PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 4 de nov. de 2024
- 6 min de leitura

Jean-Paul Sartre (1905-1980)
A Existência que Antecede a Essência
Jean-Paul Sartre, o francês que transformou a filosofia em literatura e a literatura em um grito existencial, nasceu em Paris em 1905. A perda precoce do pai e a influência do avô, o famoso teólogo Albert Schweitzer, moldaram sua visão sobre a vida e o sofrimento humano. Sartre foi um intelectual inquieto, um filósofo engajado e um escritor prolífico. Sua parceria intelectual e amorosa com Simone de Beauvoir foi fundamental para a construção de seu pensamento e para a consolidação do existencialismo como uma corrente filosófica de grande impacto.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir formavam um dos casais intelectuais mais influentes e complexos do século XX. Sua relação, que durou mais de 50 anos, era marcada por uma profunda cumplicidade intelectual, um amor intenso e um acordo não convencional sobre a liberdade individual.
Sartre e Beauvoir estabeleceram um pacto singular: ambos se reservavam o direito de ter relações amorosas com outras pessoas, desde que a base de sua relação intelectual e afetiva permanecesse sólida. Essa decisão, radical para a época, era fundamentada em suas convicções filosóficas sobre a liberdade individual e a autenticidade. Para eles, o amor não era uma prisão, mas uma constante reinvenção.
A parceria intelectual entre Sartre e Beauvoir era notável. Eles se influenciavam mutuamente em seus trabalhos, debatiam ideias, criticavam seus escritos e se apoiavam em suas carreiras. A filosofia existencialista, que ambos abraçaram, serviu como um marco comum para suas reflexões sobre a condição humana, a liberdade, a responsabilidade e o papel da mulher na sociedade.
A relação entre Sartre e Beauvoir também era marcada por um amor intenso e apaixonado. Suas cartas e diários revelam a profundidade de seus sentimentos e a importância que cada um tinha na vida do outro. A escrita era uma forma de expressar esse amor, e ambos se dedicaram a explorar temas como o amor, o desejo e a paixão em suas obras.
Simone de Beauvoir, sob a influência das ideias de Sartre, tornou-se uma das principais vozes do feminismo do século XX. Sua obra mais famosa, "O Segundo Sexo", é um marco fundamental na luta pela igualdade entre homens e mulheres. Sartre, por sua vez, embora não tenha se dedicado tanto à questão feminina, apoiou incondicionalmente o trabalho de Beauvoir e reconheceu a importância de sua luta.
Mas vamos deixar maiores estudos sobre Simone, na crônica dedicada especialmente a ela.
Mas, a relação entre Sartre e Beauvoir continua a fascinar e a gerar debates. Enquanto alguns admiram a coragem e a originalidade de seu pacto, outros criticam a aparente promiscuidade e o que consideram uma falta de compromisso com a monogamia.
As principais críticas direcionadas ao relacionamento de Beauvoir e Sartre giram em torno dos seguintes pontos. A decisão do casal de manter um relacionamento aberto, com múltiplos parceiros sexuais, foi vista por muitos como imoral e contrária aos valores tradicionais da época. E parece que continua até os dias de hoje, sobre quem adota esse procedimento. - Apesar de serem ambos defensores da igualdade entre os sexos, algumas feministas argumentam que a dinâmica de poder em seu relacionamento era desigual, com Sartre ocupando uma posição de maior destaque no cenário intelectual. - A maneira como Sartre e Beauvoir representavam as mulheres em suas obras literárias e filosóficas também foi alvo de críticas, com acusações de que eles exploravam a figura feminina para fins literários ou para reforçar suas próprias ideias. - Alguns críticos apontam para uma certa hipocrisia na postura de Sartre e Beauvoir, que, apesar de defenderem a liberdade individual, pareciam ter dificuldade em aceitar que seus parceiros tivessem relações extraconjugais.
Mas esse é um assunto que renderia um romance de mais de quinhentas páginas. Portanto vamos voltar à filosofia de Sartre e suas obras, começando por O Ser e o Nada, um manifesto Existencialista.
"O Ser e o Nada" é a obra-prima de Sartre, um tratado filosófico complexo e desafiador que busca compreender a natureza da existência humana. Para Sartre, a existência precede a essência, ou seja, o ser humano não possui uma natureza pré-definida, mas se define através de suas escolhas e ações. A angústia, a má-fé e a liberdade são conceitos-chave nessa obra. A angústia surge da consciência da nossa liberdade absoluta, da responsabilidade que temos por nossas escolhas. A má-fé é a tentativa de fugir dessa responsabilidade, de negar a nossa liberdade. A liberdade, por sua vez, é a condição fundamental da existência humana, uma maldição e uma bênção ao mesmo tempo.
