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ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS?

  • Carlos A. Buckmann
  • 12 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

ONDE FOI QUE NÓS ERRAMOS

            Estando enfarado de assistir o voto esdrúxulo, controverso e sem nexo do Ministro Fux, um labirinto jurídico onde a retórica se confunde com a retumbância, e o direito parece esquecido sob pilhas de formalismos, mudei o canal da televisão e parei no CANAL BRASIL, onde começava o documentário “Uma Noite em 67”.

            Era 1967. Eu, recém-formado, ainda com o diploma a caminho, sentia o peso do mundo nos ombros e a leveza da juventude nos sonhos. Naquele ano, enquanto eu calculava balanços, o Brasil calculava sua alma. O Festival de MPB da TV Record não era apenas um concurso musical: era um tribunal da sensibilidade, um palanque da resistência, um confessionário coletivo.

            O documentário, obra-prima de sentido e sensibilidade, revela os bastidores daquele momento histórico. Mostra Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Sérgio Ricardo (quebrando o violão no palco e jogando sobre a plateia), Nara Leão, entre outros, tecendo com as mãos e a voz o que a ditadura tentava costurar com medo: a consciência de um povo. As músicas classificadas? Cada uma, um manifesto. Cada verso, uma faca envolta em melodia.

            Gil e Caetano apresentaram “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria”. A primeira, uma letra que começa como crônica cotidiana e termina como tragédia grega. “João amava Teresa que amava Raimundo...”  eis aí, em poucas palavras, o triângulo amoroso que explode em violência. Mas não é só isso: é a metáfora da paixão cega, da possessividade, da morte que brota da ignorância. A letra é tão simples quanto profunda, tão popular quanto erudita. Como diria Roland Barthes, “o texto é um tecido de citações”, e ali, cada nota citava o povo, a rua, o coração.

            Chico Buarque trouxe “Roda Viva”, um hino à efemeridade da fama e à crueldade da multidão. “Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu...” e quantas vezes, hoje, nos sentimos assim? Mas naquele tempo, o público entendia a ironia, a dor, a denúncia velada. O povo aplaudia não só a melodia, mas o significado. Sabia que “roda viva” era também o ciclo da opressão, o carrossel da censura, a roda da fortuna girando contra os artistas.

            Edu Lobo e Capinam, com participação da belíssima Marilia Medaglia, apresentaram “Ponteio”, vencedora da noite. “Era um dia, era claro /Quase meioTinha um que jurou /Me quebrar, / Mas não lembro de dor/ Nem receio Só sabia das ondas do mar/Jogaram a viola no mundo/Mas fui lá no findo buscar” - “Quem me dera, agora, eu tivesse a viola prá cantar”; versos que falam de abrigo, de acolhimento, de esperança. Mas também de deslocamento, de exílio interior. A música, leve na forma, pesava no conteúdo. Era poesia cantada, filosofia popularizada.

            Naquela época, o povo lia jornal, discutia ideias, sabia quem era Sartre, quem era Brecht. Sabia que “a arte é arma”, como dizia Augusto Boal, e que a canção podia ser punhal ou bálsamo. As plateias não aplaudiam por impulso, mas por compreensão. Sabiam que por trás de cada acorde havia um grito abafado, uma esperança disfarçada, um projeto de mundo.

            Nós tínhamos certeza, sim, certeza, de que construíamos um futuro melhor. Mesmo sob censura, mesmo com amigos desaparecidos, mesmo com a tortura rondando as esquinas, tínhamos a convicção de que a beleza salvaria o mundo. Dostoiévski nos guiava. Drummond nos consolava. Caymmi nos embalava. E a juventude, aquela juventude de camisa listrada e cabelo crespo, acreditava que a música, a poesia, o pensamento crítico poderiam derrotar os tanques.

            Hoje aplaudimos bobagens. Celebramos a ignorância como se fosse autenticidade. Confundimos volume com verdade, likes com legitimidade, “trending topics” com pensamento. O povo, outrora culto, crítico, sensível, consome entretenimento raso como se fosse alimento. Esqueceu-se de que a canção pode ser revolução, que a palavra pode ser fogo, que o silêncio, às vezes, é cumplicidade.

            Perdemo-nos quando trocamos a profundidade pela velocidade. Quando preferimos o meme à metáfora. Quando deixamos que a banalidade ocupasse o lugar da beleza. Quando aceitamos que a cultura fosse mercadoria, e não consciência. Quando nos calamos diante da estupidez, achando que ela passaria, e ela, esperta, se instalou.

            Foi quando deixamos de ler. De ouvir com atenção. De questionar o óbvio. Foi quando achamos que a arte deveria apenas entreter, e não transformar. Foi quando permitimos que a escola virasse depósito, trocando o ensino da filosofia por “educação moral e cívica e OSPB”, a universidade virasse shopping, a política virasse teatro de horrores e a justiça, espetáculo circense.

            Foi quando, diante de um voto esdrúxulo e sem nexo, mudamos de canal, não para protestar, não para escrever, não para debater, mas para assistir a um documentário sobre um tempo em que as pessoas ainda acreditavam que a música e a cultura podiam mudar o mundo.

            Agora, só nos resta a pergunta. nua, crua, dolorida, ecoando entre as ruínas da nossa lucidez:

Onde foi que nós erramos?

Beto Buckmann

Crônicas entre ideias e pólvora

 

 
 
 

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