PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 3 de out. de 2024
- 3 min de leitura

Duns Scotus - O sutil Doutor e as profundezas da metafísica.
John Duns Scotus (1266/1308) o "Sutil Doutor", como ficou conhecido, foi um dos mais importantes filósofos e teólogos da Idade Média. Suas ideias, especialmente sobre a natureza de Deus, a liberdade humana e a existência dos universais, provocaram debates acalorados que ecoaram por séculos.
Uma das principais contribuições de Scotus para a filosofia foi a sua defesa da contingência do mundo. Em oposição a Tomás de Aquino, que defendia a necessidade do mundo criado, Scotus argumentava que o mundo poderia não existir, que a existência de Deus não implicava necessariamente na existência de um universo. Essa posição, embora controversa, abriu caminho para uma visão mais dinâmica e menos determinista da realidade.
Outra questão central na filosofia de Scotus era a natureza da liberdade humana. Para ele, a liberdade não era apenas a capacidade de escolher entre diferentes opções, mas também a capacidade de agir por si mesmo, sem ser determinado por causas externas. Essa noção de liberdade, profundamente enraizada na sua teologia, teve um impacto significativo na ética e na política.
A questão dos universais, um dos grandes debates da filosofia medieval, também foi abordada por Scotus de forma original. Ele propôs uma teoria moderada dos universais, argumentando que eles existem tanto na mente de Deus como nas coisas particulares. Essa posição, conhecida como realismo moderado, procurava conciliar as posições extremas do realismo e do nominalismo.
Os universais são aqueles atributos que são comuns a vários indivíduos. Por exemplo, o conceito de "humanidade" é um universal que se aplica a todos os seres humanos. Outro exemplo: Propriedades, características que podem ser compartilhadas por diferentes objetos. Por exemplo, a cor “vermelho” é uma propriedade universal que pode ser encontrada em várias coisas, como uma maçã ou um carro. Elementos éticos e morais, como a amizade, o respeito, e a honestidade também são exemplos do que ele conceituava entre os universais,
A questão é: onde reside a realidade desses universais? Existem apenas nas nossas mentes? Ou têm uma existência independente da mente, talvez em um mundo platônico de ideias?
As ideias de Duns Scotus geraram inúmeras controvérsias. Seus críticos o acusavam de obscurecer a fé com distinções sutis e de se afastar da tradição aristotélica. A expressão "escotismo" passou a ser utilizada pejorativamente para designar uma filosofia considerada excessivamente complexa e sutil.
No entanto, a influência de Scotus foi imensa. Suas ideias sobre a vontade de Deus, a liberdade humana e a natureza da realidade continuam a ser estudadas e debatidas até os dias de hoje. A filosofia de Scotus desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da filosofia moderna, especialmente no que diz respeito à questão da existência de Deus e à natureza do conhecimento.
Ao explorarmos a filosofia de Duns Scotus, é fundamental adentrarmos as próprias obras que moldaram seu legado. As "Obras Filosóficas" e as "Obras Teológicas" de Scotus constituem um vasto corpus que abrange desde questões metafísicas até discussões sobre a natureza de Deus e a ética.
Nas "Obras Filosóficas", Scotus se debruça sobre os fundamentos da realidade, investigando a natureza dos universais, a relação entre essência e existência, e os princípios da lógica. Seu realismo moderado, que afirma a existência dos universais tanto na mente divina quanto nas coisas particulares, encontra aqui sua fundamentação mais sólida. Além disso, Scotus desenvolve uma teoria da conhecimento que busca conciliar a experiência sensível com a intuição intelectual.
Nas "Obras Teológicas", o foco se volta para a relação entre Deus e o mundo, a natureza da liberdade humana e os mistérios da fé. Scotus defende um voluntarismo moderado, segundo o qual a vontade divina é a causa primeira de todas as coisas, mas sem negar a contingência do mundo criado. A liberdade humana, para Scotus, é um dom divino que permite ao homem agir de forma autônoma e responsável.
O legado de Duns Scotus se estende por séculos, influenciando filósofos e teólogos como Francisco Suárez, René Descartes e Martin Heidegger. Suas ideias sobre a contingência do mundo, a liberdade humana e a natureza de Deus continuam a desafiar e inspirar pensadores contemporâneos.
Confesso que, depois de tanto estudar a filosofia de Duns Scotus, me sinto um pouco como Alice no País das Maravilhas. Tudo parece mais complexo e intrigante do que antes, e às vezes tenho a sensação de que estou falando grego (ou latim, no caso). Mas, afinal, quem disse que a filosofia precisa ser fácil? A vida já é complicada o suficiente, mas
VALE A PENA.
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