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QUANDO O SÍMBOLO CURA

  • Carlos A. Buckmann
  • 31 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

QUANDO O SÍMBOLO CURA

            Há linguagens que não passam pelas palavras e, ainda assim, dizem tudo.

            A arte pinta o que não se nomeia; a música vibra onde o silêncio dói; a dança move o que a razão aprisiona; a literatura tece mundos onde o eu fragmentado encontra um espelho que não julga, mas acolhe. Essas não são formas de entretenimento, são modos de existência simbólica, vias pelas quais o ser humano dá forma ao informe, sentido ao caos, presença ao ausente. Em tempos de esvaziamento espiritual e hiper conexão vazia, essas linguagens não distraem: reconstroem.

            A psicologia, desde suas origens mais sensíveis, reconheceu o poder terapêutico da expressão artística.

            Jung via os símbolos, nos sonhos, nos mitos, nas pinturas, como pontes entre o consciente e o inconsciente, caminhos para a individuação.

            Winnicott falava do “espaço transicional”, aquele lugar lúdico entre o eu e o mundo onde a criança (e o adulto) cria para existir.

            Já a psiquiatria, em suas vertentes humanistas, abraçou a musicoterapia, a dramaterapia, a arteterapia não como complementos secundários, mas como práticas centrais de cuidado.

            Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração, escreveu que mesmo no horror absoluto, o ser humano busca sentido, e muitas vezes o encontra num poema murmurado, numa melodia lembrada, num gesto de beleza preservado na memória. Para esses clínicos, a arte não “alivia” o sofrimento; “transforma sua estrutura simbólica”, permitindo que ele seja habitado, e não apenas suportado.

            A filosofia, por sua vez, sempre soube que a estética é inseparável da ética.

            Nietzsche afirmava que “só como fenômeno estético a existência e o mundo estão eternamente justificados”. não como fuga, mas como afirmação trágica da vida.

            Heidegger via na obra de arte a abertura do “desocultamento” do ser: é na poesia, na pintura, na música que o mundo se mostra em sua verdade mais profunda.

            Merleau-Ponty, com seu corpo fenomenológico, mostrou que dançar não é apenas mover-se, mas “pensar com a carne”, expressar uma subjetividade que a linguagem discursiva não alcança.

            E Adorno, após Auschwitz, insistia que a arte, mesmo ferida, é o único lugar onde a esperança pode residir sem mentir.

            Para todos eles, a criação estética não é ornamento, é resistência ontológica.

            É nesse encontro entre o símbolo e o sofrimento que a psicofilosofia encontra sua vocação mais urgente. Ela não vê a arte como mero recurso terapêutico, nem como escape espiritual. A psicofilosofia entende a criação, seja um verso, um acorde, um movimento, uma pincelada, como ato de reconstrução existencial. Trata-se de ajudar o sujeito a transformar sua dor em forma, seu trauma em narrativa, seu caos em ritmo. Não para “curar” no sentido de apagar, mas para integrar, para que o que foi insuportável se torne habitável.

            Um poema não cura a perda, mas dá à ausência um lugar no mundo. Uma dança não apaga a violência, mas devolve ao corpo o direito de ocupar o espaço. Uma canção não resolve a injustiça, mas faz com que a resistência ressoe.

            Numa sociedade que mercantiliza tudo, inclusive a subjetividade, a psicofilosofia resgata a arte como espaço sagrado de cuidado não instrumental. Em tempos de ansiedade generalizada e esvaziamento simbólico, ela oferece algo radical: a possibilidade de reencantar a existência sem ilusões. Não se trata de ser feliz, mas de ser inteiro, mesmo na ferida.

            Então, digo a você que se cala achando que nada tem a dizer: 

            Escreva, mesmo que só para rasgar depois.    Cante, mesmo que desafinado.    Pinte, mesmo que com as mãos trêmulas.  Dance, mesmo que sozinho no quarto escuro.

            Porque cada gesto criativo é um ato de fidelidade à própria vida. 

            A arte não pede perfeição, pede coragem para existir simbolicamente. E é nessa coragem que o cuidado verdadeiro começa: não como conserto, mas como recriação contínua do sentido. 

            Não crie para agradar. Crie para sobreviver e, sobrevivendo, para transformar a dor em beleza sem negar sua origem. Porque o mundo não precisa de mais entretenimento.  Precisa de mais testemunhos vivos. 

            E você, com seu verso, seu som, seu movimento, sua história ainda não contados, é um desses testemunhos. 

            Continue. O símbolo espera por você.

 
 
 

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