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PODRES PODERES

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de jun.
  • 4 min de leitura

PODRES PODERES (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Caetano Veloso não aprendeu a filosofar nos manuais. Aprendeu na mesa de Dona Canô, nos discos de João Gilberto, nas cinzas do exílio londrino, nas páginas de Ferreira Gullar e nos versos de Augusto de Campos.

            Leu Sartre ainda jovem, ouviu Gilberto Gil, mergulhou na fenomenologia sem nunca abandonar o terreiro. Sua formação intelectual é um rio que aceita afluentes: a Tropicália como método, a antropofagia como ética, e a canção como pensamento encarnado.

            Ao ouvir “Podres Poderes”, percebo que Caetano não apenas descreve o mundo: ele o diagnostica. Com a precisão de um clínico e a revolta de um poeta, ele expõe a podridão que não se vê a olho nu, mas que se sente no asfalto, na fome, na hipocrisia dos que mandam.

            A filosofia na MPB nunca foi ornamento. É víscera. De Chico Buarque a Elza Soares, de Paulinho da Viola a Céu, a canção brasileira pensa o Brasil com a mesma radicalidade de um ensaio de Roberto Schwarz. Caetano, porém, adiciona um elemento único: a ironia como forma de suportar o insuportável. Ele ri para não enlouquecer. E ao rir, nos convida a fazer o mesmo.

            “Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / E perdem os verdes / Somos uns boçais”

            O poder não é apenas opressão: é burrice. Os que detêm o poder (políticos, militares, patrões) não são gênios do mal; são boçais. Avançam o sinal vermelho porque confundem força com razão.

            O poder não se exerce apenas com violência, mas com discursos, normas, dispositivos. Caetano vai além: o poder é, antes de tudo, feio. Feio e desajeitado. Um fusca furando o sinal e perdendo o verde, é a imagem perfeita da incompetência tiranicida.

            “Queria querer gritar setecentas mil vezes / Como são lindos, como são lindos os burgueses / E os japoneses / Mas tudo é muito mais”

            Ironia pura. “Gostaria de querer” achar os burgueses lindos, mas não consegue. É a impossibilidade do elogio sincero ao opressor.

            Os japoneses entram como um estranho: não por racismo, mas pela associação ao trabalho disciplinado e à produtividade que o capitalismo tanto exalta.

            A indústria cultural transforma tudo em espetáculo, inclusive a beleza. Caetano responde: a beleza do burguês é a beleza do dinheiro. E eu não consigo aplaudi-la.

            “Será que nunca faremos senão confirmar / A incompetência da América católica / Que sempre precisará de ridículos tiranos?”

            Aperte os cintos. Caetano toca no nervo exposto da América Latina: uma formação católica que mistura fé e submissão, redenção e obediência. Não é a Igreja em si, mas uma certa “cultura da culpa” que produz tiranos como fenômeno natural.

            Paulo Freire, em “Pedagogia do Oprimido”, mostrou como o oprimido internaliza o opressor. Caetano canta essa tragédia: a América católica precisa do tirano porque, sem ele, não saberia contra o que se revoltar. É uma dança macabra.

            “Índios e padres e bichas, negros e mulheres / E adolescentes / Fazem o carnaval”

            Enquanto os podres poderes furam sinais, os subalternos, índios, padres progressistas, homossexuais, negros, mulheres, adolescentes, “fazem o carnaval”.

            Não o carnaval oficial, vendido em pacotes turísticos. O carnaval como a inversão das hierarquias, a festa como resistência, o riso como desmonte do poder. Ser subalterno é também saber que a alegria pode ser um ato de insurreição.

            “Morrer e matar de fome, de raiva e de sede / São tantas vezes / Gestos naturais”

            A frase mais cruel da canção. Matar e morrer tornaram-se naturais. Hannah Arendt, ao cobrir o julgamento de Eichmann, cunhou a expressão "banalidade do mal": o horror não precisa ser monstruoso, apenas corriqueiro.

            Caetano concorda: a fome, a sede, a raiva que levam à morte são tratadas como previsíveis, como o tempo chuvoso ou a maré baixa. Naturalizar a violência é o triunfo final dos podres poderes.

            “Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo / Daqueles que velam pela alegria do mundo”

            O eu não se rende. Seu cantar é vagabundo, sem compromisso com o mercado, sem reverência aos tiranos. Ele quer se aproximar de quem vela pela alegria. Vele como vigia noturno, como sentinela.

            A alegria não é um luxo; é um território a ser defendido. A vida exige um sim incondicional mesmo diante do sofrimento. Caetano canta esse sim. Um sim manco, dolorido, mas teimoso.

            “Será que apenas os hermetismos pascoais / Os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais / Nos salvam, nos salvarão dessas trevas / E nada mais?”

            Hermetismos pascoais: a arte que se fecha em si mesma, as cores e sons que só os iniciados entendem. Será que só a alta cultura pode nos salvar? Caetano duvida. Talvez a saída não seja apenas a arte, mas a arte misturada com a vida, com o carnaval dos subalternos, com o cantar vagabundo que não pede licença.

Caetano, o intelectual que nunca deixou de ser menino de Santo Amaro. Sua formação não o afastou do chão; pelo contrário, deu-lhe ferramentas para cavá-lo mais fundo. Ele aprendeu com os livros que o poder apodrece. Mas aprendeu com a vida que, mesmo apodrecido, o poder pode ser enfrentado, não com a força bruta, que é sua própria linguagem, mas com a beleza manca, o riso desobediente, o canto que vela pela alegria do mundo.

            Enquanto os homens ainda exercem seus podres poderes, eu, cronista de ouvido colado no rádio, repito com Caetano: quero aproximar meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria.

            Indo mais fundo. Tins e bens e tais.

            Até que a incompetência encontre, enfim, seu carnaval.

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