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PARADOXOS, VENTOS E AERODINÂMICA

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

PARADOXOS, VENTOS E AERODINÂMICA.

Lições do Céu para a Terra

            Quando completei dezessete anos, recebi meu “brevê” e me tornei, oficialmente, um Piloto Privado. Aos olhos da lei terrestre, eu ainda era uma criança, não podia dirigir um carro, nem assinar contratos sem a assinatura de um responsável. Mas aos olhos do céu? Eu já podia comandar uma máquina de alumínio, ou de lona, e sonhos, desafiando a gravidade, carregando vidas e responsabilidades nas asas. Eis o primeiro paradoxo: a terra me limitava, mas o céu me libertava. E foi nesse paradoxo que a vida começou a me ensinar, não só sobre manetes e bússolas, mas sobre ventos, aerodinâmica e, sobretudo, sobre como navegar em tempestades invisíveis.

            Na aviação, vento não é inimigo. É aliado, quando compreendido. Decolar e pousar contra o vento não é mera convenção; é física pura, é aerodinâmica em ação. O vento frontal aumenta a velocidade relativa do ar sob as asas, gerando mais sustentação com menos esforço da máquina. É como remar contra a correnteza para ganhar impulso: parece contraintuitivo, mas é exatamente o que te ergue. O avião precisa de fluxo de ar, não de velocidade no chão, mas de velocidade no ar. Contra o vento, ele “sente” mais ar passando sob asas, mesmo que esteja se movendo lentamente sobre a pista. Isso permite decolagens mais curtas, pousos mais suaves, menos risco, mais controle.

            Por isso, os aeroportos são construídos com pistas alinhadas às direções predominantes dos ventos locais. Estuda-se o clima, as estações, as correntes atmosféricas, tudo para que, na maioria das vezes, o vento esteja a favor do voo. Mas aí reside outro paradoxo: por mais que planejemos, o vento é livre. Ele muda. Ele desobedece. E quando muda, traz consigo o maior perigo no pouso: o vento de través.

            Imagine: você está alinhado com a pista, descendo suavemente, quando de repente o vento decide soprar lateralmente. Seu avião é empurrado para o lado, como uma folha num redemoinho. Se você não agir, tocará o solo desalinhado, e uma roda pode dobrar, o trem de pouso pode ceder, o avião pode capotar, “pilonar”, na linguagem da aeronáutica. O que fazer? “Glissar”. Sim, a glissagem, técnica em que o piloto inclina levemente a aeronave contra o vento, usando o leme para manter o nariz alinhado à pista. É um equilíbrio delicado: o corpo inclinado, a alma reta. O avião desce em diagonal, mas o rumo permanece certo. É a arte de ceder sem se perder. De aceitar a força do vento, mas não se deixar dominar por ela.

            Lembrei-me de Nietzsche: “O que não me destrói, me fortalece.” Mas talvez fosse mais exato dizer: “O que não me destrói, me ensina a Glissar.” Porque na vida, os ventos de través são constantes.  - São os imprevistos que nos desviam do plano: uma demissão inesperada, uma traição, uma crise de saúde, uma pandemia global. São os julgamentos alheios que tentam nos empurrar para fora do eixo. São as pressões sociais, os ventos ideológicos, os furacões emocionais que insistem em nos fazer pousar tortos.

            No mundo dos negócios, por exemplo, quantas empresas planejam seu “aeroporto” com base nos ventos de ontem, e são surpreendidas pelos de hoje? A Blockbuster achava que o vento sopraria sempre do mesmo lado, e não “glissou” a tempo. Já a Netflix, mesmo tombando algumas vezes, aprendeu a inclinar-se sem perder o rumo. Peter Drucker já dizia: “O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência; é agir com a lógica de tempos calmos.” Glissar, portanto, é agir com outra lógica. É adaptar-se sem se corromper.

            Na vida pessoal, o vento de través é o filho que escolhe outro caminho, o amor que se desfaz, o luto que chega sem aviso. Carl Jung diria que esses ventos são sombras, e só enfrentando-as, inclinando-se a elas sem se deixar dominar, é que encontramos o equilíbrio. Glissar é chorar sem desistir. É duvidar sem paralisar. É reconhecer a força do vento, e usá-la para se manter no rumo.

            Na sociedade, os ventos ideológicos, políticos, culturais… Quantos insistem em pousar reto mesmo quando o vento os empurra? Resultado: capotam, quebram, arrastam consigo os passageiros. Um líder sábio não nega o vento, ele o lê, o sente, e “glissa”. Como Gandhi, que inclinou-se à pressão do Império sem perder o rumo da não violência. Ou como Mandela, que desceu inclinado pelo vento do ódio, mas manteve o leme firme na reconciliação.

            Portanto, navegante deste céu terrestre: não tema os ventos. Estude-os. Respeite-os. E quando vierem de través, porque virão, não tente lutar contra eles frontalmente. Não force o avião a pousar reto enquanto o vento o empurra. Incline-se. Use o leme da razão, da paciência, da sabedoria. Mantenha o rumo, mesmo que o corpo precise se curvar. Glissar não é fraqueza, é técnica de sobrevivência. É elegância na adversidade. É a arte de pousar inteiro, mesmo quando o mundo tenta te derrubar de lado.

            E lembre-se: o céu não exige que você voe sem vento. Exige que você aprenda a voar com ele.

            Decole contra o vento quando puder.  “Glisse” quando for preciso.  E nunca, jamais, pare de ajustar o leme.

            Porque o chão está sempre lá embaixo. Mas só pousa bem quem aprendeu a dançar com o vento.

 

 
 
 

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