O VÉU DA PRESUNÇÃO E A BUSCA INCESSANTE PELO SABER.
- Carlos A. Buckmann
- 16 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

O VÉU DA PRESUNÇÃO E A BUSCA INCESSANTE PELO SABER.
Nas brumas do Helesponto, em Hierápolis da Frígia, no alvorecer do século I de nossa era, nasceu Epicteto, figura ímpar do estoicismo tardio. Escravo liberto, sua vida, marcada pela resiliência ante a adversidade – narra-se que teve uma perna quebrada por seu senhor –, forjou uma filosofia robusta, centrada na distinção entre o que está sob nosso controle e o que não está. Seus ensinamentos, perpetuados por seu discípulo Arriano em suas “Diatribes” e no conciso “Encheiridion” (palavra de origem grega que pode ser traduzida como: "Manual", "guia prático" ou "livrinho de instruções), ecoam através dos séculos, oferecendo um farol de sabedoria prática para a condução da existência. Dentre suas lapidares sentenças, uma ressoa com particular veemência em meus cogitos: “É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.”
Esta assertiva “epictetiana” desvela um dos maiores óbices ao progresso intelectual e pessoal: a petrificação da mente sob o jugo da presunção. Quão amiúde nos deparamos com indivíduos que, imbuídos de uma autossuficiência cognitiva patológica, erigem muralhas intransponíveis ao influxo de novas ideias e perspectivas! Enclausurados na fortaleza de suas convicções, julgam-se possuidores de um cabedal de conhecimento exaustivo e inquestionável. Para estes, a dúvida não é um motor para a investigação, mas uma afronta à sua suposta sapiência. O diálogo torna-se um monólogo disfarçado, onde a escuta cede lugar à obstinada reafirmação de seus próprios postulados.
A humildade, por conseguinte, erige-se como a pedra angular do aprendizado genuíno. Reconhecer a vastidão de nossa ignorância é o primeiro passo para transpor os umbrais do saber. Como Sócrates, mestre insigne da filosofia ocidental, proclamava: “Sei que nada sei”. Esta confissão de modéstia intelectual não era um ato de falsa humildade, mas sim a constatação lúcida da infinidade do desconhecido que nos cerca. Montaigne, séculos depois, em seus “Ensaios”, ecoava essa percepção ao discorrer sobre a falibilidade do juízo humano e a importância da autocrítica. “Sócrates sabia que sabia o que não sabia; e eu sei que não sei o que sei”, sentenciava o pensador francês, sublinhando a complexidade da própria consciência da ignorância, e Bertrand Russell, que alertava para os perigos da falsa certeza, são arautos dessa filosofia. A sabedoria verdadeira repousa na capacidade de reconhecer os próprios limites e de aceitar que o aprendizado é um processo sem fim.
A história está repleta de exemplos de indivíduos que, embriagados pela soberba intelectual, colheram os frutos amargos de sua arrogância. A arrogância do saber absoluto já condenou muitos ao fracasso. Pensemos em figuras como Napoleão Bonaparte, que, certo de sua invencibilidade, subestimou a vastidão da Rússia e viu seu império desmoronar na nevasca implacável de 1812. Pensemos em figuras políticas que, cegas por sua própria infalibilidade, conduziram nações ao desastre. Ou em cientistas que, obcecados por suas teorias preestabelecidas, negligenciaram evidências contrárias, retardando o avanço do conhecimento. A tragédia reside precisamente na incapacidade de reconhecer a própria falibilidade, de abrir-se à possibilidade de estar equivocado.
Em contraponto, a busca incessante pelo aprendizado, o “Lifelong learning”, configura-se como um imperativo categórico na contemporaneidade. O ritmo vertiginoso das inovações tecnológicas, que permeiam cada aspecto da existência humana – da esfera pessoal à dinâmica social e ao intrincado mundo dos negócios –, exige uma adaptabilidade e uma sede de conhecimento jamais vistas. Aquele que se apega dogmaticamente a um corpo fixo de saberes corre o sério risco de obsolescência intelectual, de tornar-se um anacronismo em um mundo em constante mutação.
Mas o que temos hoje são versões contemporâneas de Ícaros, embriagados com a cera de suas certezas frágeis, voando cada vez mais alto no firmamento digital — até que, inevitavelmente, derretem-se ao calor dos fatos. Um caso curioso que me vem à memória é o do executivo da Blockbuster que, nos primórdios da Netflix, gargalhou da proposta de parceria com a jovem empresa. Achava que o mercado já lhe pertencia, que nada havia a aprender com aqueles “iniciantes”. Sabemos como terminou essa história: um monólito do entretenimento desmoronado pela própria arrogância.
Na vida pessoal, a capacidade de aprender continuamente nutre a resiliência, a criatividade e a capacidade de navegar pelas incertezas do futuro. Na sociedade, fomenta o pensamento crítico, a inovação e a construção de um futuro mais próspero e equitativo. No âmbito empresarial, a adaptabilidade e a aquisição constante de novas competências são cruciais para a sobrevivência e o sucesso em um mercado globalizado e cada vez mais competitivo. Aquele que se fecha ao aprendizado assemelha-se a um navegador que, em meio a uma tempestade, insiste em consultar um mapa desatualizado.
Portanto, parafraseando um certo dramaturgo inglês com um toque de humor: aquele que pensa que já sabe tudo, provavelmente descobrirá, da pior maneira possível, que a vida tem um currículo muito mais extenso e um senso de ironia bastante apurado.




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