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PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 3 de nov. de 2024
  • 6 min de leitura

                                                  "Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência.”

José Ortega y Gasset (1883-1955)

 O Homem e a Circunstância

Um Pensador à Margem da Massa

José Ortega y Gasset, filósofo e ensaísta espanhol, nasceu em Madrid em 1883. Sua vida intelectual foi marcada por uma intensa atividade, tanto acadêmica quanto política. Fundador da “Revista de Occidente”, uma das mais importantes publicações intelectuais da época, Ortega y Gasset foi uma figura central no cenário intelectual espanhol e europeu.

A filosofia de Ortega y Gasset gira em torno da relação entre o indivíduo e a sociedade. Em sua obra mais famosa, "A Rebelião das Massas", ele analisa o fenômeno do homem-massa e a perda do individualismo. Para Ortega, o indivíduo não existe isoladamente, mas sim em relação a um contexto histórico e social, que ele denomina "circunstância". A vida, portanto, é um problema a ser resolvido em cada momento, levando em consideração as condições particulares de cada indivíduo e de sua época.

Vamos analisar a sua obra mais detalhadamente:

"A Rebelião das Massas" é, talvez, a obra mais conhecida de Ortega y Gasset. Nela, o filósofo espanhol traça um panorama crítico da sociedade de sua época, marcada pelo surgimento e ascensão das massas. Neste livro, Ortega y Gasset denuncia o surgimento de uma nova forma de tirania, exercida não por um indivíduo ou grupo específico, mas pela própria massa.

Ele define a "massa" não apenas como um grande número de pessoas, mas como uma atitude, um modo de ser. O homem-massa, segundo ele, é caracterizado pela mediocridade, pela falta de reflexão e pela busca desenfreada pelo prazer imediato. Essa figura, em ascensão, desafia os valores tradicionais da cultura ocidental, como a individualidade, a criatividade e a responsabilidade.

A obra alerta para os perigos do nivelamento, da perda da singularidade e da imposição de uma cultura homogênea. Ortega y Gasset argumenta que a democracia, quando degenera em massacracia, pode levar a uma nova forma de tirania, onde a vontade da maioria suprime as minorias e os indivíduos.

"Meditações do Quixote": Nesta obra, Gasset realiza uma profunda análise da obra de Cervantes, buscando encontrar nela as chaves para entender a condição humana.

"Meditações do Quixote" é uma obra que transcende a mera análise literária. Nela, Ortega y Gasset utiliza a figura de Dom Quixote como um ponto de partida para uma profunda reflexão sobre a condição humana.

O Quixote, para ele, é um símbolo do homem que busca transcender sua própria época e construir um mundo mais justo e humano. O cavaleiro andante, em sua loucura, representa a vontade de ir além dos limites impostos pela realidade, de buscar um ideal superior.

Ao analisar a obra de Cervantes, Ortega y Gasset busca compreender a relação entre o indivíduo e a sociedade, entre a razão e a emoção, entre o real e o ideal. O Quixote se torna, assim, um espelho no qual podemos nos reconhecer e refletir sobre nossas próprias aspirações e frustrações.

"A História como Sistema": Neste livro, Ortega y Gasset apresenta sua visão sobre a história, que ele entende como um processo contínuo de criação e transformação. O passado, para ele, não é algo estático, mas sim uma força viva que molda o presente e o futuro. A história, para ele, não é uma mera sucessão de fatos, mas um sistema complexo e dinâmico, onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam.

O filósofo espanhol rejeita as visões deterministas da história, que veem o futuro como algo predeterminado. Para Ortega y Gasset, a história é aberta e indeterminada, moldada pelas ações dos indivíduos e pelas circunstâncias de cada momento.

Ao analisar a história, Ortega y Gasset busca compreender os mecanismos que levam às mudanças sociais e culturais. Ele destaca a importância da razão histórica, que nos permite compreender o passado e tomar decisões mais conscientes sobre o futuro.

Outras Obras Relevantes de José Ortega y Gasset:

Além das três obras que já analisamos (A Rebelião das Massas, Meditações do Quixote e A História como Sistema), José Ortega y Gasset possui um vasto catálogo de obras que exploram diferentes aspectos de sua filosofia. Algumas das mais importantes incluem:

A Desumanização da Arte: Nesta obra, Ortega y Gasset analisa a crise da arte moderna e as consequências da industrialização e da massificação da cultura sobre a produção artística.

O que é Filosofia? Um ensaio onde o filósofo busca definir o que é a filosofia e qual o seu papel na vida humana.

Meditação da Técnica: Uma reflexão sobre a influência da técnica na vida moderna e suas implicações para a cultura e a sociedade.

O Homem e os Outros: Uma análise da relação entre o indivíduo e a sociedade, explorando temas como a solidão, o amor e a amizade.

Ideias e Crenças: Uma investigação sobre a natureza das ideias e das crenças e seu papel na construção da realidade.

Vieja y Nueva Política: Uma análise da política espanhola e europeia de sua época, com reflexões sobre a democracia e o autoritarismo.

