PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 24 de set. de 2024
- 4 min de leitura

Anaxímenes: O Sopro da Vida e a Origem de Tudo
Anaxímenes de Mileto, mais um dos filósofos pré-socráticos, nos convida a uma jornada introspectiva. Ao respirarmos, não apenas oxigenamos nossos corpos, mas também nos conectamos com o princípio fundamental do universo, segundo sua filosofia: o ar.
Para Anaxímenes, o ar não era apenas o que nos permite viver, mas a própria vida. Era a substância primordial, a partir da qual tudo se originava. Através de processos de condensação e rarefação, o ar daria origem a todos os elementos e, consequentemente, a tudo o que existe. As pedras, os animais, as plantas, os astros celestes – todos seriam diferentes manifestações do ar em diversos estados.
A ideia de que o ar era a origem de tudo pode parecer simples à primeira vista, mas carrega consigo uma profundidade que transcende o tempo. Ao colocar o ar no centro de suas reflexões, o filósofo nos convida a olhar para o mundo com novos olhos. A brisa que acaricia nosso rosto, o vento que agita as árvores, o sopro que dá vida a uma chama – todos esses fenômenos nos remetem à substância primordial que, segundo ele, permeia o universo.
Fernando Pessoa, mais de dois mil anos depois escreveu:
“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”
(...) “O vento, que não tem rosto, passa.”
A filosofia de Anaxímenes também nos leva a refletir sobre a natureza da alma. Para ele, a alma, assim como o universo, era composta de ar. Através da respiração, o ar entra em nossos corpos e nos anima, dando-nos a capacidade de pensar, sentir e agir. A alma, portanto, seria uma espécie de sopro divino que habita em cada um de nós.
É interessante notar que a ideia de que o ar está presente em todas as coisas e que ele é a fonte da vida encontra eco em diversas culturas e tradições ao longo da história. O conceito hindu de prana, a energia vital que permeia todas as coisas, e o conceito chinês de qi, a força vital que flui através do universo, são exemplos disso.
A filosofia de Anaxímenes, apesar de ter sido formulada há mais de dois mil anos, continua a nos desafiar a pensar sobre as questões fundamentais da existência. Ao nos convidar a olhar para o ar com novos olhos, ele nos mostra que a simplicidade pode ser a chave para a compreensão da complexidade do universo.
Essa filosofia, apesar de ter sido formulada em um contexto histórico e cultural muito distante do nosso, mantém uma relevância surpreendente para a ciência moderna. Ao propor o ar como o princípio originário de todas as coisas, Anaxímenes estava, de certa forma, antecipando a busca da ciência por um princípio unificador da natureza.
Para Anaxímenes, o ar era a substância primordial que, através de diferentes processos, originava todos os elementos e, consequentemente, tudo o que existe. Essa busca por um princípio unificador da natureza é um traço marcante da filosofia pré-socrática e continua a ser uma preocupação central da ciência moderna. A física de partículas, por exemplo, busca identificar as partículas elementares que constituem toda a matéria. A descoberta do bóson de Higgs, a partícula associada ao mecanismo de geração de massa, é um exemplo dessa busca por um princípio unificador.
A ciência moderna também se baseia na observação e na experimentação. O método científico, que consiste em formular hipóteses, realizar experimentos e analisar os resultados, é uma ferramenta fundamental para a produção de conhecimento científico.
Para Anaxímenes, o ar podia se transformar em outros elementos através de processos de condensação e rarefação. Essa noção de transformação é fundamental para a compreensão dos fenômenos naturais. A física e a química estudam as transformações da matéria e da energia. As leis da termodinâmica, por exemplo, descrevem as transformações de energia que ocorrem nos sistemas físicos.
Portanto, essa filosofia continua a ser relevante para a nossa compreensão do mundo contemporâneo por diversas razões:
A crise ambiental, a poluição atmosférica, a diminuição da camada de ozônio, e a crescente preocupação com a sustentabilidade nos mostram a importância de estabelecer uma relação mais harmônica com a natureza. A filosofia de Anaxímenes, ao colocar o ar no centro de suas reflexões, nos lembra da nossa conexão com o mundo natural.
Muito mais ainda, a filosofia de Anaxímenes nos ensina a importância de questionar as coisas e de buscar novas explicações para os fenômenos naturais. Essa atitude crítica é fundamental para o progresso científico e para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.
A teoria do ar como princípio de tudo, nos lembra daquela famosa frase de Shakespeare: “O vento sopra aonde quer”. E é verdade! O ar é um elemento inquieto, imprevisível, que nos conecta com algo maior do que nós mesmos. Assim como o Príncipe de Dinamarca, talvez nós também devêssemos nos perguntar: “Ser ou não ser, eis a questão”.
Mas, antes de tudo, talvez devêssemos respirar fundo e apreciar a brisa.
VALE A PENA.
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