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QUANDO O DIÁLOGO VIRA TRINCHEIRA

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

QUANDO O DIÁLOGO VIRA TRINCHEIRA

            Hoje, falar parece mais um ato de guerra. Mais de confronto do que de encontro.

            Em qualquer esquina da vida, nas redes sociais, nas salas de aula, nos jantares familiares, até nas filas de supermercado, o diálogo se transformou numa troca de monólogos armados. Cada um fala não para ouvir, mas para vencer. E vencer, nesse contexto, não é convencer com razão, mas impor com volume, com número de seguidores, com a retórica da “certeza absoluta”

            O mais triste não é sequer o conflito de ideias, esse é saudável, necessário, até vital. O trágico é que muitos não têm ideias, apenas uma. Uma só. E, como bem disse Émile-Auguste Chartier, sob o pseudônimo de Alain:

            - “Nada é mais perigoso do que uma ideia quando se tem apenas uma.” 

            Essa frase, escrita no início do século XX em seu livro “Observações sobre a religião”, ecoa com uma força assustadora atualmente. Chartier, professor de filosofia francês, republicano convicto, crítico incansável do dogmatismo e defensor da liberdade de pensamento, sabia que o perigo não está na ideia em si, mas na fixação nela, na incapacidade de duvidar, de questionar, de imaginar que o mundo pode ser visto de outro ângulo. 

            Vivemos numa era em que a educação, ao invés de ampliar horizontes, muitas vezes os estreita. Desde os anos 1960, com a massificação da cultura e o triunfo do consumo como identidade, fomos lentamente deseducados para pensar. Não por acaso: uma sociedade que não sabe duvidar é mais fácil de governar, manipular, submeter.

            Como alertou Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” 

            Mas quantos ainda ensinam a duvidar? Quantos ainda incentivam o aluno a ter mais de uma ideia sobre o mesmo assunto? 

            Carl Jung já dizia que “a maior tragédia da humanidade não é o que os homens fazem de mal, mas o que eles deixam de fazer de bom por medo, por preguiça mental, por conformismo.” 

            E Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, mostrou como a ausência de pensamento, não a maldade ativa, mas a passividade intelectual, é o caldo fértil para os totalitarismos. Quando alguém se agarra a uma única ideia como se fosse a verdade revelada, ele não pensa; ele repete. E quem repete não dialoga, apenas ecoa. 

            Vejo isso todos os dias. Pessoas que confundem opinião com conhecimento, que transformam suas crenças em fortalezas inexpugnáveis, que se recusam a considerar que talvez, só talvez, estejam erradas. Não por maldade, mas por medo. Medo de que, se soltarem essa única ideia, caiam no vazio. Melhor um erro seguro do que uma verdade incerta. 

            Mas há esperança.

            Sempre há.

            Afinal, a história também é feita de vozes que ousaram ter mais de uma ideia. De Sócrates, que dizia saber apenas que nada sabia, a Montaigne, que escreveu ensaios justamente para ensaiar o pensamento, passando por Nietzsche, que nos convidava a “ter olhos para ver o que nunca foi visto”. 

            Precisamos resgatar a humildade intelectual. Precisamos ensinar, e aprender, que ter várias ideias não é sinal de fraqueza, mas de coragem. Que mudar de opinião não é trair a si mesmo, mas honrar a própria evolução. Que o diálogo só é possível quando renunciamos à ilusão de posse da verdade. 

            Enquanto isso, seguimos.

            Entre gritos e sussurros, entre certezas frágeis e dúvidas fecundas.

            E talvez, um dia, consigamos construir uma sociedade em que ninguém tenha medo de dizer:

            - “Tive uma ideia…, mas estou aberto a outra.” 

            Porque, no fim, o mundo não será salvo por quem tem a resposta certa, mas por quem ainda se permite fazer a pergunta certa.


BETO BUCKMANN

CRÔNICAS ENTRE IDEIAS E PÓLVORA

 
 
 

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