Notas de Andar e Ver: Um conjunto de crônicas e ensaios sobre viagens, onde Ortega y Gasset reflete sobre diferentes culturas e sociedades.

E Outras obras notáveis que vamos mencionar sem analisar, apenas para mostrar a fecundidade literária desse filósofo espanhol: - Sobre a Razão Histórica - Estudos Sobre o Amor - Comentários ao Banquete de Platão - A Origem da Filosofia - O Livro das Missões e Papéis sobre Velázquez e Goya.

É importante ressaltar que esta lista não é exaustiva e que a obra de Ortega y Gasset é vasta e complexa. Cada uma de suas obras oferece uma nova perspectiva sobre a condição humana, a cultura e a sociedade.

GASSET – NIETZSCHE e HEIDEGGER

A comparação entre Ortega y Gasset, Nietzsche e Heidegger é riquíssima e pode nos levar a uma compreensão mais profunda do pensamento de cada um desses filósofos. Vamos explorar algumas das principais interseções e divergências entre eles:

Ortega y Gasset, Nietzsche e Heidegger: Pontos em Comum

Crise da Cultura Ocidental: Todos os três filósofos identificaram uma profunda crise na cultura ocidental de seus tempos. Nietzsche denunciou o niilismo e a decadência dos valores tradicionais, Heidegger questionou a essência da metafísica e a relação do homem com o ser e, Ortega y Gasset analisou a ascensão do homem-massa e a perda da individualidade.

Individualismo e Subjetividade: Os três filósofos enfatizam a importância da experiência individual e da subjetividade na construção do conhecimento e da realidade. Nietzsche fala do "super-homem" como um indivíduo que ultrapassa os limites da moral tradicional, Heidegger busca a autenticidade existencial, e Ortega y Gasset destaca a importância da perspectiva individual na construção da realidade.

Crítica à Razão: Os três filósofos questionam a suficiência da razão como ferramenta para compreender a realidade. Nietzsche critica a razão socrática e a moralidade tradicional, Heidegger busca ir além da metafísica tradicional, e Ortega y Gasset enfatiza a importância da razão vital e da intuição.

Diferenças e Nuances

Conceito de Homem: Nietzsche concebe o homem como um ser em constante transformação, que deve superar seus limites e criar seus próprios valores. Heidegger vê o homem como um ser-no-mundo, lançado no tempo e na existência. Ortega y Gasset enfatiza a relação entre o indivíduo e a circunstância, e a importância da história na formação da identidade individual.

Atitude diante da História: Nietzsche tem uma visão cíclica da história, marcada pelo eterno retorno. Heidegger vê a história como um tempo finito, marcado pela finitude do ser humano. Ortega y Gasset tem uma visão mais linear da história, enfatizando a importância da razão histórica para compreender o presente.

Política: Nietzsche tem uma visão aristocrática da política, enquanto Heidegger se mantém afastado da política partidária. Ortega y Gasset, por sua vez, se envolveu ativamente na política espanhola e europeia de sua época.

Comparando Obras Específicas

"A Rebelião das Massas" e "Assim Falou Zaratustra": Ambos os livros tratam da crise da cultura ocidental e da perda de valores. No entanto, enquanto Nietzsche propõe a criação de novos valores, Ortega y Gasset busca uma recuperação dos valores tradicionais, adaptando-os às novas condições.

"Ser e Tempo" e "Meditações do Quixote": Ambas as obras exploram a questão da existência humana. Heidegger busca a essência do ser, enquanto Ortega y Gasset utiliza a figura de Dom Quixote para refletir sobre a condição humana e a busca por um sentido para a vida.

A filosofia de Ortega y Gasset continua a ser relevante. Seus escritos sobre a individualidade, a crise da cultura e a relação entre o indivíduo e a sociedade ecoam em um mundo cada vez mais massificado e globalizado. A ideia de que cada indivíduo é único e possui uma perspectiva singular sobre o mundo continua a ser uma fonte de inspiração para aqueles que buscam uma vida mais autêntica e significativa.

Ortega y Gasset foi um dos maiores pensadores do século XX. Sua obra, marcada por uma grande erudição e por uma profunda reflexão sobre a condição humana, continua a influenciar gerações de filósofos, escritores e pensadores em todo o mundo. Ao ler Ortega y Gasset, somos convidados a refletir sobre nosso lugar no mundo e a construir um futuro mais justo e humano.

Confesso que, ao escrever este texto, tive a sensação de estar tentando explicar a teoria da relatividade para um gato. Mas, afinal, quem sou eu para julgar a capacidade de compreensão dos meus leitores? Talvez vocês sejam muito mais inteligentes do que eu imagino, e este texto tenha sido apenas um aquecimento para seus cérebros.

Assim, meus caros, terminamos nossa breve jornada pelos labirintos da filosofia existencial. Se você se sentiu perdido em algum momento, não se preocupe: é normal se sentir como um personagem de Beckett lendo Heidegger numa praia deserta. Afinal, a filosofia não é para os fracos de coração, mas para aqueles que gostam de um bom quebra-cabeça existencial.

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