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PENSAR NÃO É TER OPINIÕES

  • Carlos A. Buckmann
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

PENSAR NÃO É TER OPINIÕES

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia um refúgio para almas deslocadas no tempo. As mesas de castanho, gastas pelo uso de décadas imaginárias, sustinham pequenas velas cujas chamas tremiam ao ritmo da respiração dos presentes.

            Pelas janelas de vidro grosso, a cidade lá fora era apenas um borrão de luzes indistintas, como se o mundo real tivesse resolvido dar uma trégua. Os frequentadores habituais, o velho anarquista que lê Proudhon, a jovem poetisa de olhos inquisidores, o casal que discute política em voz baixa, todos pareciam à espera de algo, ou de alguém.

            Na vitrola, um disco de Kurt Weill cantado por Lotte Lenya. Aquelas canções agridoces, que oscilam entre o cabaré e o lamento, criavam o clima perfeito: a Berlim dos anos 30, o exílio, a resistência, a melancolia de quem viu o mundo desmoronar e precisou reconstruí-lo com palavras.  

            Foi sob essas notas que a porta se abriu para duas figuras que carregavam no olhar o peso do século. Ela, de cabelos grisalhos presos com descuido calculado, trazia um maço de papéis debaixo do braço e uma expressão de quem pensa mais rápido do que fala. Hanna Arendt.

            Ele, com o charuto apagado entre os dedos e o sorriso cínico de quem já encenou todas as tragédias humanas, sentou-se pesadamente na cadeira: Berthold Brecht.

            Reconheci-os imediatamente. Não pelos rostos, que a história registrou em preto e branco, mas pela aura. Arendt cheirava a biblioteca e urgência; Brecht, a tabaco e ironia. Escolheram a mesa junto à estante de filosofia, onde os livros pareciam curvar-se para ouvir. Aproximei-me.

            “Dois cafés” pediu Arendt, sem consultar o companheiro.

            “E um conhaque para mim”, acrescentou Brecht. “A lucidez precisa de combustível.”

            Servi-os em silêncio, mas fiquei por perto, fingindo limpar uma mesa vizinha. A conversa que se anunciava não era para ser perdida.

            “Então é verdade que a senhora ainda acredita na política?”  disse Brecht, após o primeiro gole de conhaque. “Depois de tudo o que vimos, depois dos campos, dos julgamentos, da banalidade...”

            “Não é uma questão de acreditar”, interrompeu Arendt, com a precisão de quem escolhe cada palavra como quem planta uma bandeira. “É uma questão de necessidade. Sem política, sem o espaço público onde os homens aparecem e agem, não há liberdade. Há apenas necessidade, sobrevivência, o rebanho.”

            Brecht riu, uma risada curta, quase amarga.

            “O espaço público. A ágora. A senhora fala como uma grega, mas vivemos num tempo de romanos decadentes. O que resta do espaço público? Multidões que aplaudem algozes, que compram a própria miséria, que se distraem com espetáculos enquanto o mundo arde. Escrevi na ‘Ópera dos Três Vinténs’: ‘Primeiro comem, depois vêm a moral’. Mas hoje comem mal e a moral é pior.”

            Arendt mexeu o café, lenta, como se procurasse as respostas no fundo da xícara.

            “Por isso é preciso pensar. Não fugir para o cinismo, Brecht. O cinismo é a rendição disfarçada de sabedoria. Eu vi isso em Jerusalém, durante o julgamento de Eichmann. Um homem medíocre, incapaz de pensar, que cometeu monstruosidades por obediência cega. A lição não é que todos são monstros, mas que qualquer um pode ser, se abdicar de pensar.”

            “Pensar!” Brecht quase cuspiu a palavra. Pensei a vida inteira. Escrevi peças para fazer pensar. ‘Mãe Coragem’ arrasta a carroça pela guerra e o público pensa: ‘ela devia ter aprendido’. Aprendem? Não. Voltam para casa e continuam a mesma gente. O teatro é um martelo, Hanna. Mas só funciona se a cabeça do público for prego.”

            Lotte Lenya cantava agora "Alabama Song", e a música parecia dançar entre eles como um fantasma.

            “O senhor quer mudar o mundo com o teatro, disse Arendt, sem julgamento, apenas constatação. Eu quero compreendê-lo. Não é menos ambicioso, talvez seja mais humilde. Escrevi ‘As Origens do Totalitarismo’ não para dar receitas, mas para entender como foi possível. O antissemitismo, o imperialismo, a massificação... tudo converge para aquele ponto negro onde o ser humano vira supérfluo.”

