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QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de mai.
  • 4 min de leitura

A SABEDORIA AMARGA (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Nasceu Nelson Antônio da Silva no Rio de Janeiro, por volta de 1910 ou 1911, as certidões da época nunca foram muito amigas da precisão cronológica.

            Começou a tocar ainda menino, nas ruas do Caju, e logo ganhou o apelido que o imortalizaria: Cavaquinho, por sua habilidade inconfundível com o instrumento que lhe servia de alma portátil.

            Mas Nelson não foi apenas um sambista. Foi um poeta da finitude, um filósofo de boteco que aprendeu cedo que a vida, quando não tem dinheiro para flores, faz-se com versos. Morreu em 1986, vítima de câncer de garganta, ironia trágica para um homem que passou a vida cantando a dor.

            O que Nelson Cavaquinho fazia, e poucos conseguiram como ele, era extrair filosofia do trivial. O banal, a morte, o esquecimento, a saudade, tornava-se, em suas mãos, uma lente para o essencial.

            Não é à toa que sua obra é marcada por um lirismo amargo, aquilo que os acadêmicos chamariam de “representação do espaço social das camadas populares” e que o povo simplesmente chama de verdade. E essa verdade, a MPB sabe bem, é a grande filosofia brasileira. Aquela que brota do chão da Lapa, do suor do morro, da madrugada em que o sambista caminha sozinho com seu cavaquinho feito um andarilho existencial.

            “Sei que amanhã, quando eu morrer / Os meus amigos vão dizer / Que eu tinha bom coração”

            Heidegger, o filósofo da Floresta Negra, escreveu que o homem é um “ser-para-a-morte”.  A consciência da finitude, para ele, não é um pesar a ser evitado, mas a própria condição que nos torna autênticos.

            Nelson, sem nunca ter lido uma linha de Heidegger, soube disso intuitivamente. Ele não foge da morte; senta-se à mesa com ela, oferece-lhe um gole de cachaça e pergunta: “O que vão dizer de mim?”.

            A resposta é quase cínica: vão elogiar seu bom coração. Como se a bondade só fosse notada quando o peito para de bater. É a ironia da existência: o morto vira santo, o vivo vira suspeito.

            “Alguns até hão de chorar / E querer me homenagear / Fazendo de ouro um violão”

            Nelson antecipa com precisão cirúrgica o mecanismo do luto social.

            As lágrimas vêm, sim, mas vêm misturadas à culpa de quem não chorou em vida. O violão de ouro é a metáfora perfeita para a homenagem póstuma: bela, cara, inútil.

            Montaigne, nos “Ensaios”, já alertava: ao invés de dar primazia à morte, devemos aprender a filosofia da vida, essa inversão de perspectiva que nos ensina a valorizar o presente. Nelson canta o mesmo, só que com mais dor e menos prosa.

            “Mas depois que o tempo passar / Sei que ninguém vai se lembrar / Que eu fui embora”

            Schopenhauer, o pessimista de Danzig, diria que o esquecimento é o destino natural de todas as coisas. A vida é sofrimento, a memória é frágil, e o tempo, esse ourives da indiferença, logo polirá qualquer marca deixada no mundo.

            Nelson não se ilude. Ele sabe que, passado o enterro, a vida dos outros segue, como deve ser. O que ele faz, então, não é reclamar dessa lei natural, mas usá-la como argumento para uma ética radical do agora. Se ninguém vai se lembrar, que sejamos lembrados enquanto ainda respiramos.

            “Por isso é que eu penso assim / Se alguém quiser fazer por mim / Que faça agora”

            Eis o núcleo moral da canção. Não é sobre morte. É sobre urgência. É um chamado à ação no presente, um “carpe diem” com sotaque de samba.

            Sêneca, o estoico romano, já dizia que “a vida não é breve, nós a tornamos breve” ao desperdiçá-la com o que não importa. Nelson vai além: a vida é curta e ainda assim a gente insiste em guardar as flores para o caixão. É um absurdo existencial que merece ser cantado em tom de partido-alto.

            “Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais”

            A filosofia encontra a ternura. Epicuro, na “Carta a Meneceu”, ensinava que a morte nada é para nós: “quando nós somos, a morte não está presente; e quando a morte está presente, nós não somos mais”. Portanto, o temor da morte é uma tolice. O que realmente importa é aliviar os “ais” da vida, que são muitos e pesados. E como se alivia um “ai”? Com a mão amiga estendida agora, não depois. Com as flores que cabem na mão, não as que enfeitam o caixão.

            “Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais”

            A saudade não é um sentimento nostálgico, é a própria morte rebatizada. “Chamar-se saudade” é tornar-se ausência, é passar a habitar o lábio dos outros como um nome que se repete sem saber bem por quê.

            Nesse momento, diz Nelson, a vaidade perde o sentido. Não adianta mais o violão de ouro, a homenagem, a estátua. Só restam as preces, gesto mínimo de quem, mesmo sem crer, oferece ao morto o único presente que não pode ser recusado: a lembrança que vira oração.

            É uma beleza triste, dessas que só a MPB consegue alcançar.

            Nelson Cavaquinho, o homem do cavaquinho e dois dedos na mão direita, nos deixou uma lição que nenhum tratado de ética conseguiria sintetizar melhor: a vida é o único palco onde vale a pena distribuir flores.

            O palco depois é da saudade, e a saudade não precisa de aplausos, precisa apenas de preces.

            Se amanhã eu morrer, não me deem ouro. Deem-me um abraço ainda hoje.

            E se o abraço demorar, ao menos digam em voz alta o que sempre quiseram dizer.

            Talvez doa.

            Talvez não.


(*) Assista o clip de QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE no YouTube:

 
 
 

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