QUANDO A LOUCURA SENTA-SE À MESA
- Carlos A. Buckmann
- 11 de out. de 2025
- 4 min de leitura

QUANDO A LOUCURA SENTA-SE À MESA.
Café Entre Fluxos. Um espaço que não pertence ao tempo, mas à frequência dos encontros improváveis. O café exala uma aura de densidade simbólica: paredes cobertas por estantes com livros de todos os séculos, música barroca tocando suavemente ao fundo, ora Bach, ora Vivaldi, atravessando os pensamentos como quem embala um parto intelectual. As luzes são âmbar, pendendo de lustres como se fossem lanternas de ideias que ainda não encontraram forma. O aroma do café recém-moído mistura-se com o cheiro de papel antigo, como se o tempo tivesse se infiltrado nas páginas e virado perfume.
Naquela tarde, a mesa central recebeu três visitantes. Erasmo de Roterdã, vestindo uma túnica de tecido envelhecido, olhos ágeis como quem ainda busca ironias nas palavras alheias. Thomas Morus, rígido no porte e flexível no pensamento, com seu semblante entre o cético e o visionário. E por fim, um terceiro, sem nome, sem tempo, sem origem; um louco, talvez, mas louco como são os poetas: contornando a lógica para alcançar o sentido.
Erasmo, sorvendo o café lentamente:
“Minha obra Elogio da Loucura ainda caminha entre nós. Escrevi para expor os delírios da razão, e desde então percebo que há mais sabedoria na insensatez do que na sistematização da virtude. A loucura não é desvio, mas revelação.”
Morus em toda sua fleuma britânica, acrescentou:
“E eu, com minha Utopia, ofereci um espelho invertido. Falei de uma sociedade ideal para denunciar a nossa miséria. Utopia não é um lugar, é um desconforto. Porque ao imaginar o perfeito, tornamos o presente insuportável.”
Personagem Desconhecido na plenitude de sua loucura, interrompendo, olhos fixos no teto:
“Eu vim sem convite, como vêm as ideias. Minha mente é um labirinto onde Erasmo e Morus dançam. Se o mundo não faz sentido, por que insistimos em enquadrá-lo? Talvez seja no desajuste que o espírito encontra repouso.”
Erasmo veio ao seu auxílio, como tentando protegê-lo:
“Ah, mas veja, louco amigo, seu desajuste é lucidez em estado bruto. A ironia é que, quanto mais se tenta escapar da razão, mais profundamente se cai nela.”
Morus sorveu mais um gole de seu chá, sem leite, como pede o bom britânico em sua macheza:
“ Concordo. A racionalidade deve ser tensionada, não rejeitada. Minha utopia é racional até o limite da impossibilidade. É como desenhar o horizonte para provocar o navegante.”
Personagem Louco, na sua desrazão bem arrazoada:
“Então estamos todos brincando de criar mapas que não existem. Mas não é o desejo de sentido uma loucura compartilhada?”
Erasmo, como se ainda estivesse escrevendo seu ELOGIO À LOUCURA;
“Vivemos um tempo em que a loucura deixou de ser elogio e tornou-se pandemia da alma. As redes sociais substituíram o confessionário, e as virtudes são negociadas em curtidas. Onde está a empatia, senhores? Enterrada sob as hashtags?”
Morus, com o olhar de condenado, que lhe impôs o Rei:
“A utopia, hoje, é retalhada em ideologias que julgam mais do que sonham. Os homens preferem crucificar uns aos outros do que construir pontes. Se minha ilha existisse, talvez estivesse agora cercada por muros digitais.”
Personagem Louco (rindo descompassado):
“Ah, vocês falam de razão e de moral como se ainda servissem ao homem! A empatia foi vendida, meus caros, e o comprador pagou com indignação. Caminhamos entre selfies de um ego que não cabe em si. O mundo é um hospício onde os mais ruidosos ditam os rumos!”
Erasmo bateu levemente na mesa, como para chamar para si a atenção:
“Mas veja, é na loucura que se encontra o reflexo mais puro da humanidade! O que me inquieta não é o delírio, mas a normalização dele. Quando o desvario passa a ser regra, o lúcido vira marginal.”
Morus (levantando a voz com serenidade):
“E talvez seja por isso que os idealistas morrem silenciosos. A utopia jamais quis ser alcançada, quis apenas ser lembrada. Mas hoje, quem se lembra do futuro quando o presente grita como uma criança mimada?”
Louco (olhando pela janela, olhos vidrados):
“O mundo precisa de poetas lunáticos, não de gestores da realidade. A empatia é subversiva; amar é um ato revolucionário. E nós... nós estamos aqui apenas para bradar o absurdo antes que o silêncio nos engula.
O vento faz as cortinas dançarem como pensamentos em movimento. Um gato caminha sobre os livros como se soubesse os títulos. Do gramofone ecoa uma cantata que parece responder aos diálogos.
Como cronista, percebo que o Café Entre Fluxos não é apenas um lugar. É um estado de abertura ao absurdo. É quando Erasmo, Morus e o Desconhecido se tornam vozes dentro de todos os que ousam pensar fora da moldura. A mesa é um altar onde o pensamento se torna corpo e o café, sua comunhão.
Quando saíram, fui tirar a loucura da mesa e encontrei um guardanapo onde o louco havia escrito:
“Quando a razão se perde e a loucura se reconhece, talvez aí comece o verdadeiro pensamento”.




Comentários