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O ÚLTIMO SUSPIRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 18 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

O ÚLTIMO SUSPIRO

            Enquanto folheava novamente “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky, em função da visita dele ao Brasil, e do seu discurso no Senado, deparei-me com uma das frases que destaquei com marcador de texto amarelo vivo, e trago aqui para essa crônica: “Os cidadãos muitas vezes demoram a compreender que sua democracia está sendo desmantelada mesmo que isso esteja acontecendo bem debaixo do seu nariz.”

            A frase me perseguiu. Não apenas por seu peso político, que é imenso, mas por seu eco silencioso em outros territórios. Porque, refletindo, percebi que essa mesma lentidão, esse mesmo adormecimento coletivo, não é privilégio das nações. Ela habita também os escritórios, os balcões de lojas, os galpões de pequenas indústrias. Habita as empresas que morrem não com estrondo, mas com um suspiro.

            Pensei em meu vizinho, dono de uma papelaria que existia desde os anos 1980. Há dez anos, ele ainda dizia: “O negócio está bom, graças a Deus.” Mas o faturamento caía ano a ano. Os jovens não iam mais lá. O mundo digital já havia passado como um trem em alta velocidade, e ele continuava olhando pela janela, achando que era só um vento forte. Não viu o desmantelamento. Não percebeu que o seu modelo, o seu “regime” de negócio, estava sendo corroído por forças que ele não queria nomear: inovação, mudança de hábito, concorrência invisível. E quando finalmente entendeu, já era tarde. A loja fechou com um aviso manuscrito na porta: “Vendemos tudo. Obrigado.”

            Um dos funcionários, que trabalhava ali desde jovem, me disse com os olhos baixos: “A gente via que estava mudando, mas não sabia como ajudar.” E uma cliente antiga, ao passar pela vitrine vazia, comentou comigo: “Era onde eu comprava os cadernos dos meus filhos. Agora, parece que uma parte da nossa história também fechou.” Essas vozes, quase sussurradas, revelam que o fim de uma empresa não é apenas econômico, é também afetivo.

            É isso, penso eu, que Levitsky quis dizer. A democracia não morre em um golpe súbito, com tanques nas ruas. Morre em pequenos atos: na normalização da corrupção, no enfraquecimento das instituições, na descrença nas urnas, no silêncio diante da mentira repetida como verdade. Assim também morre uma empresa: não por uma falência súbita, mas por uma série de omissões, por decisões adiadas, por orgulho disfarçado de prudência, por um dono que acredita que “sempre foi assim, então sempre será”.

            E é nas pequenas empresas que isso mais dói. Porque, ali, o poder é concentrado, absoluto, muitas vezes hereditário. O dono não tem conselho fiscal, nem acionistas questionando. Tem apenas a ilusão de controle. E, pior: muitas vezes, falta-lhe a cultura mínima para enxergar o mundo além do balcão. Não lê, não se informa, não ouve os funcionários, não escuta os clientes. Vive em um regime autoritário disfarçado de simplicidade. E, como todo tirano, acredita que sua queda é impossível, até que a porta fecha.

            Curiosamente, nem sempre o fim vem por inércia. Conheci uma startup que morreu por excesso de inovação, mudou tanto, tão rápido, que perdeu sua essência e seus clientes. Em contraste, há um restaurante familiar no centro da cidade que sobrevive há décadas. Adaptou o cardápio, investiu em redes sociais, ouviu os jovens e os antigos. Não resistiu ao tempo por teimosia, mas por escuta ativa. O desfecho, portanto, não é inevitável. Há quem veja o abismo e construa uma ponte.

            O que me assombra é que tanto na política quanto nos negócios, o colapso é sempre precedido por um período de normalidade aparente. As luzes ainda funcionam, os salários ainda são pagos, as urnas ainda são abertas. Mas por baixo, as estruturas apodrecem. A democracia se esvazia de sentido. A empresa perde relevância. E os que estão dentro, por conforto, por medo, por cegueira, fingem que nada mudou.

            Talvez o maior perigo não seja o tirano que chega com discurso inflamado, nem o concorrente que surge com tecnologia avançada. O maior perigo é a nossa própria incapacidade de ver o que está diante dos olhos. É a aceitação tranquila do declínio, como se fosse apenas uma fase. É o silêncio diante do desastre lento.

            Tanto as democracias quanto as empresas merecem mais do que gestores ou governantes. Merecem vigilância. Merecem coragem para mudar antes que seja tarde. Merecem líderes que enxerguem o futuro não como ameaça, mas como convite.

            Infelizmente, o que temos são muitos empresários e muitos governos que só percebem o abismo quando já estão caindo. E aí, o que resta não é luto. É apenas a lembrança de que tudo poderia ter sido diferente, se alguém, um dia, tivesse tido a coragem de olhar para baixo e dizer:

 “Está acontecendo aqui. Agora. E estamos deixando.”

 

 

 
 
 

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