PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS - MIA COUTO
- Carlos A. Buckmann
- 10 de mar. de 2025
- 4 min de leitura

"A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos."
MIA COUTO (1955-)
O Poeta Filósofo da África.
Mia Couto, cujo nome de batismo é António Emílio Leite Couto, nasceu em 5 de julho de 1955, em Beira, Moçambique. Filho de pais portugueses, ele cresceu em um ambiente multicultural que influenciou profundamente sua visão de mundo. Couto, na verdade, não se identifica especificamente como filósofo, mas seus livros estão cheios de filosofia. Mia é um biólogo de formação, mas sua verdadeira paixão sempre foi a literatura. Ele é um dos escritores mais renomados da África contemporânea e já recebeu diversos prêmios literários, incluindo o Prêmio Camões, um dos mais prestigiosos da língua portuguesa.
As obras de Mia Couto são marcadas por uma prosa poética que mistura realismo mágico, mitologia africana e questões sociais e políticas (aqui entra o espírito do filósofo). Entre seus trabalhos mais conhecidos estão "Terra Sonâmbula", "A Confissão da Leoa" e "O Último Voo do Flamingo". Suas histórias frequentemente exploram a relação entre o homem e a natureza, a identidade e a memória, além de questões de injustiça social e colonialismo.
O pensamento filosófico de Couto é profundamente influenciado pelo animismo africano, que vê a natureza como uma entidade viva, repleta de espíritos e forças invisíveis. Ele também aborda o conceito de "tempo circular", onde passado, presente e futuro estão entrelaçados em uma dança contínua. Seu pensamento, concretamente, reside na sua capacidade de questionar as dicotomias tradicionais, como civilização e barbárie, razão e emoção, passado e presente. Ele busca desconstruir as narrativas coloniais e construir uma nova identidade moçambicana, baseada na valorização da cultura local e na superação dos traumas da história. Se isso não é filosofia, então eu não sei nada sobre filosofia.
Comparando o pensamento de Mia Couto com outros pensadores contemporâneos, podemos ver semelhanças e contrastes interessantes. Por exemplo, José Saramago, outro gigante da literatura lusófona, também utiliza o realismo mágico para abordar questões sociais e políticas, mas sua abordagem é mais pessimista e focada na crítica à condição humana.
Por outro lado, o pensamento de Couto pode ser comparado ao de Chinua Achebe, um escritor nigeriano, que também explora a identidade africana e as consequências do colonialismo. No entanto, enquanto Achebe foca mais nas tensões entre tradição e modernidade, Couto prefere uma abordagem mais introspectiva, filosófica e espiritual.
A visão animista de Mia Couto, onde a natureza é vista como uma entidade viva e interconectada, inspira muitos autores contemporâneos a explorar a relação entre humanos e o meio ambiente. Essa abordagem ecológica se alinha com os movimentos literários que buscam conscientizar sobre as questões ambientais e a sustentabilidade.
A empatia profunda e o humanismo presentes na obra de Mia Couto inspiram escritores a criar personagens complexos e multidimensionais. Essa abordagem humanista permite que a literatura aborde questões sociais, políticas e filosóficas com uma perspectiva mais pessoal e emocional, fomentando a compreensão e a empatia entre os leitores.
O uso inovador da linguagem por Couto, que frequentemente inventa palavras e brinca com a estrutura gramatical, encoraja escritores a experimentar com a linguagem para encontrar novas formas de expressão. Essa liberdade linguística resulta em obras que são não apenas literárias, mas também artísticas em sua forma.
A influência de Mia Couto se faz sentir em muitos autores contemporâneos que buscam explorar a complexidade da condição humana e as interconexões entre culturas, tradições e o meio ambiente. Sua obra continua a inspirar e desafiar escritores a pensar além das convenções e a criar literatura que seja ao mesmo tempo profunda e acessível.
Couto dialoga com outros pensadores de sua época, como Eduardo Galeano e José Saramago, na sua crítica ao colonialismo e na sua defesa da justiça social. No entanto, sua obra se distingue pela sua profunda ligação com a cultura moçambicana, pela sua linguagem poética e pela sua capacidade de criar um universo ficcional único e envolvente.
Inspirado nos escritos de MIA COUTO, vou me atrever a escrever um encerramento para essa crônica, usando seu estilo, para um encontro ficcional que possivelmente teria com ele:
- “Numa tarde quente na Beira, encontrei-me com Mia Couto à sombra de um flamboyant. Ele me contava sobre a vez em que tentou ensinar filosofia para um grupo de crocodilos. "Eles não entendiam a diferença entre o ser e o nada", disse ele, com um sorriso maroto. "Só se interessavam em saber qual era o melhor tempero para um filé de humano".
Couto me explicou que a filosofia africana é diferente da ocidental. "Aqui, a filosofia não se aprende nos livros, mas na vida", disse ele. "É preciso ouvir as histórias dos mais velhos, observar a natureza e aprender com os animais".
Enquanto conversávamos, um macaco roubou o chapéu de Couto e fugiu para o alto de uma árvore. "Vê?", disse ele, apontando para o macaco. "Ele está praticando a filosofia do roubo, uma arte milenar em Moçambique".
Mia Couto me ensinou que a filosofia não precisa ser séria e sisuda. Ela pode ser divertida, irreverente e até mesmo um pouco maluca. O importante é que ela nos faça pensar e questionar o mundo à nossa volta.
VALE A PENA.




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