REFLEXÕES SOBRE UM ANO NOVO
- Carlos A. Buckmann
- 5 de jan. de 2021
- 3 min de leitura

Nove meses em regime de “prisão domiciliar” face a pandemia, onde meu único deslocamento foi de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem poder abraçar meus filhos e meus netos, sem poder desfrutar de momentos de laser, sem poder sair de casa e sentar numa mesa de bar para curtir um copo de chopp, as reflexões sobre o ano que passou e o que agora inicia são totalmente diferentes de todos os setenta e quatro anos que já vivenciei.
Meu recolhimento voluntário, seguindo apenas as orientações da ciência, não tem nada a ver com medo ou não da morte, pois é burrice se temer o inevitável. Não temo a morte. Meu lado “estoicista” me ensina aceitar o inevitável. No entanto, não saio a procura dela. Quando chegar a minha hora, a obrigação é dela de me encontrar. Meu lado “epicurista” me ensinou a encontrar a felicidade em cada momento e o prazer nas coisas simples que me são colocadas à disposição.
Por necessidade da minha atividade profissional e para me manter informado, sigo a maioria das chamadas “mídias sociais”, sem no entanto publicar nada de minha vida particular, que só interessa a mim e aos meus parentes e amigos mais próximos com quem posso compartilhar meu dia a dia.
Confesso que não consigo entender, ou até aceitar, a necessidade das pessoas, nestes momentos difíceis pelos quais estamos passando, em publicar suas fotos de “momentos felizes e alegres”, mostrando uma total irresponsabilidade para consigo e com seus entes queridos, expondo todos à violência de uma doença até agora desconhecida. Claro que cada um sabe de si e não tenho direito de julgar ninguém, apenas faço a constatação dos fatos e sei que cada um responderá pelas consequências.
No entanto, essa necessidade das pessoas de se exporem para o mundo, onde só a alegria e felicidade são mostradas, me fez lembrar dos versos do poeta maranhense Raimundo Correia, escrito nos idos de 1800, intitulado
“Mal Secreto Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, Tudo o que punge, tudo o que devora O coração, no rosto se estampasse; Se se pudesse, o espírito que chora, Ver através da máscara da face, Quanta gente, talvez, que inveja agora Nos causa, então piedade nos causasse! Quanta gente que ri, talvez, consigo Guarda um atroz, recôndito inimigo Como invisível chaga cancerosa! Quanta gente que ri, talvez existe, Cuja aventura única consiste Em parecer aos outros venturosa!”
Versos duros e que, se faziam sentido nos séculos dezenove e vinte, mais sentido fazem hoje no advento das redes sociais.
Nessas reflexões de passagem de ano, isso me chama a atenção e me mostra claramente o medo que as pessoas sentem de mostrar o lado vulnerável do ser humano e a necessidade de se mostrarem felizes acima e apesar de tudo. Por isso criam máscaras e verdadeiras armaduras para se preservarem de mostrar seu lado frágil.
A professora BRENÉ BROWN, em seu livro “A Coragem de Ser Imperfeito” , escreveu: “Com as máscaras nos sentimos mais seguros, mesmo quando elas nos sufocam. Com as armaduras nos sentimos mais fortes, mesmo quando ficamos cansados de carregar tanto peso nas costas.... Vulnerabilidade é a última coisa que quero sentir em mim, mas a primeira que procuro nos outros.”
Como escrevi acima, não julgo ninguém, apenas faço essas reflexões para constatar a minha fragilidade e ter coragem para não apresentar máscaras que me possam sufocar.
Que neste novo ano novo, mais e mais pessoas se desapeguem da necessidade de ostentar máscaras, de seguir como “boiada”, acompanhando estranhas trajetórias. Mas, que pensem mais em como podemos nos preservar, com gestos de civilidade, companheirismo, fraternidade, amor, compreensão e um pouco mais do instinto animal, que defende e protege sua prole e que ainda nos resta, já que o humano está cada vez mais degradado.
Apenas reflexões em meio a uma pandemia. Pensem nisso
e bons negócios prá nós.
Janeiro de 2021.




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