QUANDO A MENTE SE TORNA UM CAMPO FÉRTIL
- Carlos A. Buckmann
- 26 de set. de 2025
- 4 min de leitura

QUANDO A MENTE SE TORNA CAMPO FÉRTIL
Há dias em que a farmácia parece um santuário do silêncio: - o dono atrás do balcão, imóvel, repetindo o mesmo gesto de décadas; a equipe calada, evitando propor mudanças; os clientes entrando e saindo como fantasmas, sem que ninguém ouse perguntar: “Como posso melhorar para você?”
Nessas horas, lembro-me de Giordano Bruno, queimado na fogueira por ousar dizer que “a verdade não cabe em uma só cabeça”. E de Spinoza, excomungado por escrever que “Deus não habita templos, mas a rede de relações entre as coisas”
Ambos, séculos atrás, já sabiam o que muitos empreendedores ainda ignoram: “o compartilhamento de ideias não é luxo, é condição de existência”.
Desde que o primeiro Homo sapiens desenhou um bisão nas paredes de Lascaux, o ser humano descobriu que sua força não está na solidão, mas na troca.
A linguagem não surgiu para descrever a realidade, surgiu para criá-la em conjunto.
Quando dois caçadores combinam estratégias, não apenas aumentam as chances de sucesso: constroem um novo modo de ser caçador. Quando uma mãe ensina a filha a usar ervas medicinais, não transmite conhecimento, tece um fio na teia da cultura.
Na psicologia, isso tem nome: inteligência coletiva, como estudou Lev Vygotsky. Para ele, o pensamento não nasce no cérebro isolado, mas no espaço entre as pessoas. Já na filosofia, Martin Buber falava do “Eu-Tu”: só nos tornamos sujeitos quando nos relacionamos com o outro.
Sem diálogo, somos objetos repetindo rotinas.
Mas por que, então, tantos resistem ao compartilhamento? - Porque, como diria Byung-Chul Han, vivemos na “sociedade do cansaço”, onde a troca autêntica é substituída por likes e mensagens truncadas. O medo de ser julgado, de perder controle, de revelar a própria ignorância, tudo isso transforma a mente em fortaleza, não em campo fértil.
Giordano Bruno (1548–1600), monge dominicano queimado vivo pela Inquisição, via o universo como infinito e vivo. Para ele, Deus não era um rei distante, mas “a alma do mundo”, presente nas estrelas, nas pedras, no sangue do próximo. Sua revolução? Negar a separação entre céu e terra, entre sagrado e profano. E isso só foi possível porque ele caminhou pelas ruas de Paris, pelas bibliotecas de Praga, pelos salões de Londres, colhendo ideias de hermetistas, astrônomos e poetas. Bruno não teve medo de ser contaminado pelo outro.
Baruch Spinoza (1632–1677), expulso da sinagoga por heresia, foi mais frio, mas igualmente radical. - Sua Ética demonstrou, com rigor geométrico, que Deus e Natureza são a mesma substância. Nada existe fora dela. Nem alma, nem corpo, nem pensamento, tudo é modificação de um único Ser. Sua genialidade? Transformar o misticismo de Bruno em sistema lógico acessível a todos.
E como? - Através de cartas. De debates com artesãos, médicos e mercadores. Spinoza sabia: “A verdade não se guarda. Seu lugar é na praça pública.”
Ambos foram perseguidos não por estarem errados, mas por não calarem.
Enquanto a Igreja pregava a verdade única, eles ousaram dizer: A realidade é complexa demais para caber em uma só cabeça.
O que Bruno e Spinoza entendiam, e muitos gestores ignoram, é que **o conhecimento não é propriedade, mas processo.
Na psicologia, Mihaly Csikszentmihalyi provou que a criatividade surge não no isolamento, mas na interação com o domínio cultural. Já na filosofia, Gilles Deleuze via o pensamento como rede de conexões: onde cada ideia é um tubérculo que brota de outros tubérculos. (O princípio dos rizomas)
No mundo dos negócios, isso é ainda mais claro: - A farmácia que troca experiências com outras lojas via associação varejista não apenas negocia melhor com distribuidoras, reinventa seu modelo de negócio: - O balconista que ouve o cliente reclamar do tempo de espera não só resolve um problema, descobre um novo serviço de delivery expresso. - O dono que participa de um grupo de estudos com consultores não apenas aprende técnicas, transforma sua relação com a própria empresa.
Mas há resistência. Por quê? Porque, como Erving Goffman mostrou na sociologia, tememos perder o controle da narrativa. - O dono da farmácia acha que, se admitir que não sabe algo, perderá autoridade. O funcionário cala por medo de ser visto como “reclamão”. E assim, a loja vira uma ilha, até que o mar a engole.
Associações de farmácias independentes, como a FEBRAFAR, não existem só para negociar preços, existem para compartilhar saberes.
No dizer de Spinoza: “Nenhum corpo é autoexplicativo”.
Quantos donos de farmácia fecham as portas sem entender por quê? Quantos culpam a crise, os laboratórios, as grandes redes, enquanto sua equipe cala ideias que poderiam salvá-los?
O problema não é a concorrência. É a ilusão de que você é dono do conhecimento.
Bruno morreu na fogueira por compartilhar ideias. Você não precisa morrer, mas precisa queimar algo: a vaidade de achar que sabe tudo. O medo de ouvir críticas. A arrogância de achar que “sempre foi assim”.
Porque, no fim, uma farmácia não é um ponto comercial. É um organismo vivo, e organismo vivo troca com o ambiente.
Então, pare de guardar ideias como se fossem ouro. Comece a plantá-las: Nas conversas com a equipe. Nas redes de associados. Nas rodas com outros empreendedores.
Porque, como Spinoza escreveu: “Nada de perfeito, ou mais perfeito, pode surgir de algo que é imperfeito.”
Você, com seu silêncio, está cultivando imperfeição.
Levante. Fale. Ouça. E deixe que, como disse Bruno, “o infinito entre por sua porta”.
Sua farmácia, e sua alma, agradecerão.




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