PERGUNTAS QUE CUIDAM
- Carlos A. Buckmann
- 6 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

PERGUNTAS QUE CUIDAM
Nestes tempos em que o mundo parece falar mais alto para ouvir menos, venho refletindo sobre o colapso silencioso das relações humanas.
O que antes era encontro tornou-se interação funcional; o que era diálogo, virou troca de mensagens apressadas.
Nas ruas, nos escritórios, nas redes sociais, e até nas próprias casas, as pessoas se esbarram sem se tocar. A evolução tecnológica não trouxe, como se prometera, mais conexão, mas uma espécie de involução relacional: estamos juntos, mas isolados; conectados, mas desatentos.
A estrutura do cuidado mútuo desmanchou-se em fragmentos de utilidade imediata.
A psicologia contemporânea observa esse fenômeno com inquietação.
Winnicott já nos alertava: sem o “espaço potencial” do brincar, do encontro genuíno, a subjetividade se atrofia.
Já Byung-Chul Han, em sua leitura psicossocial do século XXI, fala da “sociedade do cansaço”, onde o excesso de estímulos e a ausência de pausa geram um esgotamento existência, não por opressão externa, mas por autodomínio implacável.
A psiquiatria, por sua vez, registra o aumento exponencial de quadros depressivos, ansiosos, de isolamento social. E, embora os remédios aliviem os sintomas, raramente curam a raiz: a falta de sentido compartilhado, de escuta verdadeira, de presença.
Mas a filosofia, essa antiga curandeira da alma, nunca deixou de nos lembrar que o humano se constitui no entre. Martin Buber, em seu clássico “Eu e Tu”, distingue duas formas de relação: o modo “Eu-Isso”, instrumental, e o modo “Eu-Tu”, encontro pleno, onde o outro não é objeto, mas sujeito sagrado.
Levinas vai além: o rosto do outro me interpela ética e existencialmente, sua vulnerabilidade me convoca ao cuidado.
E Hannah Arendt, com sua noção de “vita activa”, insiste que a política, a amizade, o diálogo são os espaços onde o ser humano se realiza plenamente. Sem eles, restamos meros espectadores de nós mesmos.
Nesse entrelaço entre diagnóstico clínico e reflexão existencial surge, ou ressurge, a psicofilosofia. Não como uma disciplina fechada, mas como uma prática viva, um gesto cotidiano de humanização. E o que é esse gesto? Muitas vezes, é simplesmente uma pergunta bem-feita.
Uma pergunta que não busca resposta pronta, mas abertura. Que não julga, mas acolhe. Que não resolve, mas convida ao pensamento. Perguntar a um colega de trabalho: “Como você tem vivido este momento?”, e não apenas “Como está o projeto?”, já é um ato psicofilosófico. Reunir-se em círculos comunitários e indagar: “O que nos sustenta quando tudo desaba?” é restaurar o espaço do cuidado coletivo. Em rodas de conversa, em terapias de grupo, em cafés com amigos, a pergunta bem-feita não é um instrumento de investigação, mas um ato de amor filosófico: ela diz ao outro: “você importa o suficiente para que eu queira entender o seu mundo”.
A psicofilosofia, portanto, não se limita ao consultório ou à academia. Ela habita os silêncios entre as palavras, os olhares que escutam além do dito, as perguntas que não querem consertar, mas acompanhar. Ela sabe que curar não é eliminar o sofrimento, mas dar-lhe um lugar onde possa ser nomeado, partilhado, transformado.
Nessa era de respostas rápidas e opiniões prontas, a pergunta bem-feita é revolucionária. É um gesto de resistência contra a banalização do humano. É um convite à profundidade num mundo que prefere a superfície.
Não subestime o poder de uma pergunta feita com coração.
Pergunte.
Escute.
Deixe-se perguntar também.
Porque, no fundo, toda pergunta verdadeira é um abraço disfarçado em palavras e, às vezes, é disso que o mundo mais precisa para voltar a se reconhecer como comunidade, como espécie capaz de cuidar, pensar e caminhar junta.
Perguntar, afinal, é uma das mais antigas e necessárias formas de amor.




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