PEQUENAS CRÔNICAS SOBRE AS GRANDES FILOSOFIAS
- Carlos A. Buckmann
- 25 de out. de 2024
- 6 min de leitura

Thomas More (1478-1535)
O Utopia e a Busca por uma Sociedade Ideal
Thomas More, figura emblemática do Renascimento inglês, foi um homem de múltiplos talentos: filósofo, estadista, diplomata, escritor e advogado. Nascido em Londres em 1478, sua vida se entrelaçou com os grandes acontecimentos de sua época. Como Lorde Chanceler de Henrique VIII, More ocupou um dos mais altos cargos da Inglaterra, mas sua trajetória tomou um rumo trágico ao se recusar a aceitar a supremacia do rei sobre a Igreja, o que o levou à prisão e execução em 1535.
A obra mais famosa de More, "Utopia", publicada em 1516, é uma espécie de romance filosófico que descreve uma ilha fictícia onde reina a justiça social, a igualdade e a felicidade. Nessa sociedade ideal, a propriedade privada é abolida, o trabalho é dividido igualmente entre todos, e a religião é tolerada. A Utopia é, ao mesmo tempo, uma crítica à sociedade inglesa da época, marcada pelas desigualdades sociais, pela corrupção e pela intolerância religiosa, e uma projeção de um mundo melhor.
O pensamento de More está profundamente enraizado no humanismo renascentista, que valorizava a razão, a dignidade humana e a busca pelo conhecimento. Sua filosofia política, presente em "Utopia", é marcada por um idealismo utópico que busca a criação de uma sociedade justa e igualitária. More defendia a importância da educação para todos, a necessidade de limitar o poder do Estado e a importância da religião como força unificadora da sociedade.
"Utopia" foi escrita em um período de grandes transformações sociais e políticas na Europa. A Reforma Protestante desafiava a autoridade da Igreja Católica, e os Estados nacionais consolidavam seu poder. Nesse contexto, a obra de More pode ser vista como uma tentativa de conciliar os ideais humanistas com as exigências de uma nova ordem social.
A obra de Thomas More continua a ser relevante nos dias atuais. A busca por uma sociedade mais justa e igualitária, presente em "Utopia", ecoa nas discussões contemporâneas sobre questões como desigualdade social, globalização e direitos humanos. A ideia de uma sociedade sem propriedade privada, por exemplo, inspirou diversos movimentos sociais e políticos ao longo da história.
A vida pessoal de Thomas More, marcada por profundas convicções religiosas e um senso agudo de justiça, está intrinsecamente ligada à criação de sua obra mais famosa, "Utopia". Ao analisar a relação entre sua biografia e seu pensamento, podemos compreender melhor as motivações que o levaram a defender suas ideias e a construir um ideal de sociedade tão distante da realidade de sua época.
More era um católico fervoroso, profundamente comprometido com os princípios da Igreja. Sua fé o impulsionava a buscar uma sociedade mais justa e virtuosa, baseada nos ensinamentos cristãos.
Como Lorde Chanceler, More teve contato direto com os problemas sociais e políticos de sua época, as desigualdades sociais, a corrupção e a injustiça, o que o levou a questionar a ordem estabelecida.
A experiência política de More foi marcada por momentos de frustração e desilusão. A corrupção e o egoísmo dos poderosos o levaram a buscar um modelo de sociedade mais justo e honesto.
More foi um grande admirador do humanista Erasmo de Roterdã, que defendia a importância da educação, da razão e da dignidade humana. As ideias de Erasmo influenciaram profundamente o pensamento de More e contribuíram para a formação de sua visão utópica.
A decisão de Henrique VIII de romper com a Igreja Católica e criar a Igreja da Inglaterra colocou More em um dilema moral. Sua recusa em aceitar a supremacia do rei sobre a Igreja o levou à prisão e à morte, demonstrando a força de suas convicções.
A Utopia de Thomas More, com sua visão idealizada de uma sociedade perfeita, serviu como inspiração para muitos pensadores que se aventuraram a imaginar mundos melhores. Dois exemplos notáveis são Tommaso Campanella e Francis Bacon.
