PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 16 de set. de 2024
- 4 min de leitura

Epicuro e o Jardim:
Uma Busca Atemporal pela Felicidade
Imagine uma metrópole caótica, com seus prédios imponentes, trânsito incessante e luzes neon. Em meio a esse frenesi, um grupo de amigos decide transformar um antigo galpão abandonado em um espaço de encontro e reflexão.
Foi isso que Epicuro e seus seguidores fizeram. Adquiriram uma casa com amplo terreno para cultivar plantas para seu próprio sustento e a transformaram em uma escola a que denominaram O JARDIM. Lá se reuniam, nos arredores de Atenas, onde discutiam filosofia, cultivavam a amizade e buscavam uma vida simples e prazerosa. Esse jardim se tornou um símbolo da filosofia epicurista, representando um refúgio da agitação da vida urbana e um espaço para a reflexão sobre os valores mais importantes da existência.
Pois bem, em meio ao turbilhão da vida moderna, marcada pela busca incessante por novidades, bens materiais e reconhecimento social, a filosofia de Epicuro nos convida a uma profunda reflexão sobre o verdadeiro significado da felicidade. O filósofo grego, que viveu no século III a.C., propôs um caminho para a ataraxia, a serenidade da alma, que encontra seu ápice no prazer moderado e na amizade.
Uma das obras mais importantes de Epicuro é a Carta Sobre a Felicidade, dirigida a Meneceu. Nela, o filósofo apresenta os princípios básicos de sua filosofia, enfatizando que o bem supremo é a felicidade, que pode ser alcançada através da ausência de dor e da tranquilidade da alma. Para Epicuro, a felicidade não se encontra nos prazeres sensuais excessivos, mas sim em um estado de prazer moderado e duradouro.
A Carta Sobre a Felicidade oferece um guia prático para a vida boa, destacando a importância da amizade, da sabedoria e da autossuficiência. Ao cultivar a amizade, encontramos apoio e conforto, enquanto a sabedoria nos permite distinguir os prazeres verdadeiros dos falsos. A autossuficiência, por sua vez, nos liberta da dependência de bens materiais e do reconhecimento social.
A filosofia epicurista continua a ser relevante nos dias atuais. Em um mundo cada vez mais individualista e consumista, as ideias de Epicuro sobre a amizade, a simplicidade e a busca pela felicidade interior nos convidam a repensar nossos valores e prioridades.
Na sala de meu apartamento, num sétimo andar em pleno centro da cidade, edifiquei meu “jardim”, onde os livros espalhados e sempre à mão, “adornam” (minha mulher chama de bagunça) a decoração, e onde recebo amigos para o prazer de um bom vinho e conversas inteligentes (nem sempre, às vezes algumas sem noção). Esse tipo de “jardim” eu cultivo desde os tempos da faculdade, com permissão da minha mulher, que sempre foi uma grande companheira.
Voltando a Carta Sobre a Felicidade: que nos oferece uma alternativa ao hedonismo desenfreado e ao materialismo exacerbado, propondo um caminho para uma vida mais plena e significativa. Ao buscarmos o prazer moderado, cultivarmos a amizade e desenvolvermos a sabedoria, podemos encontrar a paz interior e a felicidade que tanto almejamos.
Em um mundo marcado pela ansiedade, pela depressão e pela busca incessante por mais, a filosofia epicurista nos oferece um antídoto. Ao nos conectar com a natureza, com as pessoas que amamos e com nós mesmos, podemos encontrar um sentido mais profundo para a vida.
Epicuro também nos convida a questionar o modelo de desenvolvimento econômico baseado no consumo desenfreado e a buscar alternativas mais sustentáveis e justas. Ao valorizar a simplicidade e a qualidade de vida, podemos contribuir para a construção de um mundo mais equilibrado e harmonioso.
A filosofia de Epicuro, com sua ênfase na felicidade, na amizade e na sabedoria, continua a ser uma fonte de inspiração para aqueles que buscam uma vida mais plena e significativa. Ao retornarmos às origens do pensamento epicurista, podemos encontrar respostas para muitas das questões que nos afligem na contemporaneidade.
A busca pela felicidade individual e o compromisso com a responsabilidade social, à primeira vista, podem parecer objetivos conflitantes. Afinal, como podemos nos dedicar ao bem-estar pessoal sem negligenciar as necessidades da comunidade? A resposta a essa pergunta exige uma reflexão profunda sobre os valores que norteiam nossas vidas e a construção de um equilíbrio entre o individual e o coletivo.
É importante ressaltar que a felicidade não é um bem individualista e egoísta. Ao contrário, a filosofia epicurista, assim como outras correntes de pensamento, defende que a felicidade está intrinsecamente ligada às relações sociais e à comunidade. A amizade, por exemplo, é um dos pilares da filosofia epicurista e contribui significativamente para o bem-estar individual.
Ao buscar nossa própria felicidade, estamos, indiretamente, contribuindo para a felicidade dos outros. Ao cultivar relações positivas, praticar a empatia e agir com compaixão, estamos fortalecendo os laços sociais e criando um ambiente mais harmonioso para todos.
Engajar-se em ações que beneficiam a comunidade pode ser uma fonte de grande satisfação pessoal. Ao ajudar os outros, contribuir para causas justas e fazer a diferença no mundo, experimentamos um sentimento de propósito e realização que vai além dos prazeres individuais.
A pesquisa em psicologia positiva tem demonstrado que o altruísmo e o voluntariado estão associados a níveis mais altos de felicidade e bem-estar. Ao nos conectarmos com algo maior do que nós mesmos, encontramos um significado mais profundo para a vida.
A busca pela felicidade individual e a responsabilidade social não são objetivos mutuamente exclusivos. Ao contrário, eles se complementam e se reforçam mutuamente. Ao cultivar a amizade, a compaixão e o senso de propósito, podemos construir uma vida mais feliz e significativa, ao mesmo tempo em que contribuímos para um mundo mais justo e equitativo.
Então, cultive seu “jardim” e seja feliz.
VALE A PENA.
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