ROMPENDO FRONTEIRAS
- Carlos A. Buckmann
- 8 de mar. de 2022
- 5 min de leitura

Estou escrevendo meu segundo livro, que provisoriamente leva o título de ROMPENDO FRONTEIRAS, onde abordo as principais barreiras (fronteiras) que o ser humano precisa ultra passar para se desenvolver e se transformar. Então resolvi deixar aqui um “spoiler” (olha eu aqui usando um termo em inglês) e publicar um pequeno trecho de um dos capítulos:
A FRONTEIRA DA INGENUIDADE
A cultura japonesa tem em um de seus hábitos, a criação e desenvolvimento dos bonsais, uma técnica especial de criar árvores anãs em pequeno vasos (tradução da palavra japonesa bonsai: árvore no vaso). A técnica (sem me aprofundar) consiste em podar não só os ramos, mas inicialmente as próprias raízes da planta, para que assim não cresçam, podendo ser mantidas em seus vasos e dentro dos limites estabelecidos pelo cultivador.
Em minha profissão de gestor de empresas e consequentemente em gestão de pessoas, tenho me deparado com alguns chefes de equipes, que me recuso a chamar de líderes, que procuram tratar seus subalternos como os japoneses tratam seus bonsais. Ou seja, podando o desenvolvimento de seus comandados, limitando seus trabalhos e a própria liberdade de criação, onde poderiam, os comandados, serem mais criativos e produtivos para a própria empresa.
Peter F. Drucker, em sua obra O GESTOR EFICAZ (Editora LTC – página 108) escreveu:
- Um superior que foca na fraqueza, como nossas avaliações o obrigam a fazer, destrói a integridade de seu relacionamento com os subordinados.
Isso só demonstra a falta de segurança destes chefes de equipes, que analiso trabalharem assim, por medo de serem suplantados por seus subordinados e talvez tenham sido criados como bonsais. Não encontro outra explicação para isso.
Mas deixemos esses chefes de lado e vamos falar destes subordinados.
Normalmente, pessoas simples, que por medo de perder seus empregos, ou por imaturidade, ingenuidade, aceitam essas condições e permanecem “bonsais”, não sabendo que têm potencial para se transformarem em “árvores”, dando flores e frutos, atingindo toda sua exuberância.
Continuando com a comparação, os japoneses que praticam a arte do bonsai, sabem que nem todas as árvores se prestam para o desenvolvimento destas miniaturas bitoladas por suas podas. Existem algumas plantas, que por mais que se podem, em algum momento vão se expandir a tal ponto, que vão arrebentar com o vaso a que foram aprisionadas. Pessoas que por um tempo, ingenuamente são “podadas” para não crescerem, mas que tem um potencial enorme para se desenvolver, devem ser ajudadas a romper com esses limites (fronteiras) e partirem para o crescimento que a vida lhes permite.
Adriana Tanese Nogueira, psicóloga, filósofa, Ph.D., tem um blog maravilhoso e, uma de suas publicações trata da INGENUIDADE, que inicia assim:
“...- Ingenuidade é o estado de espírito natural da criança, uma condição espontânea do início da vida. Tudo é novo e há de ser descoberto. Pela ingenuidade nos aventuramos, confiamos, testamos e aprendemos. E aqui está o objetivo final: aprender.
-...Acontece, porém, da ingenuidade cair para fazer espaço à mágoa diante da vida e do mundo, produzindo descrença e misantropia. Este é um dos motivos pelo qual há pessoas que se agarram à ingenuidade como forma de preservar sua infância e otimismo com relação à vida. Assim fazendo, porém elas não salvam a “criança interior”, e sim permanecem infantis”.
Deduzo que a pessoa ingênua, carece de amadurecimento mental, psicológico, intelectual, ou seja, precisa de ajuda para evoluir. E como se faz isso? É necessário um tratamento com psicólogo ou psicoterapeuta? Em muitos casos sim. Mas não necessariamente sempre.
Como mencionei acima, na qualidade de gestor de empresas e, portanto, também gestor de pessoas, tenho agido como mediador de conflitos entre chefes autoritários a subordinados com potenciais reprimidos para que os problemas da empresa sejam resolvidos, de tal forma que os chefes não percam sua autoridade, mas se transformem em líderes que permitam o desenvolvimento de seus liderados e não mais simples subordinados.
A pessoa ingênua, que tem um potencial reprimido, precisa de ajuda. Isto vale para a falta de maturidade, entre a infância e a adolescência. Depois desta fase, o limite fica muito tênue entre a ingenuidade e a imbecilidade, que pode advir da falta de instrução, de cultura, de meio ambiente, de educação familiar, ou até pelo dogmatismo da religião ou do medo, como tratamos nos capítulos anteriores.
Esta tênue linha, entre ingenuidade e imbecilidade deve ser carinhosamente acompanhada e aconselhada no passar da infância para a adolescência, evitando chegar à idade adulta, quando aí fica mais difícil deixar velhos hábitos e dogmas, necessitando um esforço pessoal muito maior e uma busca constante de aperfeiçoamento e melhorias como seres humanos.
A fase da ingenuidade infantil e adolescente deve ser moldada com a educação plena, não só no tirar do analfabetismo literal e do funcional, mas encaminhar para o autoconhecimento, única maneira de autodesenvolvimento.
Como escreveu Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) em Cartas a Lucílio:
- A natureza nos criou dóceis e nos deu uma razão imperfeita, mas capaz de se aperfeiçoar.
Como a semente que se desenvolveu em pequeno broto e daí passa a ganhar corpo, precisa ter um terreno fértil para crescer e se desenvolver, tornando-se assim em frondosa árvore, é preciso criar bases sólidas, culturais e humanas para que a ingenuidade se transforme em autoconhecimento, adubo único que permitirá o desenvolvimento do ser humano pleno, não perfeito, mas sempre em busca da perfeição, talvez utópica, mas sempre incansável.
Uma das âncoras que pode manter uma pessoa fundeada na ingenuidade, é o apego arraigado às crenças em que se mantêm por longos anos, sem abrir a mente para as mudanças naturais da vida.
Bertand Russel (1872/1970), escreveu:
Nunca se deixe distrair pelo que você acredita.
Nossa mente é nosso mais cruel carcereiro, é o vaso que limita o desenvolvimento do bonsai. É preciso sempre repensar nossas crenças, pois a mudança é inevitável e não nos permite continuar ingenuamente acreditando em verdades que nos foram impostas e que de há muito já foram superadas.
Talvez o medo possa ser outro motivo impactante para manter a pessoa ingênua em sua zona de conforto (ou seria de desconforto?). Medo este, que como já vimos, vem arraigado em nosso DNA desde há milênios, quando ainda éramos nômades caçadores coletores, onde errar em uma tomada de decisão poderia ser fatal para a própria vida e para os que compartilhavam com nosso grupo. O medo de cometer um erro não pode nos aprisionar. É com os erros que aprendemos mais rapidamente.
ADAM GRANT em seu bestseller “Pense de novo”, escreveu:
O objetivo não é cometer mais erros, mas reconhecer que todos nós erramos mais do que gostaríamos de admitir e que, quanto mais negamos isso, mais cavamos nossa própria cova.
Para os ingênuos, minha recomendação: Não tenha medo de errar. Isso é inerente ao ser humano. Aprenda com os erros e não cometa o mesmo erro duas vezes, mas prepare-se para novos e diferentes erros. Isso faz parte da evolução e nos tira da ingenuidade.




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