RESPIRAR POR PALAVRAS
- Carlos A. Buckmann
- 11 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

RESPIRAR POR PALAVRAS
Todas as manhãs, antes mesmo do café, respiro. Mas não me refiro ao ar que entra e sai dos pulmões. Falo da outra respiração, a que passa pela ponta da caneta ou pelas teclas do teclado, essa expiração de alma que os antigos chamavam de inspiração. Escrever é isso: um ato de sobrevivência. Alguns acordam com fome, outros com sede. Eu acordo com urgência de escrever. Se não escrevo, o mundo me pesa como chumbo.
O ofício de escrever é, para muitos, tão vital quanto a própria respiração. Não se trata apenas de um prazer estético ou de um passatempo, mas de uma urgência intrínseca, uma necessidade imperativa que pulsa na alma do escritor. Como o ar que preenche nossos pulmões e o alimento que nutre nosso corpo, a escrita diária revigora o espírito e concede a força necessária para persistir na jornada da existência. É nesse ato contínuo de transpor pensamentos e sentimentos para o papel que encontramos um refúgio, um espaço onde a alma se expande e se liberta do jugo do silêncio. É como prender o fôlego por tempo demais. Como Anne Frank bem disse:
“O melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente.”
E é assim desde o início dos tempos, desde que um proto-homem, um australopiteco talvez, pegou um pedaço de carvão e arranhou uma parede de caverna. Aquilo não era só um desenho de bisão: era um grito. Um “estou aqui”. A escrita nasceu antes das letras. Foi gesto, foi símbolo, foi cicatriz na pedra e, depois, nas tábuas de barro da Mesopotâmia. Inventamos a linguagem para dar forma ao caos dentro de nós. E, quando o verbo encontrou o papel, o mundo nunca mais foi o mesmo.
A escrita sempre foi alimento e arma. Alimenta quem escreve e arma quem lê. Com palavras, levantaram-se impérios e ruíram mitologias. Com palavras, Homero eternizou heróis, Confúcio disciplinou impérios, e os monges copistas mantiveram viva a luz do pensamento durante os séculos escuros da Idade Média. Cada geração que escreve estende uma ponte sobre o abismo do tempo, uma ponte feita de tinta e silêncio.
Mas voltemos a Anne. Trancada num anexo secreto de Amsterdã, entre julho de 1942 e agosto de 1944, uma adolescente judia, privada de tudo o que se chama liberdade, encontrou uma única forma de não enlouquecer: escrevendo. Sua caneta era um canivete suíço contra o medo. Em meio à barbárie, nasceu um diário. E esse diário virou um livro. E esse livro, um farol para a humanidade. Anne Frank não apenas escreveu para suportar o horror. Ela escreveu para impedir que o horror a consumisse por dentro. “Senão, me asfixiaria completamente.” Que frase. Que alívio. Que socorro.
Outros escritores confessaram esse mesmo vício, esse exílio voluntário nas palavras. Virginia Woolf escreveu para não se afogar no fluxo de suas emoções. Kafka dizia que a escrita era uma forma de oração. Clarice Lispector escreveu: “Escrevo porque encontro nisso um prazer que não sei traduzir.” E Fernando Pessoa? Ah, esse escrevia tanto que inventou outras pessoas para escreverem com ele.
Escrever é, ao mesmo tempo, abrir uma ferida e tentar curá-la com a própria tinta. É como conversar com um espelho, mas esperando que o reflexo responda de um jeito inédito. É tarefa solitária, mas raramente solitariamente cumprida: ao escrever, conversamos com mortos, dialogamos com vivos e lançamos mensagens ao futuro.
E se você me perguntar por que escrevo todos os dias, direi: para não me engasgar com o que penso. Para não me perder no que sinto. Para não me sufocar com o mundo. Escrevo para manter o coração ventilado.
Agora, confesso uma última coisa. Depois de tudo isso, você pensaria que vivo como um asceta da palavra, um monge literário. Mas basta um pão de queijo bem quentinho ou uma visita inesperada de um neto com um sorriso travesso que largo tudo, até mesmo o ponto final desta crônica.
Mas volto depois. Porque, no fundo, escrever é isso: um eterno até já.
Beto Buckmann
Crônicas entre ideias e pólvora




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