Tommaso Campanella: filósofo italiano, em sua obra "A Cidade do Sol", apresenta uma sociedade utópica baseada em princípios comunistas e teológicos. Campanella, influenciado por More, leva a ideia da comunidade ideal ainda mais longe, concebendo uma cidade utópica com uma estrutura social rígida e uma religião cívica. No entanto, enquanto More buscava uma sociedade mais humana e tolerante, Campanella idealizava um estado totalitário, onde a felicidade individual se submetia ao bem comum.
Francis Bacon: o filósofo inglês, por sua vez, em sua obra "Nova Atlântida", apresenta uma visão utópica da ciência e da tecnologia. Bacon imagina uma ilha onde a ciência é utilizada para o bem da humanidade, e onde a natureza é dominada e controlada. A utopia de Bacon é mais pragmática e menos idealista que a de More, focando no progresso material e no desenvolvimento científico.
Também a comparação entre a Utopia de More e "A República" de Platão é inevitável, pois ambas as obras buscam definir o que seria uma sociedade ideal. Ambas criticam as desigualdades sociais e a corrupção de seus respectivos contextos. Tanto Platão quanto More buscam uma sociedade justa e harmoniosa, onde os indivíduos se realizam plenamente.
No entanto existem diferenças: Platão enfatiza a importância da filosofia e da educação para a construção de uma sociedade justa, enquanto More dá mais ênfase às instituições sociais e às leis. Além disso, a Utopia de More é mais concreta e realista que a República de Platão, que é mais abstrata e filosófica.
Mas não nos esqueçamos que toda ação cria uma reação igual e contrária. Assim a utopia deu origem a algumas distopias.
A busca por uma sociedade perfeita, presente na Utopia de More, pode ser vista como um ponto de partida para a construção de distopias. Ao imaginarmos um mundo ideal, também podemos imaginar as possíveis distorções e perversões desse ideal. George Orwell, em "1984", nos apresenta uma sociedade totalitária onde o Estado controla todos os aspectos da vida dos cidadãos, desde seus pensamentos até suas ações. A vigilância constante, a propaganda e a manipulação da verdade são ferramentas utilizadas para manter o poder. Essa sociedade distópica pode ser vista como uma inversão da Utopia de More, onde a busca por ordem e controle leva à tirania.
Outra distopia que se originou em contrapartida da Utopia de Thomas More, é O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, de Aldous Huxley, que nos remete a uma tirania controlada pela ciência.
Por outro lado, as ideias de igualdade e justiça social presentes na Utopia de More encontram um eco no pensamento socialista.
Tanto More quanto os socialistas defendem a igualdade como um princípio fundamental para a construção de uma sociedade justa. A abolição da propriedade privada, presente na Utopia, é uma ideia que também foi explorada por diversos pensadores socialistas como Marx e Engels.
No entanto, as visões de More e dos socialistas sobre a igualdade e a justiça social divergem em alguns pontos. Enquanto More buscava uma sociedade harmoniosa e cooperativa, muitos socialistas adotaram uma visão mais conflituosa da história, acreditando que a luta de classes era inevitável para alcançar a igualdade.
A história do socialismo demonstra que a busca por uma sociedade igualitária pode levar a regimes totalitários, como os que surgiram na União Soviética e na China. Essa experiência histórica nos mostra a importância de encontrar um equilíbrio entre a busca por justiça social e a preservação das liberdades individuais.
A Utopia de Thomas More continua a ser uma obra relevante para a reflexão sobre a sociedade e a política. Ao analisar a influência de More na criação de distopias e sua relação com o pensamento socialista, podemos compreender melhor os desafios e as complexidades da construção de um mundo mais justo e equitativo.
Thomas More nos deixou um legado um tanto quanto... utópico. Afinal, quem nunca sonhou com uma sociedade sem impostos, onde a geladeira se enche sozinha e os vizinhos nunca reclamam do som do seu cachorro? Mas, como diria o filósofo Groucho Marx, “O paraíso é um lugar onde nada nunca dá errado... e ninguém mora lá”. Talvez a verdadeira utopia esteja em apreciar as pequenas alegrias da vida, mesmo que elas venham acompanhadas de um bom livro sobre filosofia política. Como disse o poeta Fernando Pessoa, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E quem sabe, um dia, possamos construir um mundo onde até os políticos sejam honestos e os filósofos saibam cozinhar. Na cozinha eu me defendo, mas com respeito aos políticos... é Utopia.
VALE A PENA.
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