PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 26 de out. de 2024
- 6 min de leitura

Karl Marx (1818-1883)
O Fantasma que Continua a Assombrar o Capitalismo.
Karl Marx, o barbudo alemão que habitou os cafés de Paris e Londres, é uma figura que transcende os muros das bibliotecas e as páginas dos livros de história. Seus escritos, repletos de análises agudas sobre a sociedade capitalista, ecoam até os dias de hoje, provocando debates acalorados e inspirando movimentos sociais em todo o mundo.
Nascido em Tréveris, na Prússia, em 1818, Marx era filho de uma família judaica de classe média. Aos 17 anos, ingressou na Universidade de Bonn para estudar Direito, mas logo se viu mais atraído pela filosofia e pela política. Em Berlim, aprofundou seus estudos e conheceu Friedrich Engels, (aquele da nossa crônica anterior) com quem estabeleceria uma parceria intelectual que duraria toda a vida.
A obra de Marx é vasta e complexa, mas podemos destacar alguns de seus livros mais importantes:
- O Manifesto Comunista: Escrito em colaboração com Engels, o Manifesto é um panfleto que sintetiza as ideias básicas do marxismo. Nele, os autores fazem uma análise crítica do capitalismo, denunciando a exploração dos trabalhadores e a desigualdade social. O Manifesto termina com a célebre frase: "Proletários de todos os países, uni-vos!".
- O Capital: É a obra-prima de Marx, onde ele desenvolve uma análise detalhada do modo de produção capitalista. Marx investiga as leis do movimento do capital, a relação entre trabalho e capital, a mais-valia e as crises cíclicas do capitalismo.
- A Ideologia Alemã: Nessa obra, Marx e Engels criticam as ideias dos filósofos alemães, como Hegel e Feuerbach, e desenvolvem uma teoria materialista da história, segundo a qual as forças materiais, e não as ideias, são o motor da mudança histórica.
As ideias de Marx surgiram em um contexto histórico marcado por profundas transformações sociais e econômicas. A Revolução Industrial, a ascensão do capitalismo e a crescente desigualdade social criaram um terreno fértil para o pensamento crítico de Marx. O filósofo alemão procurou compreender as raízes dessas transformações e oferecer uma alternativa ao sistema capitalista.
O marxismo continua a ser uma força poderosa no pensamento político e social contemporâneo. Seus conceitos, como alienação, luta de classes e mais-valia, são amplamente utilizados para analisar as relações sociais e as dinâmicas do poder.
No entanto, o marxismo também foi alvo de muitas críticas e interpretações diversas. Alguns argumentam que o marxismo é uma ideologia ultrapassada, enquanto outros o consideram uma ferramenta fundamental para compreender o mundo contemporâneo.
Karl Marx, com suas ideias, embora controversas, continua a influenciar debates sobre justiça social e desigualdade até os dias de hoje. Dentre seus conceitos mais importantes, destacam-se a alienação e a mais-valia, que revelam uma crítica profunda ao modo de produção capitalista.
A alienação, para Marx, é um processo pelo qual o trabalhador se torna estranho ao produto de seu trabalho, ao processo produtivo, aos outros trabalhadores e a si mesmo. A mais-valia, por sua vez, refere-se à diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o salário que ele recebe, ou seja, a exploração do trabalho.
Adam Smith, um dos pais da economia clássica, celebrava a divisão do trabalho como um fator fundamental para o aumento da produtividade e da riqueza das nações. No entanto, Marx apresenta uma visão diametralmente oposta. Para ele, a divisão do trabalho, tal como ocorre no capitalismo, leva à alienação do trabalhador.
Ao fragmentar o processo produtivo em tarefas repetitivas e mecanizadas, a divisão do trabalho priva o trabalhador da satisfação de criar algo do início ao fim. O operário de uma linha de montagem, por exemplo, não se identifica com o produto final, pois sua contribuição é apenas uma pequena parte do todo. Além disso, a divisão do trabalho fragmenta as relações sociais, isolando os trabalhadores uns dos outros e dificultando a construção de uma consciência de classe.
A mais-valia é a essência da exploração capitalista, segundo Marx. O capitalista compra a força de trabalho do operário, mas o valor produzido por esse trabalho excede o valor do salário pago. Essa diferença, a mais-valia, é apropriada pelo capitalista e reinvestida no processo produtivo, gerando ainda mais lucro.
