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PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de out. de 2024
  • 4 min de leitura

 Thomas Hobbes: O Leviatã e a Visão Pessimista do Estado de Natureza.

Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVII, é figura central na história do pensamento político. Sua obra mais famosa, Leviatã, publicada em 1651, é um marco na filosofia política, oferecendo uma visão sombria da natureza humana e defendendo a necessidade de um Estado forte e absoluto para garantir a ordem social.

Hobbes, assim como seu contemporâneo Francis Bacon, foi um dos principais pensadores a marcar a transição da filosofia medieval para a moderna. Ambos buscavam uma nova forma de conhecimento, baseada na experiência e na razão, e não apenas na tradição e na autoridade. Bacon é frequentemente considerado o pai do empirismo, enquanto Hobbes, embora compartilhe dessa abordagem, desenvolveu uma filosofia política fortemente influenciada pelo naturalismo e pelo materialismo.

No Leviatã, Hobbes descreve o estado de natureza como um estado de guerra constante, onde os indivíduos vivem em um estado de medo e insegurança. A vida, nesse estado, seria "solitária, pobre, sórdida, bruta e curta". Para escapar dessa condição, os homens celebram um contrato social, renunciando a parte de sua liberdade em troca da proteção de um soberano absoluto. Esse soberano, representado na obra como um monstro gigantesco, seria a única figura capaz de garantir a paz e a ordem social. Ou seja, a paz social sob uma ditadura tirânica. Parece que estamos diante do criador das modernas ditaduras.

A figura do Leviatã simboliza o Estado, um poder artificial criado pelos homens para garantir sua própria sobrevivência. O soberano, portanto, não está sujeito a nenhuma lei, pois é a própria lei. Tem algo aqui de Luís XIV (L'État, c'est moi) ou do tirano da Coreia do Norte, Kim Jong-il. 

A justificativa para esse poder absoluto reside na premissa de que a vida em sociedade é preferível à vida no estado de natureza, mesmo que isso implique em uma perda de liberdade individual.

O pensamento de Hobbes exerceu uma profunda influência na filosofia política e social. Sua visão pessimista da natureza humana e a defesa do absolutismo monárquico foram amplamente debatidas e contestadas por filósofos posteriores, como John Locke e Jean-Jacques Rousseau. No entanto, suas ideias continuam a ser relevantes nos dias de hoje, especialmente no que diz respeito à questão da relação entre o indivíduo e o Estado.

A visão de Hobbes sobre o poder e a política como uma luta constante por recursos e dominação influenciou o realismo político, uma corrente que busca compreender a política a partir de suas bases mais realistas e pragmáticas.

Para ele, a ideia do estado de natureza  como um jogo em que todos perdem, a menos que haja um acordo, antecipou a teoria dos jogos, uma disciplina que estuda as decisões estratégicas em situações de conflito. As ideias de Hobbes sobre a natureza humana e a formação da sociedade contribuíram para o desenvolvimento da sociologia, especialmente no que diz respeito às teorias sobre a ordem social e o controle social.

Thomas Hobbes foi um pensador fundamental para a compreensão da filosofia política moderna. Sua obra Leviatã continua a ser objeto de estudo e debate, oferecendo insights valiosos sobre a natureza humana e a construção do Estado.

Vamos fazer uma rápida comparação dos três principais pensadores do contrato social:

Hobbes: Visão pessimista da natureza humana, defesa do absolutismo monárquico como única forma de garantir a paz e a ordem social.

Locke: Visão mais otimista da natureza humana, defesa do direito natural à vida, liberdade e propriedade, e da necessidade de um governo limitado para proteger esses direitos.

Rousseau: Crítica à sociedade civil e à propriedade privada, defesa do estado de natureza como um estado de pureza e felicidade, e a necessidade de um contrato social que garanta a vontade geral.

Mas as grandes críticas  à teoria do Estado absoluto de Hobbes são: - O poder absoluto do soberano pode levar à tirania e à opressão; - A submissão total do indivíduo ao Estado,, ignora os direitos naturais e a dignidade humana.

Ao descrever o estado de natureza como "solitária, pobre, sórdida, bruta e curta", Hobbes pinta um quadro sombrio da condição humana sem a existência de um poder político. Cada adjetivo revela um aspecto dessa condição:

  • Solitária: A ausência de laços sociais fortes e duradouros.

  • Pobre: A escassez de recursos e a dificuldade de garantir a subsistência.

  • Sórdida: A vida marcada pela violência, pela insegurança e pela falta de civilidade.

  • Bruta: A ausência de leis e de um poder capaz de moderar os comportamentos.

  • Curta: A constante ameaça à vida, que torna a existência precária e incerta.

A religião como fundamento do poder: Hobbes utiliza argumentos religiosos para justificar a obediência ao soberano, apresentando-o como um representante de Deus na Terra. Afirmou a necessidade da  imposição de uma religião oficial que serve para evitar as guerras religiosas que assolavam a Europa na época. E que, a  religião fornece um conjunto de valores e normas que ajudam a manter a coesão social.

Ele  não se mostra particularmente preocupado com a verdade religiosa, mas sim com o uso da religião como um instrumento político para controlar as massas. Embora defenda a necessidade de uma religião civil para garantir a ordem social, Hobbes não é um defensor da tolerância religiosa ilimitada.

Resumindo, ele  nos convida a uma jornada sombria pelo estado de natureza: um reality show onde a cada esquina nos deparamos com um novo desafio de sobrevivência. Para escapar desse caos, o filósofo nos propõe uma solução radical: entregar nosso destino a um monstro gigante. Sim, um monstro! Mas, afinal, quem disse que a segurança não tem um preço? Afinal, quem gostaria de viver em um mundo onde a única preocupação é obedecer ao Leviatã? É como trocar a selva por uma gaiola dourada, mas com mais segurança, não é mesmo? A pergunta que fica é: vale a pena abrir mão da liberdade em nome da ordem? Hobbes nos convida a refletir sobre essa questão, mas a resposta, afinal, é sua.

VALE A PENA.

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