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PORQUE NÃO ACREDITO NA NOSSA SELEÇÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 23 de jun.
  • 4 min de leitura

PORQUE NÃO ACREDITO NA NOSSA SELEÇÃO.

(E posso estar errado)

            Sei que vou ser execrado após publicar essa crônica, mas quem tiver um mínimo de consciência vai me entender. Os outros? Bem, são apenas outros. 

            Comecemos pelos números, pois é sempre deles que o homem moderno extrai sua primeira verdade.

            O atacante que veste a amarelinha recebe, por mês, algo em torno de três milhões de reais  e não me refiro ao craque europeu, mas ao que se senta no banco de reservas. O meia, que toca a bola vinte vezes em noventa minutos, embolsa dois milhões e setecentos mil. O lateral, cuja função primordial é correr para trás, leva para casa dois milhões e meio. Some-se a isso os patrocínios, as luvas, os bônus por gol, e teremos uma fortuna que ultrapassa a renda anual de mil famílias brasileiras em uma única partida de domingo.

            Quer os valores exatos? Dá um Google no nome de cada um. (Eu já dei, por isso essa crônica).

            Diante de tais cifras, sinto um frio na espinha que não vem do ar-condicionado. Não é inveja, Deus me livre dessa mesquinhez. É uma perplexidade filosófica, daquelas que nos assaltam quando percebemos que o valor de um homem foi trocado pelo preço de seu passe.

            Outro pequeno detalhe que a mídia (que fatura com a divulgação CBF/Seleção) não divulga: alguns dos nossas “atletas”, levaram a “tiracolo” seus cabeleireiros particulares, para que tenham seu “corte na régua”, para manter a imagem: Neymar: Frequentemente acompanhado por Nariko (responsável pelos cortes) e Wagner Tenorio (responsável pela cor e tratamentos). Vini Jr. e Rodrygo: São atendidos por Yuri Alexandre (conhecido como Yuri Barber), que viaja para cuidar do visual dos jogadores.

            Você também leva seu cabeleireiro para seu local de trabalho?

            Olhemos para outro continente, para um senegalês chamado Sadio Mané.

            Este, que ganha menos que nosso terceiro reserva, construiu hospitais, escolas e mesquitas em sua aldeia natal. Quando marca um gol, não aponta para o céu em busca de holofote; aponta para o chão, porque de lá veio e para lá quer levar seus irmãos.

            E Bill Gates, que poderia comprar todos os nossos jogadores com o troco do almoço, passa os dias erradicando malárias e reinventando saneamento básico. Bono Vox, cantor de rock irlandês, empresta sua voz não para vender perfume, mas para cobrar dívidas de nações pobres. São homens de fortuna, sim, mas que entenderam que o dinheiro é meio, nunca fim.

            A diferença, meu caro, não está no zero a mais ou a menos no extrato bancário. Está no que se faz com o que se tem.

            Ter dinheiro não é pecado, mas sem cultura é como possuir uma biblioteca inteira e usá-la para acender fogueiras.

             Nossos jogadores, em sua maioria, saíram da periferia com uma bola nos pés e uma fome no estômago, legítima, humana, digna. Mas a fome saciada sem a alma alimentada transforma-se em voracidade. Eles aprenderam a dominar a redonda, mas nunca lhes ensinaram a redondilha; sabem a tabelinha, mas ignoram a tabuada; decoram os lances, mas nunca leram um lance de poesia.

            E por isso não acredito na nossa seleção. Não porque lhes falte talento, Deus sabe que temos de sobra. Mas porque a "Pátria de Chuteiras", essa ideia romântica que ainda habita o coração dos velhos cronistas, morreu afogada em juros de investimentos.

            O jogador de hoje não veste o Brasil; ele veste uma camisa que, por acaso, tem as cores do Brasil, mas cujo estampa verdadeira é a logomarca de sua agência. Sua preocupação não é com o hexacampeonato, mas com o “hexamilhão”. Não vibra com o hino; calcula se o hino vai render um novo contrato de imagem.

            Agora, faço a pergunta que me ecoa na alma: você,  que ganha seus cinco ou dez mil reais por mês, que paga aluguel, escola dos filhos, conta de luz; se amanhã lhe depositassem três milhões mensais, o que faria? Seria ainda o mesmo pai de família que ensina valores ao filho? O mesmo profissional que se orgulha de seu ofício? O mesmo cidadão que olha para o próximo com compaixão? Ou se tornaria, como tantos, um náufrago em uma piscina de moedas, esquecido de que há um oceano de gente lá fora?

            Não julgo. Apenas constato: o ser humano não foi feito para suportar tanta abundância sem um contrapeso ético. E quando esse contrapeso falta, o futebol, que deveria ser arte, encontro, celebração, vira mercado de gado. A seleção, então, não é um time; é uma holding. E torcer por uma holding é como aplaudir uma fusão empresarial.

            Os números estão ali, frios e exatos: três milhões, dois milhões e setecentos, dois milhões e meio. E nem falei dos vinte  e tantos milhões do ex-craque Neymar. E enquanto esses números crescem, vejo no campo onze jovens atletas que correm, sim, mas que não sabem mais para onde.

            A bola rola, a torcida canta, mas eu, aqui do meu canto, ouço apenas o tilintar de cifrões e esse som, meu amigo, nunca fez um gol de placa.

 
 
 

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