PARTIR POR PARTIR. - - O MISTÉRIO DA JORNADA.
- Carlos A. Buckmann
- 2 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

PARTIR POR PARTIR – O MISTÉRIO DA JORNADA
– "O prazer da viagem é partir por partir. Triste viajante o que só espera a felicidade na chegada" –, A frase de André Comte-Sponville, ecoando o melancólico verso de Baudelaire ressoa com uma profundidade que tange a própria essência da existência humana. É no prazer do partir, no abismo que se abre ao abandonar o porto seguro, que reside o verdadeiro fascínio da viagem. Parto, eu próprio, diariamente, seja para um destino geográfico ou metafórico, e percebo que a felicidade jamais se apresenta como uma chegada triunfante. Em verdade, ela se dispersa nos momentos fugazes: o vento nos cabelos, o aroma novo no ar, a descoberta de um caminho inexplorado.
Permita-me, então, com a modéstia que a erudição impõe, tecer algumas reflexões sobre essa instigante perspectiva.
Desde os tempos imemoriais, a jornada, a busca, o movimento têm se mostrado mais ricos em ensinamentos e, paradoxalmente, em contentamento, do que o ponto final almejado. Pensemos em Ulisses, o astuto herói homérico. Sua odisseia, repleta de perigos e desafios, é muito mais memorável e rica em experiências do que seu eventual retorno a Ítaca. A própria narrativa da sua vida reside nas provações enfrentadas, nos aprendizados colhidos em terras distantes e nos encontros com seres fantásticos. Se sua felicidade residisse unicamente no abraço de Penélope, a epopeia seria breve e desinteressante.
Da mesma forma, a vida pessoal de cada um de nós se assemelha a essa viagem constante. Quantas vezes idealizamos um futuro longínquo, uma conquista específica, depositando nela toda a nossa expectativa de felicidade? Esquecemos, nesse anseio, de saborear o presente, as pequenas vitórias diárias, os laços que construímos ao longo do caminho. Aquele estudante que sonha apenas com o diploma, negligenciando o aprendizado e as amizades da faculdade, talvez se depare com um vazio assim que a tão desejada formatura chegar. A felicidade, tal qual uma borboleta esquiva, raramente pousa onde se espera, mas surge inesperadamente nos jardins percorridos.
Essa analogia se estende, de maneira surpreendente, ao árduo campo profissional. Quem nunca se viu ansiando pela sexta-feira, pelas férias, pela promoção, como se a felicidade residisse apenas nesses pontos de descanso ou ascensão? Contudo, é no dia a dia, nos desafios superados, nas colaborações frutíferas e até mesmo nos tropeços que nos fortalecemos e encontramos um sentido mais profundo no trabalho. Aquele artesão que ama o processo de moldar a argila, o médico que se dedica com afinco a cada paciente, o professor que se encanta com a descoberta nos olhos dos alunos – estes encontram uma satisfação intrínseca na jornada profissional, independentemente do reconhecimento final. Simone de Beauvoir discorre que é no "agir" que a existência encontra significado. Trabalhar não é apenas alcançar metas – não é receber o prêmio ao final do expediente. É na dificuldade, na solução de problemas, no brilho de uma ideia nascida da confusão, que se dá o prazer de partir.
Outros pensadores ecoaram essa sabedoria. Fernando Pessoa, com sua melancólica lucidez, nos lembra da beleza da busca, mesmo que o objeto almejado permaneça inatingível. Em seus versos, encontramos a celebração da viagem interior, da constante metamorfose do ser. Nietzsche, com sua filosofia do eterno retorno, nos convida a amar cada instante da nossa jornada, pois cada passo será repetido infinitamente. A própria filosofia estoica nos ensina a focar no que podemos controlar – o presente, nossas ações – e a aceitar com serenidade o que está além do nosso alcance, incluindo o futuro incerto. - Dante Alighieri em sua "Divina Comédia" narra o percurso de um homem perdido, cuja jornada é menos sobre alcançar o paraíso e mais sobre o aprendizado ao longo do caminho. Quantos de nós, como Dante, embarcam na vida esperando o júbilo de uma conclusão, apenas para descobrir que a plenitude se encontra nas curvas e bifurcações da estrada?
E o que dizer das empresas, essas entidades complexas que também trilham seus caminhos? - Em "A Epopeia do Empreendedor", José Pascoal Vaz sugere que as organizações que sobrevivem são aquelas que abraçam o dinamismo da jornada – mudando, inovando e, sim, enfrentando tempestades sem a promessa de um porto seguro. O sucesso empresarial não é a conquista de um grande mercado, mas o espírito inabalável de tentar sempre, mesmo nas falhas.
Uma organização que foca unicamente no lucro trimestral, negligenciando a inovação constante, o bem-estar de seus colaboradores e a qualidade de seus produtos ou serviços, corre o risco de alcançar seus objetivos financeiros, mas perder a vitalidade e a relevância a longo prazo. A verdadeira prosperidade reside na capacidade de se adaptar, de aprender com os erros, de construir uma cultura rica e engajadora – em suma, de apreciar a jornada tanto quanto (ou mais do que) o destino final.
Portanto, aprendamos com o sábio Comte-Sponville e o poeta Baudelaire. Que a nossa vida seja uma constante partida, um eterno descobrir, um apreciar de cada instante da caminhada. Afinal, como diria minha avó, que de filosofia não entendia nada, mas de vida sabia tudo: "A pressa é inimiga da perfeição... e da diversão!".




Comentários