próprio cultive um jardim). Convida-nos a recuperar a capacidade de dizer "não", de proteger espaços de intimidade não expostos, de acolher o outro em sua diferença radical, de suportar a dor e o tédio sem anestesiá-los imediatamente com entretenimento.
"O que hoje chamamos de crescimento é, na realidade, uma proliferação cancerosa", escreve ele. A metáfora é forte, mas precisa. Crescemos para dentro de nós mesmos, como tumores, quando deveríamos crescer para fora, em direção ao outro, ao mundo, ao que nos transcende.
Penso, ao finalizar esta crônica, na imagem com que comecei: o filósofo sem smartphone, que ouve música em discos de vinil e passa tempo no jardim. Não é uma imagem de fuga do mundo, mas de resistência.
Num tempo que nos empurra para a aceleração perpétua, a lentidão é subversão. Num tempo que exige exposição total, o silêncio é rebelião. Num tempo que transforma tudo em mercadoria, a contemplação inútil é ato de liberdade.
Han nos lembra que a verdadeira liberdade não é fazer tudo o que podemos, mas poder escolher o que não fazer. Não é estar disponível para todos, mas preservar o direito à ausência. Não é consumir infinitamente, mas saber perder tempo com o que realmente importa.
Talvez seja esta a herança que ele nos deixa: a certeza de que, no inferno do igual, ainda podemos cultivar jardins. E que, às vezes, a mais profunda ação política é simplesmente desligar o telefone, sentar-se à sombra de uma árvore, e deixar que o pensamento lento, silencioso, livre, encontre seu próprio caminho.
*Byung-Chul Han foi agraciado com o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2025. O júri destacou "sua brilhante capacidade para interpretar os desafios da sociedade tecnológica”. Que este prêmio ajude mais pessoas a descobrirem um filósofo que não oferece respostas fáceis, mas a pergunta mais necessária de nosso tempo:
O que estamos fazendo de nossa liberdade?




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