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QUALIDADE E QUANTIDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

QUALIDADE E QUANTIDADE.

            Há duas histórias que ilustram com precisão o poder da qualidade antes da quantidade.

            A primeira é a da Apple, que sob a liderança de Steve Jobs entregou prioritariamente produtos impecáveis, inovadores em design e usabilidade. Somente após garantir essa excelência, a empresa cresceu em escala, distribuindo seus produtos pelo mundo, mantendo a qualidade como marca registrada.

            No Brasil, a Embraer é prova viva de que a excelência técnica e o cuidado com os processos podem transformar uma empresa local em referência global. Desde 2007, ao adotar o sistema “lean” inspirado na Toyota, que valoriza a melhoria contínua, a eliminação de desperdícios e a excelência operacional, a empresa investiu em inovação com profundidade e mostrou que a qualidade não é um luxo, mas o motor da quantidade que importa.      

            Essas histórias me fazem pensar em Henri Bergson, quando escreveu:

            - ”A qualidade é a quantidade de amanhã.” 

            Bergson, filósofo francês nascido em 1859, prêmio Nobel de Literatura em 1927, era um pensador do tempo vivido, o “durée”, a duração interior, da intuição como caminho para o real, e da criatividade como essência da vida. Para ele, o tempo não é um relógio, mas uma corrente de experiências que se entrelaçam. Assim, a qualidade não é um luxo, mas o próprio tecido do futuro. O que hoje é feito com cuidado, profundidade e verdade torna-se, amanhã, abundância duradoura.

            Essa ideia ressoa em muitos outros pensadores.

            Simone Weil escreveu que “a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”, e atenção é, antes de tudo, compromisso com a qualidade do olhar, do gesto, do pensamento. Viktor Frankl, ao refletir sobre o sentido da vida nos campos de concentração, mostrou que mesmo na escassez extrema, a qualidade da atitude humana, sua dignidade interna, podia gerar uma quantidade de esperança capaz de sustentar vidas.

            Individualmente, essa filosofia nos convida a resistir à pressa do mundo. Quantas vezes trocamos a profundidade por velocidade? Quantas relações superficiais acumulamos em nome da quantidade de contatos? Quantos trabalhos feitos às pressas, apenas para cumprir prazos, deixam de ser sementes de algo maior? A qualidade, nesse sentido, é um ato de coragem: é escolher o que dura, mesmo quando o mundo premia o que passa rápido. É um convite a valorizarmos a profundidade de nossas ações, emoções, pensamentos e relações. Não nos deixemos enganar por estatísticas ou números superficiais que medem sucesso apenas pelo volume, mas sim pela intensidade e impacto real de nossos valores e escolhas.

            No plano social, a lógica inversa, quantidade antes da qualidade, gera o descartável, o efêmero, o falso. Educação massificada sem profundidade, notícias rápidas sem verdade, produtos feitos para quebrar. Mas quando escolhemos a qualidade como princípio, não apenas criamos objetos ou ideias melhores; criamos futuros melhores. Porque o amanhã é feito do que plantamos hoje e, só o que foi bem plantado floresce em abundância.

            No ambiente do trabalho, essa máxima é ainda mais urgente. Em tempos de produtividade tóxica, onde se confunde movimento com progresso, lembrar que a verdadeira eficiência nasce da excelência, não da pressa, é revolucionário. Um código bem escrito, um diagnóstico cuidadoso, um projeto pensado com alma, tudo isso, com o tempo, gera mais valor, mais impacto, mais alcance do que mil ações apressadas. Lembrando Peter Drucker, guru da administração: “Fazer as coisas certas antes de fazer as coisas rápidas”.

            Bergson, com sua sensibilidade aguda para o tempo e a vida, nos deixou um legado silencioso, mas poderoso: o futuro não é construído com pressa, mas com presença. A qualidade não é um obstáculo à quantidade; é sua semente mais fértil.

            Por isso pare, olhe. Faça bem-feito.

            Não pelo aplauso imediato, mas pela promessa de um amanhã que mereça existir. Porque, no fim, a única quantidade que importa é aquela que brota da qualidade que escolhemos cultivar hoje, mesmo que ninguém veja, mesmo que demore.

            Que possamos, então, transformar nosso tempo vívido, como Bergson propõe: - Sejamos artífices conscientes do presente, pois é nele que se deseja uma quantidade que importa: a riqueza de um amanhã pleno.

 

 

           

 
 
 

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