OS PROTAGONISTAS DA PRÓPRIA CURA
- Carlos A. Buckmann
- 7 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

OS PROTAGONISTAS DA PRÓPRIA CURA
Tornei a ler, esta manhã, sob a luz tênue de uma primavera que insiste em ser poética, uma frase de Nietzsche: “A Vida como Meio de Conhecimento; com esse princípio no coração, pode-se não apenas viver valentemente, mas até viver e rir alegremente.”
Está em “A Gaia Ciência”, obra em que o filósofo alemão, entre dores físicas e desesperanças metafísicas, ousa celebrar a vida não apesar do sofrimento, mas por meio dele. Não como vítima, mas como artista; não como espectador passivo do próprio destino, mas como criador ativo de sentido.
E foi aí que me perguntei: será que ainda acreditamos que podemos ser protagonistas de nossa cura?
A psicologia contemporânea, em seus melhores momentos, flerta com essa ideia.
Carl Rogers já dizia que cada ser humano carrega em si uma tendência atualizante, uma força interna que busca crescimento, integração, autenticidade.
Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, fundou a logoterapia justamente sobre a convicção de que, mesmo nas piores circunstâncias, o ser humano é livre para escolher sua atitude, seu sentido.
Já a psiquiatria, mais voltada à estabilização dos sintomas, tem avançado, com figuras como Irvin Yalom, na compreensão de que o sofrimento mental não é apenas um desequilíbrio químico, mas muitas vezes um grito por significado, por pertencimento, por autorresponsabilidade existencial. A cura, nessa perspectiva, não é algo que nos é dado de fora, mas algo que brota quando assumimos a autoria de nossa história.
A filosofia moderna, por sua vez, nunca abandonou essa aposta no sujeito ativo.
Sartre afirmava, com veemência, que “o homem é aquilo que faz de si mesmo”. Não há essência prévia; somos condenados à liberdade, e, portanto, à responsabilidade.
Foucault, em seu tratado “A HERMENÊUTICA DO SUJEITO”, seus últimos escritos, retomou a antiga tradição grega da “epimeleia heautoû”, o “cuidado de si”, não como narcisismo, mas como prática ética e estética da existência.
Cuidar de si é transformar a própria vida em obra de arte, em pergunta contínua, em experimentação corajosa. E é justamente nesse ponto que a filosofia e a clínica se encontram: na ideia de que conhecer-se não é um luxo intelectual, mas um ato de coragem e de cura.
É aí que entra a psicofilosofia, essa ciência híbrida que não se contenta em observar a alma de longe, como quem observa um fenômeno alheio. Nos convida a mergulhar nela, com as mãos sujas de verdade, com os pés firmes na dor e na alegria. A psicofilosofia entende que amar a sabedoria da alma não é acumular conceitos, mas viver os questionamentos. Não é interpretar o sofrimento como falha, mas como linguagem. Não é esperar que alguém nos salve, mas assumir o risco, e a beleza, de nos tornarmos agentes de nossa própria transformação.
Numa sociedade que medicaliza a tristeza, que patologiza a dúvida e que vende curas prontas em pílulas ou em aplicativos, a psicofilosofia é um contraponto necessário.
Ela nos lembra que a cura não é a ausência de sombra, mas a coragem de caminhar com ela. Que o conhecimento não serve apenas para explicar o mundo, mas para nos reencontrar nele. Que a sabedoria da alma não está nos livros, mas nas escolhas que fazemos a cada manhã, nas perguntas que ousamos formular, nas feridas que permitimos curar, nos risos que ainda arriscamos soltar, mesmo quando tudo parece absurdo.
Não seja mero espectador da sua vida. Não delegue a outro, nem ao terapeuta, nem ao guru, nem ao algoritmo, o direito de interpretar seu sofrimento ou definir seu caminho.
Ame a sabedoria da alma como quem ama um rio: não para dominá-lo, mas para nele se banhar, navegar, às vezes até se perder, sabendo que, em cada curva, há uma chance de renascimento.
A vida como meio de conhecimento? - Sim.
Mas também como meio de cura.
Só seremos curados de verdade quando entendermos que a cura começa no instante em que decidimos ser seus protagonistas, com coragem, com riso, com a seriedade alegre de quem sabe que, mesmo ferido, ainda pode criar.




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