PAIXÃO PARA REALIZAR
- Carlos A. Buckmann
- 2 de out. de 2025
- 3 min de leitura

PAIXÃO PARA REALIZAR
Fernando Pessoa, um dos maiores vultos da literatura portuguesa, permanece não apenas como um poeta, mas como um profundo pensador da condição humana. Nasceu em 1888, em Lisboa, e desde cedo imergiu nos meandros da alma e do pensamento. Sua obra é marcada pela inquietação existencial e pelo uso de heterônimos, cada qual com uma cosmovisão própria, o que revela sua faceta filosófica e irrequieta.
Gosto muito desse trecho de um de seus poemas que traz essa frase que nos convida à reflexão:
"É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criar."
Esse pensamento é, em si, uma síntese magistral do equilíbrio necessário entre a dureza dos fatos e a paixão da criação. Ser realista, não dizer pessoano, é desvelar o mundo tal como ele é destituído de ilusões.
Essa atitude crítica e meticulosa permite-nos considerar os problemas, limitações e necessidades que nos cercam, seja na vida pessoal, na complexidade social ou nas dinâmicas empresariais.
No entanto, conhecer a realidade não basta, pois é preciso, além da frieza analítica, o calor do sonho, da esperança e da paixão para que possamos transformá-la. O romântico, figura do idealista, rejeita o conformismo e impulsiona a inovação, a arte, a renovação dos paradigmas cria, subverte e inventa.
No cerne da existência individual, essa dualidade se manifesta no entrelaçamento de razão e emoção. Nossas necessidades são realidades que exigem soluções práticas; contudo, só a ardência romântica, a paixão pelo novo, a crença no possível, podem tornar viáveis tais transformações.
Na esfera social, essa dialética torna-se ainda mais evidente. A crítica social, alimentada pelo realismo, denuncia as injustiças. Já o impulso romântico mobiliza movimentos, utopias e revoluções que pretendem não apenas alterar a realidade, mas recriar um horizonte de sentido.
No mundo dos negócios, a razão realista se traduz em análise de mercado, dados e estratégias racionais, enquanto o espírito romântico é a centelha criativa que permite a inovação disruptiva, o empreendimento visionário.
Peter Drucker, o pai da administração moderna, afirma que o “empreendedor é alguém que vê o que é e imagina o que pode ser “, exatamente a particularidade do realista e do romântico.
Kant, também, em sua Crítica da Razão Pura, revela a necessidade de conjugarmos o rigor do conhecimento com a liberdade do pensamento para que o saber não se torne mero formalismo estéril.
Não raro, no entanto, presenciamos uma versão perigosa: um realismo frio que paralisa ou um romantismo desatento que cria ilusões vazias. É fundamental, pois, confiar que a verdadeira transformação nasce desse equilíbrio delicado. Afinal, como salienta Schopenhauer, “o mundo não é apenas vontade e representação; é também uma necessidade constante de reconciliar o sonho com o visível.”
Convido, pois, a não se contentar com o que é dado, mas a investir a lucidez com a paixão, a discernir o óbvio com a ousadia criadora.
Amargos são aqueles que se limitam a aceitar a realidade sem a coragem de reinventá-la. Patéticos são os que sonham sem os pés firmados na razão.
Assim, como cronista que observa e pensa em nosso tempo, conclamo: sejamos realistas para desvendar a realidade nua e crua, mas, sobretudo, sejamos românticos incansáveis, arquitetos fervorosos da vida que desejamos ver florescer, mesmo diante do caos.
Porque só um mundo criado a partir dessa natureza resiste, evolui e encanta.
BETO BUCKMANN
Crônicas entre ideias e pólvora




Comentários