RESOLVENDO O INSOLÚVEL
- Carlos A. Buckmann
- 15 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

RESOLVENDO O INSOLÚVEL
Há um mistério inerente à dificuldade: quando um problema se nos apresenta, sua verdadeira dimensão é sempre incerta. No instante em que o percebemos, ele parece imenso, insuperável, como uma montanha que se ergue abrupta diante de nós. Mas será mesmo tão grande quanto imaginamos? Ou será que nossa percepção, turvada pela urgência e pelo medo, o amplifica além do necessário?
Foi refletindo sobre essa natureza escorregadia dos desafios que me deparei com a célebre afirmação de René Descartes: “Não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis.” A princípio, a frase parece uma constatação óbvia, quase tautológica. Mas, ao examiná-la com mais profundidade, revela-se um princípio fundamental da razão e da ação.
Descartes, filósofo e matemático francês do século XVII, é considerado o pai do racionalismo moderno. Seu método cartesiano, baseado na dúvida metódica e na decomposição dos problemas em partes menores, revolucionou a forma como pensamos e resolvemos questões complexas. Ele nos ensinou que, diante do caos, a ordem é a única saída; diante da incerteza, a análise meticulosa é o caminho.
Eis aí uma lição que transcende a filosofia e se aplica à vida cotidiana, à sociedade e ao mundo dos negócios.
Quantas vezes nos deparamos com dilemas que parecem insolúveis? Imagine alguém diagnosticado com uma doença grave, como o câncer. O impacto inicial é avassalador, e a busca por uma solução rápida é tentadora. Mas a realidade exige um processo meticuloso: exames, tratamentos, mudanças de hábitos e resiliência emocional. Não há um único remédio milagroso, apenas um caminho árduo de enfrentamento. - Ou pense na reconstrução após um fracasso. Perder um emprego ou falhar em um projeto importante pode parecer um desastre. O impulso inicial é buscar qualquer oportunidade disponível, mas a solução real exige reflexão: o que deu errado? Quais habilidades precisam ser aprimoradas? Como planejar um novo caminho com estratégia?
A desigualdade social é um exemplo clássico. Muitos acreditam que aumentar salários ou distribuir dinheiro resolve a pobreza. Mas o problema é muito mais complexo, envolvendo educação, infraestrutura, acesso a oportunidades e políticas públicas bem estruturadas. Sem um método rigoroso, qualquer solução será apenas paliativa.
O mesmo ocorre com a crise ambiental. O aquecimento global não pode ser resolvido apenas com campanhas de conscientização ou pequenas mudanças individuais. Exige um esforço coordenado entre governos, empresas e cidadãos, além de investimentos em tecnologia sustentável. A solução não está em gestos simbólicos, mas em ações estruturadas e científicas.
No mundo corporativo, a máxima cartesiana é ainda mais evidente. Empresas tradicionais que resistem à transformação digital enfrentam um dilema: mudar processos antigos é difícil. A solução não está em simplesmente adotar novas tecnologias, mas sim em entender a cultura organizacional, treinar equipes e implementar mudanças de forma gradual e estratégica. - Outro exemplo é a gestão de crises corporativas. Quando uma empresa enfrenta um escândalo ou uma queda brusca nas vendas, a resposta impulsiva pode ser cortar custos ou mudar a comunicação. Mas a solução real exige uma análise profunda das causas, um plano de recuperação e uma estratégia de longo prazo.
A solução cartesiana, portanto, não é mágica, mas metódica. Descartes nos ensinou que, diante de um problema complexo, devemos dividi-lo em partes menores, analisá-lo com rigor e avançar de forma ordenada. Esse princípio ressoa na administração moderna. - Peter Drucker, considerado o pai da administração, reforça essa ideia ao afirmar que “o mais importante na solução de problemas é definir corretamente o problema.” Jim Collins, em Empresas Feitas para Vencer, nos ensina que o sucesso empresarial não vem de decisões impulsivas, mas de um processo disciplinado de análise e execução. Assim como Descartes propunha dividir os problemas em partes menores para compreendê-los melhor, Collins sugere que grandes empresas prosperam ao focar em pequenas melhorias contínuas.
O verdadeiro progresso, seja na vida, na sociedade ou nos negócios, exige esforço intelectual, disciplina e paciência. Não há atalhos para o entendimento profundo, e não há fórmulas prontas para o sucesso.
Se tudo isso parecer difícil demais, lembremos que até Descartes precisou de um bom tempo para formular seu método. Afinal, se houvesse um jeito fácil de resolver problemas difíceis, alguém já teria vendido um curso online sobre isso.




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