A Transcendência do Ego
"A Transcendência do Ego" é uma das primeiras obras de Sartre e marca o início de sua investigação fenomenológica da consciência. Nela, Sartre busca desconstruir a ideia de um ego estático e imutável, propondo que o eu é, na verdade, uma constante transcendência, um projeto em construção. O eu não é algo dado, mas algo que se faz através de suas relações com o mundo e com os outros. : Esta obra prepara o terreno para "O Ser e o Nada", ao desconstruir a noção tradicional de sujeito e ao introduzir a ideia de que a consciência é intencional, ou seja, ela se projeta para além de si mesma, constituindo o mundo. Em "O Ser e o Nada", essa ideia é desenvolvida de forma mais aprofundada, com a distinção entre o ser-em-si (as coisas) e o ser-para-si (a consciência).
O Existencialismo é um Humanismo
"O Existencialismo é um Humanismo" é uma conferência de Sartre que busca esclarecer os mal-entendidos sobre o existencialismo, frequentemente associado a um niilismo pessimista. Sartre argumenta que o existencialismo, ao contrário, é uma filosofia profundamente humana, que coloca a liberdade e a responsabilidade individual no centro de suas preocupações. O existencialismo sartriano não nega a existência de Deus, mas afirma que a existência humana precede qualquer essência divina. Esta obra complementa "O Ser e o Nada" ao apresentar uma defesa do existencialismo como uma filosofia que valoriza a condição humana. Os conceitos de liberdade, responsabilidade e angústia, desenvolvidos em "O Ser e o Nada", são aqui apresentados de forma mais acessível e contextualizados em relação às questões sociais e políticas da época.
Estas três obras estão interligadas por uma mesma busca: compreender a natureza da existência humana.
Resumindo: "A Transcendência do Ego" estabelece as bases fenomenológicas para a compreensão da consciência. "O Ser e o Nada" desenvolve uma ontologia existencialista, explorando a natureza do ser e do nada, da consciência e do mundo. "O Existencialismo é um Humanismo" apresenta uma defesa filosófica e política do existencialismo, mostrando sua relevância para a vida cotidiana.
Em suma, as três obras de Sartre formam um conjunto coeso, no qual o autor busca compreender a condição humana a partir de uma perspectiva existencialista. Ao desconstruir as noções tradicionais de sujeito e de mundo, Sartre oferece uma nova maneira de pensar a nossa existência, marcada pela liberdade, pela responsabilidade e pela angústia.
Mas ele tem muitas outras obras a serem destacadas, mas vamos nos ater às principais, que nos levam a entender seu pensamento filosófico.
A Náusea e As Moscas: A Existência Absurda
Em "A Náusea", Sartre explora a sensação de estranhamento diante da existência, a percepção de que o mundo é absurdo e carente de sentido. O protagonista, Antoine Roquentin, experimenta um sentimento de náusea diante da contingência e da fragilidade de todas as coisas. Em "As Moscas", Sartre utiliza o mito de Orestes para refletir sobre a culpa, a liberdade e a responsabilidade. As personagens são confrontadas com a necessidade de assumir seus atos e de construir seus próprios destinos.
Os Caminhos da Liberdade: A Trilogia da Liberdade
O engajamento político de Sartre está registrado para sempre na trilogia "Os Caminhos da Liberdade" (L'Âge de Raison, La Transcendance du Moi, Les Mots). É uma extensa narrativa que acompanha a vida de Mathieu, um intelectual comprometido com as ideias da esquerda e com a luta contra o fascismo. Sartre explora as complexidades da condição humana, as relações interpessoais, a política e a busca por um sentido para a vida.
A filosofia de Sartre floresceu em um contexto histórico marcado por duas grandes guerras mundiais, pela ascensão do nazismo e pela crise da razão. O existencialismo de Sartre ofereceu uma resposta a esses desafios, ao propor uma filosofia que valorizava a individualidade, a liberdade e a responsabilidade. Sartre foi um intelectual engajado, que se posicionou contra o colonialismo, o racismo e a injustiça social.
A obra de Sartre continua a ser relevante. Seus conceitos sobre liberdade, responsabilidade e angústia ecoam em debates contemporâneos sobre ética, política e psicologia. A ênfase na subjetividade e na experiência individual, presente na obra de Sartre, encontra ressonância em diversas áreas do conhecimento, como a literatura, o cinema e as artes visuais.
Mas afinal, o que seria de Sartre sem Beauvoir? E o que seria de Beauvoir sem Sartre? Talvez a resposta esteja em uma das obras deles, mas cuidado para não se perder em um labirinto existencialista. Ou talvez a resposta seja mais simples: o amor é um mistério, mesmo para os maiores filósofos. Afinal, o amor é como a filosofia: cheio de perguntas e poucas respostas definitivas. Seja como for,
VALE A PENA.
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