PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 19 de out. de 2024
- 5 min de leitura

Pirro de Élis (360-270ª.C)
O Ceticismo como Estilo de Vida
Um Filósofo Sem Livros
Como mencionamos na crônica anterior sobre Voltaire e “O Pirronismo da História”, a Pirro de Elis, achamos necessário também desvendar quem foi esse filósofo grego, que viveu entre 360/270 a.C. – Importante: Não confundir Pirro de Elis com o rei Pirro (rei de Epiro e Macedônia - 318/272 a.C.) e que ficou famoso pela atual afirmação de “vitória de Pirro”. (Mas isso é outra história).
Pirro de Élis, o filósofo grego que fundou o ceticismo pirrônico, é uma figura peculiar na história da filosofia. Ao contrário de seus contemporâneos, como Platão e Aristóteles, que deixaram para a posteridade vastos corpus de obras escritas, Pirro não deixou nenhum livro. Seus ensinamentos foram transmitidos oralmente, através de seus discípulos, e chegaram até nós fragmentados e interpretados por outros filósofos.
O cerne da filosofia de Pirro é a “epoché,” a suspensão do juízo. Diante da impossibilidade de alcançar um conhecimento absoluto e indubitável sobre o mundo, Pirro propunha que suspendêssemos nossos julgamentos sobre a natureza das coisas. Em outras palavras, em vez de afirmarmos ou negar algo com certeza, deveríamos simplesmente não nos pronunciar.
Essa postura cética radical levava Pirro a questionar tudo: a existência do mundo exterior, a natureza dos sentidos, a validade do conhecimento. Para ele, todas as nossas crenças e opiniões eram apenas aparências, fruto de nossas experiências subjetivas e limitadas.
A consequência prática da “epoché” era a “ataraxia”, a tranquilidade da alma. Ao suspender o juízo, libertamo-nos da angústia e da perturbação causadas pela busca incessante por certezas. A vida do cético pirrônico era marcada pela serenidade e pela indiferença diante dos acontecimentos do mundo. Como diria a cantora Luca: - “Tô nem aí, tô nem aí”
Pirro viveu em um período de grandes transformações na filosofia grega. A busca por um conhecimento fundamentado e universal era uma característica marcante da época. No entanto, Pirro, com sua postura radicalmente cética, desafiou essa busca, propondo uma alternativa que privilegiava a dúvida e a suspensão do juízo.
A filosofia de Pirro pode parecer distante e até mesmo estranha aos nossos olhos modernos. No entanto, suas ideias continuam a ressoar no pensamento contemporâneo. O ceticismo científico, por exemplo, compartilha com o pirronismo a ideia de que nossas teorias e modelos são sempre provisórios e sujeitos a revisão. Além disso, a valorização da dúvida e da crítica, tão presente na cultura contemporânea, tem suas raízes no ceticismo antigo.
Pirro de Élis, apesar de não ter deixado livros, deixou um legado importante para a filosofia. Seu ceticismo radical nos convida a questionar nossas crenças mais profundas e a buscar uma vida mais serena e livre de dogmas. Ao suspender o juízo, podemos abrir nossas mentes para novas possibilidades e perspectivas, e encontrar um sentido mais profundo para a existência.
A filosofia de Pirro de Élis, com sua proposta de suspender o juízo diante da impossibilidade de conhecer a verdade absoluta, continua a ecoar nos debates filosóficos e científicos contemporâneos. Vamos explorar como suas ideias influenciaram pensadores como Descartes e Hume, a relação entre o ceticismo e a fé religiosa, e a importância do ceticismo para o método científico
René Descartes, o pai da filosofia moderna, iniciou sua busca pela verdade com uma radical dúvida hiperbólica, questionando tudo o que poderia ser posto em dúvida. Essa atitude, de certa forma, dialoga com o ceticismo pirrônico. Descartes, no entanto, buscava um fundamento sólido para o conhecimento, um ponto de partida indubitável a partir do qual reconstruir todo o edifício do saber. A dúvida cartesiana, portanto, é um meio para um fim, enquanto o ceticismo pirrônico é um fim em si mesmo.