            “Supérfluo, repetiu Brecht, saboreando a palavra. Gosto disso. O homem supérfluo. Meu ‘Galileu’ também fala disso: o cientista que se curva diante do poder, que trai a razão para salvar a pele. E no final, come. A ciência vira mercadoria, o saber vira segredo, o povo continua na ignorância. A senhora acha que isso mudou?”

            Arendt ergueu os olhos para as luzes do café, como se procurasse uma estrela distante.

            “Não mudou. Mas também não é desculpa para desistir. O problema do nosso tempo é que as pessoas confundiram pensar com ter opiniões. Têm opiniões sobre tudo, mas não pensam sobre nada. A opinião é fácil, é um manto que se veste. O pensamento é trabalho, é desconforto. Eichmann não pensava, apenas opinava. Opinava que devia cumprir ordens, que os judeus eram inimigos, que tudo estava certo.”

            Brecht acendeu finalmente o charuto, e a fumaça subiu como um perguntador.

            “E a arte? A minha arte, a sua filosofia? Servem para quê, se o mundo continua a preferir as opiniões confortáveis? Escrevi poemas no exílio, peças para serem lidas em voz baixa, adaptações para sobreviver. E sabe o que aprendi? Que o povo quer pão e circo. Dou-lhes circo, disfarçado de crítica. Eles riem, aplaudem, e no dia seguinte votam nos mesmos canalhas.”

            Foi então que, esquecendo o protocolo, aproximei-me com a desculpa de servir mais café.

            Perdão, mestres, arrisquei.  Mas hoje, com as redes sociais, com a polarização, com a mentira institucionalizada... o que sobra das vossas ideias? O pensamento de Hanna resiste ao tsunami de opiniões? O teatro de Brecht ainda pode ser martelo?

            Arendt sorriu, um sorriso triste.

            “Meu caro, hoje as pessoas não têm opiniões, têm algoritmos. Não pensam, são pensadas. A multiplicação de vozes não é pluralidade, é ruído. E o ruído é o melhor amigo da tirania.”

            “E o martelo, completou Brecht, virou marreta nas mãos de quem não sabe usar. Usam o teatro, a arte, a palavra para bater, não para construir. A minha ‘peça didática’ queria ensinar a pensar. Hoje ensinam a odiar.”

            O silêncio que se seguiu foi denso como fumaça. A música mudou para algo mais lento, talvez "Surabaya Johnny". Arendt puxou um dos papéis que trazia consigo.

            “Estou trabalhando num livro sobre o julgar. A terceira parte da minha vida do espírito. Quero entender como julgamos, o que nos leva a distinguir o bem do mal. Não há respostas fáceis, mas há caminhos.”

            “E eu, disse Brecht, continuo a escrever, mesmo morto. As minhas peças são representadas em todo o lado, adaptadas, traídas, mas representadas. O ‘Círculo de Giz Caucasiano’ ainda pergunta: a quem pertence a criança? À que a gerou ou à que a criou? A pergunta é eterna.”

            Falaram longamente sobre projetos, sobre a recepção das suas obras. Arendt contou como "Eichmann em Jerusalém" lhe custou amizades, como a acusaram de fria, de insensível. "Não entendiam que a frieza era método, não indiferença". Brecht falou do Comité de Atividades Antiamericanas, do exílio, de como a sua obra foi usada e abusada pelos dois lados da cortina de ferro. "O poeta", disse, "é como o pão: todos querem, mas ninguém quer saber de quem o amassou".

            Quando a noite já ia alta, levantaram-se. Arendt deixou sobre a mesa uma pena de escrever, dessas antigas, de aço. Brecht deixou um botão de casaco, descosido, como os que Mãe Coragem perdia nas suas andanças. Despediram-se com um aceno, cada um para seu lado da noite.

            Fiquei a limpar as xícaras, a apagar as velas, a pensar. Duas vidas dedicadas a compreender o horror e a combatê-lo com as únicas armas que tinham: o pensamento e a palavra. Onde a banalidade do mal se multiplicou em likes e shares, onde o teatro da crueldade é transmitido em direct. Talvez a lição seja esta: pensar dói, mas não pensar dói mais ainda. E a arte, mesmo quando não muda o mundo imediatamente, mantém viva a pergunta que o mundo insiste em esquecer.

            E o Café Entre Fluxos fechou as portas naquela noite, guardando no silêncio o eco de duas vozes que, mesmo do outro lado da vida, insistem em nos lembrar que a humanidade é uma escolha, não um dado.

            No meu livro de guardanapos, onde guardo as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Arendt deixou cair como quem não quer deixar, mas deixa:

            "Pensar não é ter opiniões. É estar disposto a suportar o desconforto de não ter respostas prontas."

           

 
 
 

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