O VILÃO DOS 1440 MINUTOS
- Carlos A. Buckmann
- 24 de set. de 2025
- 3 min de leitura

O VILÃO DOS 1440 MINUTOS
Todos os dias, ao abrir os olhos, ou mesmo antes, na penumbra do quase-acordar, o ser humano é assaltado por uma pergunta muda, quase metafísica: “O que devo fazer hoje?” Não se trata de um simples checklist, mas de uma arquitetura existencial. Saber o que fazer é erguer um farol no nevoeiro do tempo. É desenhar, com carvão e certeza, os contornos do necessário. E, nesse desenho, concentração não é virtude, é sobrevivência. Para não esquecer, escrevo. Para não me perder, repito. Para não sucumbir à dispersão, cronometro. O tempo não espera. Ele avança como um rio silencioso, arrastando consigo as boas intenções dos desatentos.
Mas eis que surge, sorrateiro e sedutor, o GRANDE VILÃO: o que não precisa ser feito.
Ele não chega com capa nem gargalhada maligna. Veste-se de urgência falsa, de “só cinco minutinhos”, de “isso aqui é importante também”. É o e-mail que poderia esperar, a reunião que repete o que já foi dito, o aplicativo que notifica sem propósito, a tarefa que alimenta o ego, mas não a alma. Ele é o ladrão de minutos disfarçado de produtividade. O parasita do propósito. Enquanto você se ocupa com o supérfluo, o essencial definha, murcha, some; e você, inocente ou cúmplice, acha que está sendo útil.
Steve Jobs, o arquiteto do minimalismo digital, nos alertou com precisão cirúrgica:
“Decidir o que não fazer é tão importante quanto decidir o que fazer.”
Eis aí, em poucas palavras, a chave da liberdade temporal. Não basta planejar o que entrará no seu dia, é preciso, com coragem quase ascética, expulsar o que não merece nele estar. É dizer “não” com a serenidade de quem sabe que tempo perdido não se recupera. É escolher, como diria o filósofo Kierkegaard, “com paixão e precisão”.
Pense: todos os dias, sem exceção, temos 1440 minutos. Nem um a mais, nem um a menos. Desconte oito horas de sono (480 minutos), uma hora de almoço (60), duas horas de reuniões, das quais, segundo Peter Drucker, 30% são inúteis (120 minutos). Some as pausas, os deslocamentos, os imprevistos. Restam, talvez, 600 minutos úteis. Seiscentos. Não é muito. É o bastante, se forem bem guardados.
Mas o vilão não dorme. Ele se infiltra nas brechas da nossa disciplina. Ele se alimenta da nossa incapacidade de dizer não, da nossa ansiedade por parecer ocupados, da nossa confusão entre movimento e progresso. Carl Jung diria que ele é a sombra da produtividade, aquilo que negamos em nós mesmos, mas que nos domina quando não o reconhecemos.
E então, o que fazer?
Primeiro: escreva o que é essencial. Só isso. Depois, risque tudo o que não leva a ele. Terceiro: proteja seu tempo como se protegesse seu último suspiro. Porque, em essência, é isso que você está fazendo.
Chegará um dia, e isso não é pessimismo, é realismo existencial, em que os 1440 minutos não estarão mais à sua disposição. O relógio biológico não negocia. O tempo, como bem disse Heidegger, é o horizonte da nossa finitude. Cada minuto desperdiçado com o supérfluo é um minuto roubado daquilo que realmente importa: o legado, a presença, o amor, a criação, o silêncio que cura.
Portanto, hoje, sim, hoje, decida com coragem o que não fará. Liberte-se do peso do desnecessário. Não para ser mais produtivo, mas para ser mais humano. Mais presente. Mais verdadeiro.
Porque quando o último minuto chegar, e ele chegará, você não se arrependerá das reuniões que pulou, dos e-mails não respondidos, das tarefas secundárias ignoradas.
Você se lembrará do que fez e, mais ainda, do que ousou não fazer — para viver, de fato, o que era essencial.
E isso, é o único tempo que realmente importa.




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