David Hume, o filósofo empirista escocês, foi profundamente influenciado pelo ceticismo antigo. Hume questionava a possibilidade de conhecermos o mundo além de nossas impressões sensoriais e ideias. Ele argumentava que não temos acesso a uma realidade externa independente de nossas percepções. Essa postura cética radical levou Hume a negar a existência de substâncias e de um eu imortal, limitando o conhecimento humano a relações de causa e efeito observadas em nossas experiências.
A relação entre ceticismo e fé religiosa é complexa e controversa. Por um lado, o ceticismo pode parecer incompatível com a fé, que exige a aceitação de verdades reveladas que vão além da experiência sensível. Por outro lado, alguns filósofos argumentaram que o ceticismo pode servir como um antídoto contra o dogmatismo religioso, incentivando uma fé mais racional e fundamentada. A história da filosofia da religião está repleta de debates sobre a compatibilidade entre razão e fé, e o ceticismo pirrônico continua a ser um ponto de referência nessas discussões.
O ceticismo desempenha um papel fundamental no método científico. A ciência se baseia na dúvida sistemática e na busca constante por evidências empíricas para corroborar ou refutar hipóteses. O cientista, assim como o filósofo cético, suspende o juízo até que haja evidências suficientes para afirmar algo com um alto grau de confiança. A história da ciência está repleta de exemplos de teorias que foram consideradas verdadeiras por muito tempo e que, posteriormente, foram refutadas por novas evidências
A filosofia de Pirro de Élis, com sua ênfase na dúvida e na suspensão do juízo, continua a ser relevante para a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. O ceticismo pirrônico nos convida a questionar nossas crenças mais profundas, a sermos críticos em relação às informações que recebemos e a buscar sempre novas evidências para fundamentar nossas opiniões. Ao mesmo tempo, o ceticismo nos ensina a importância da humildade intelectual e a reconhecer os limites do conhecimento humano.
O ceticismo, com suas raízes na filosofia antiga, oferece uma ferramenta valiosa para navegarmos no mar de informações da era digital, repleto de notícias falsas e desinformação. Ao cultivar uma postura cética, podemos desenvolver um senso crítico mais aguçado, capaz de identificar e desmascarar as manipulações e enganos que permeiam a comunicação contemporânea.
Vamos pensar; Quais as vantagens de sermos céticos?
O ceticismo nos incentiva a questionar todas as informações, por mais plausíveis que pareçam. Ao invés de aceitar passivamente uma notícia, o cético busca evidências, verifica fontes e analisa o contexto.
O ceticismo nos ensina a identificar a origem das informações. Fontes confiáveis, como instituições de pesquisa, veículos de comunicação renomados e especialistas na área, são mais propensas a fornecer dados precisos e imparciais.
O cético não se limita a repetir informações, mas as analisa de forma crítica. Ele busca contradições, inconsistências e falhas lógicas nos argumentos apresentados.
O ceticismo nos incentiva a formar nossas próprias opiniões, sem nos deixar levar pela opinião da maioria ou por argumentos emocionais.
Ao cultivar o ceticismo, podemos nos proteger contra a manipulação e tomar decisões mais informadas.
Ao analisar as informações de forma crítica, podemos tomar decisões mais racionais e embasadas em evidências.
Uma sociedade cética é mais resistente à manipulação política e à propaganda, contribuindo para um debate público mais saudável e informado.
Em Resumo: - O ceticismo não é sinônimo de negativismo ou descrença em tudo. É uma ferramenta que nos permite distinguir o verdadeiro do falso, o relevante do irrelevante. Ao cultivar uma postura cética, podemos nos tornar cidadãos mais críticos, informados e engajados.
O ceticismo é como um superpoder que nos permite voar acima das fake news e enxergar a realidade com mais clareza. É a nossa capa da invisibilidade contra a manipulação e a nossa espada de luz contra a desinformação. Mas, assim como todo superpoder, ele precisa ser usado com sabedoria, para não acabarmos isolados em nossas próprias bolhas de dúvidas.
VALE A PENA.
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