A mais-valia é extraída do trabalhador através da jornada de trabalho excedente, ou seja, do tempo que o trabalhador trabalha além do necessário para produzir o equivalente ao seu salário. Essa exploração é mascarada pela ideologia dominante, que apresenta o lucro como resultado do trabalho do capitalista e não do trabalho do operário.
As ideias de Marx sobre alienação e mais-valia continuam relevantes no mundo contemporâneo. A precarização do trabalho, a intensificação da exploração e a crescente desigualdade social são expressões da lógica capitalista denunciada por Marx. A alienação se manifesta de diversas formas, desde a alienação no trabalho até a alienação das relações sociais, mediadas pelas tecnologias digitais
Karl Marx, com suas teorias sobre a alienação e a mais-valia, oferece uma perspectiva crítica e transformadora sobre o capitalismo. Ao compará-lo com outros grandes pensadores como Adam Smith, Émile Durkheim, Max Weber e Michel Foucault, podemos aprofundar nossa compreensão das diferentes abordagens sobre a sociedade e o indivíduo.
Marx vs. Adam Smith: O Trabalho como Fonte de Valor e Alienação. – Smith Defende a divisão do trabalho como motor do progresso econômico, argumentando que a especialização aumenta a produtividade e a riqueza das nações. - Enquanto Smith vê o trabalho como fonte de riqueza, Marx o entende como fonte de valor e exploração. A divisão do trabalho, para Marx, leva à alienação e à mais-valia, ou seja, à apropriação do excedente produzido pelo trabalhador pelo capitalista.
Marx vs. Émile Durkheim: A Divisão do Trabalho e a Solidariedade Social - Durkheim: Analisa a divisão do trabalho como um fator de coesão social, que gera diferentes tipos de solidariedade (mecânica e orgânica). - Para Marx, a divisão do trabalho aprofunda as desigualdades sociais e as lutas de classe, enfraquecendo a solidariedade social.
Marx vs. Max Weber: Poder, Classe e Ideologia. - Weber: Aborda a questão do poder de forma mais ampla, analisando as diferentes formas de dominação (tradicional, carismática e racional-legal) e a importância da ideologia na legitimação do poder. - Marx: Concentra-se na luta de classes e na relação entre a estrutura econômica e a superestrutura ideológica. Para Marx, a ideologia serve para mascarar as relações de exploração e dominação.
Marx vs. Michel Foucault: Poder, Discurso e Conhecimento. - Foucault: Analisa o poder como uma relação de força que permeia todas as esferas da vida social, e não apenas a econômica. O poder se manifesta através de discursos, instituições e práticas que moldam a subjetividade. - Marx: Embora reconheça a importância da ideologia e do Estado na manutenção do poder, Marx enfatiza a relação entre a estrutura econômica e a superestrutura ideológica.
Comparando esses pensadores, podemos concluir que:
Marx e Smith oferecem visões contrastantes sobre a divisão do trabalho, um como fonte de alienação e exploração, outro como motor do progresso econômico.
Marx e Durkheim divergem sobre a relação entre a divisão do trabalho e a coesão social.
Marx e Weber concordam sobre a importância da ideologia na legitimação do poder, mas diferem quanto à natureza das relações de poder.
Marx e Foucault compartilham o interesse pelas relações de poder, mas Foucault adota uma abordagem mais ampla e descentralizada.
A comparação entre esses pensadores nos permite compreender a complexidade das questões sociais e econômicas, e a importância de analisar a sociedade a partir de diferentes perspectivas.
Se você está confuso sobre o mundo, não se preocupe: os grandes pensadores também estavam. A diferença é que eles tentaram organizar essa confusão em teorias complexas, para que pudéssemos nos sentir ainda mais perdidos. Mas, afinal, quem precisa de respostas simples em um mundo tão complexo? Afinal, a vida seria muito mais chata se soubéssemos tudo, não é mesmo?
Então, da próxima vez que você estiver em uma fila reclamando da burocracia, lembre-se de Weber e sua teoria da burocracia. Ou quando estiver em uma manifestação, pense em Marx e na luta de classes. E se você estiver se sentindo solitário em uma grande cidade, recorra a Durkheim e reflita sobre a solidariedade mecânica e orgânica. Afinal, a sociologia não é só para os acadêmicos: é para todos nós que buscamos entender o mundo em que vivemos.
VALE A PENA.
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