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RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de jun.
  • 3 min de leitura

SÓCRATES, MARCO AURÉLIO E PROUST NA MESMA MESA

            A luz da tarde, amarelada como chá de camomila esquecido, desliza pelas janelas altas do Café Entre Fluxos, projetando sombras que parecem perguntas sem resposta. No canto mais silencioso, onde o piso de madeira já ouviu mais confissões do que muitos confessionários, três homens se sentam, não por acaso, mas porque o universo, cansado de linearidades, decidiu torcer o tempo como uma toalha úmida e deixar gotas caírem onde menos se espera.

            A música? “Clair de Lune”, tocada em um piano distante, mas não por mãos humanas, ou talvez sim. Uma gravação antiga, com ruído de vinil, como se o próprio tempo tivesse esquecido de apagar o passado. Cada nota é um suspiro de memória.

            Eu, o barista, nome simples, função complexa, servi café preto para Sócrates, chá verde à moda chinesa para Marco Aurélio, e um “Madeleine” imerso em laranja-bitter para Proust. Nenhum deles pediu. Mas todos sabiam que era isso que precisavam.

            “Você bebe café como se fosse veneno, Sócrates”, disse eu, colocando a xícara diante dele. 

            “Não é veneno”, respondeu-me ele, com os olhos que nunca piscaram,  “é o que me permite lembrar que não sei nada. E nisso, estou mais perto da verdade do que aqueles que acham que sabem.”

            Marco Aurélio, calmo como um lago sob neve, sorriu levemente. 

            “A verdade não precisa ser gritada. Ela se revela no silêncio entre dois pensamentos. Meus ‘Pensamentos para Mim Mesmo’ não foram escritos para o mundo. Foram escritos para mim, enquanto governava um império que desmoronava. E ainda assim, permaneci. Porque o poder real não está em controlar o mundo, mas em não permitir que o mundo controle você.”

            Proust, com o dedo ainda no biscoito derretido, levantou os olhos como quem acorda de um sonho que nunca terminou. 

            “O império não desmorona… ele se dissolve na memória. Tudo o que foi, vive apenas quando é relembrado, e não como fato, mas como sensação. Um sabor. Um cheiro. Um som de colher contra xícara. É nesse instante que o tempo se recupera. O tempo não é linha, é névoa. E nós somos as partículas que ela carrega.”

            Sócrates riu, um som curto, quase inofensivo, mas que fez o ar tremer.

            “Então vocês dois são filósofos da ilusão. Eu pergunto. Vocês dois… guardam...”

            “Guardo para não ser arrastado”, disse Marco Aurélio. 

            “Guardo para não morrer”, respondeu Proust. 

            E por um momento, o silêncio foi mais alto que a música.

            Eu, que sirvo cafés e escuto almas, interrompi:  Hoje, as pessoas não guardam nem perguntam. Elas “scrollam”. 

            Silêncio. 

            Elas buscam respostas em algoritmos, não em diálogos, insisti.

            “Elas temem o vazio” acrescentou Marco Aurélio, “e preenchem-no com ruído.” 

            “E o ruído”, murmurou Proust, “é o oposto da memória. É sua negação.”

            Sócrates inclinou a cabeça. 

            Então, completei, hoje, o homem não busca a virtude… busca a aprovação.  Não busca o saber… busca o viral.   Não busca o eterno… busca o “like”.

            Fiz uma pausa. Coloquei uma nova xícara na mesa, sem pedir. Sócrates bebeu. Marco Aurélio fechou os olhos. Proust mergulhou o dedo no açúcar e o lambeu devagar, como se reconstruísse um dia inteiro com um único gesto.

            Então, Sócrates falou, baixo: 

            “Se ninguém mais pergunta, quem será o último a duvidar?”

            E Marco Aurélio, antes de sair: 

            “O homem que duvida, ainda é livre.”

            E Proust, com os olhos já perdidos no horizonte da memória: 

            “E o homem que recorda… ainda existe.”

            Saíram juntos, cada um por uma porta diferente. Sócrates, seguindo um menino que perguntava “por quê?”; Marco Aurélio, desaparecendo entre os livros da biblioteca; Proust, entrando num elevador que subia e descia ao mesmo tempo.

            Eu fiquei. Limpei a mesa. O “Madeleine” estava meio intacto. A xícara de café, vazia. O chá, morno.

            Na parede, um quadro antigo dizia: 

            “O tempo não passa. Nós é que o esquecemos.”

            E eu, barista de almas e cronista de fluxos, sussurrei:

            “A verdade não morre. Ela só espera, em um café entre fluxos, que alguém volte a perguntar… e a lembrar.”          

 
 
 

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