SAINDO DO EIXO
- Carlos A. Buckmann
- 5 de ago. de 2020
- 3 min de leitura

Quando nos deparamos repentinamente com acontecimentos inusitados, que nos chocam, perturbam e nos surpreendem, isso nos impacta e literalmente nos “tiram do eixo”. É preciso ter lucidez e rapidez de raciocínio para voltar ao comando de nossos destinos.
Muitos anos atrás, quando eu ainda dirigia, sofri um acidente de carro, quando um motorista bêbado atravessou o sinal fechado e bateu violentamente na lateral de meu carro, na parte traseira e me fez rodopiar 360 graus. Em ato reflexo, virei a direção ao lado contrário do giro causado pelo impacto, tentando manter o carro alinhado evitando uma capotagem e “voltar ao eixo” da rua. Isso me salvou de uma tragédia maior, a não ser a perda total do carro. Nenhum ferimento.
A pandemia que hoje se alastra também me bateu repentinamente e me fez girar fora do eixo.
Trinta dias trabalhando em casa, graças a internet, descobri que dessa maneira se trabalha mais do que presencialmente na empresa.
Sem poder sair, a leitura foi a fuga para os momentos de nada a fazer.
Normalmente quando estou lendo um livro, tenho mais um ou dois a espera para dar continuidade a este hábito que tenho desde infância, adquirido ao ler primeiramente a Bíblia (Toda. - Estudava em colégio Marista), passando pela “Ilha do Tesouro” e “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, pelas “As Aventuras de Huckleberry Finn” e “Tom Sawyer” de Mark Twain. Mas, inadvertidamente, a pandemia me pegou desprevenido e, acabando de ler “Homo Deus” de Yuval Noah Harari, não tinha mais nada inédito para leitura.
A solução foi buscar releituras na minha biblioteca. Busquei em Nietzsche, no “Assim Falou Zaratustra”, o sábio eremita,conforto para o isolamento, mas que só me levou a frustração, sem encontrar em mim o “super homem”. Em “Os Cadernos de Malte Lurids Brigge”, romance autobiográfico de Rainer Maria Rilke, constatei o porquê da inspiração de Jean Paul Sartre ter escrito “A Náusea”, na ausência pelo sentido da vida, na crise do homem atual perante o vazio do mundo moderno. Senti que estas leituras me deprimiam mais, face aos acontecimentos do momento.
Só encontrei algo similar ao que estava vivendo, em “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Marques, onde em meio a epidemia do cólera que arrasava a Colômbia, os personagens entre as adversidades da doença encontravam forças para a continuidade da vida.
Mas consegui voltar “ao eixo”, quando comecei a reler “Walden” de H.D. Thoreau, onde o autor, vivendo dois anos em isolamento voluntário na sua cabana, construída com suas próprias mãos, em meio a mata e às margens do lago Walden, encontrou sentido para sua existência.
Isso me levou de volta a “O Amor nos Tempos do Cólera”, onde Florentino Ariza, “com seu domínio invencível, seu amor impávido, mostrou que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites. E quando o comandante perguntou por quanto tempo seguiriam nesse ir e vir do caralho, Florentino Ariza, tinha a resposta preparada: Toda a Vida – disse.”
O retiro em solidão pode nos levar a depressão ou nos guiar para encontrar o sentido da vida. A escolha é de cada um. Nas palavras do próprio Thoreau, “Aprendi com minha experiência pelo menos isso: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns.”
Os momentos inesperados que nos “tiram do eixo”, cedo ou tarde vão passar. Eles ficarão em nossa lembrança como momentos para reflexão. É preciso seguir com nossas vidas, seguindo nossos sonhos, buscando construir um mundo melhor, renovado, com mais compreensão, com mais respeito, com mais humanidade. Só assim voltamos “ao eixo”.
Pense nisso
e bons negócios prá nós.
Maio de 2020




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