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O VIGIA DA PALAVRA E O INCÊNDIO DA IGNORÂNCIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

O VIGIA DA PALAVRA E O INCÊNDIO DA IGNORÂNCIA

            Sempre acreditei que os escritores fossem os verdadeiros arquitetos da consciência coletiva. Desde os épicos sumérios até os modernos romances digitais, cada palavra escrita pavimentou o caminho das sociedades, moldou o pensamento das gerações e soprou as brasas do questionamento humano. Não há tirano que não tema a pena mais do que a espada, pois enquanto aço destrói corpos, palavras transformam almas.

            Os escritores, independentemente de sua fama ou número de publicações, desempenham um papel fundamental na construção dos valores humanos. Eles registram a história, revelam verdades, criam mundos e interrogam a realidade. Foram seus textos que deflagraram revoluções, que libertaram mentes e que iluminaram caminhos antes ocultos pela penumbra da ignorância.

            Amin Maalouf, escritor libanês radicado na França, entende esse papel como poucos. Nascido em 1949, Maalouf dedicou sua obra à análise das identidades, da história e dos conflitos culturais. Em seus livros, como Leon, o Africano, O Naufrágio das Civilizações, As Cruzadas Vistas Pelos Árabes e Identidades Assassinadas, ele disseca a complexidade do mundo moderno, buscando pontes entre as civilizações. Mas é em sua célebre frase que reside uma das mais urgentes missões do ofício literário:

            "O escritor é um vigia; quando a casa está pegando fogo, sua missão não é a de deixar os moradores dormirem e desejar-lhes bons sonhos: é o de acordá-los."

            Essa sentença transcende a mera metáfora. Ela nos lembra que escrever não é um ato de conforto, mas de inquietação. O escritor não deve acalentar ilusões, mas lançar faíscas sobre realidades adormecidas. Não se trata apenas de entreter, mas de alertar; não de agradar, mas de provocar. Se o mundo mergulha na cegueira, a palavra escrita deve ser o clarão que desperta os distraídos e denuncia as sombras.

            A literatura tem o poder de transformar sociedades porque desperta a consciência, promove o debate e desafia estruturas estabelecidas. Desde os tempos antigos, textos literários serviram como espelhos e faróis para a humanidade. Através de romances, poesias, ensaios e manifestos, escritores abordam injustiças, questionam normas e inspiram novas formas de pensar e agir.                        

            Obras como Os Miseráveis, de Victor Hugo, ou Vidas Secas, de Graciliano Ramos, expõem desigualdades e problemas sociais, provocando reflexões e mobilizações. A literatura permite que leitores vivenciem experiências que não são suas, criando empatia por realidades distintas. O Diário de Anne Frank, por exemplo, foi fundamental para sensibilizar gerações sobre os horrores do Holocausto. Movimentos como o Iluminismo se fortaleceram por meio de textos filosóficos e literários, influenciando revoluções e reformas políticas. Em períodos de censura e repressão, a literatura frequentemente se torna um refúgio e um símbolo de resistência. Escritores como Soljenitsyn na União Soviética ou Clarice Lispector no Brasil desafiaram restrições impostas e ajudaram a manter vivas ideias e valores.

            Algumas obras marcaram épocas e inspiraram mudanças significativas: - “Os Miseráveis”, de Victor Hugo – Publicado em 1862, este romance expôs as desigualdades sociais na França do século XIX e ajudou a sensibilizar a opinião pública sobre a necessidade de reformas sociais. “1984”, de George Orwell – Uma distopia que alertou sobre os perigos do totalitarismo e da vigilância em massa, influenciando debates políticos e movimentos em defesa da liberdade de expressão. – “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe – Este livro teve um impacto profundo na luta contra a escravidão nos Estados Unidos, ajudando a fortalecer o movimento abolicionista no século XIX. “O Diário de Anne Frank” - Um relato pessoal sobre os horrores do Holocausto, que ajudou a conscientizar gerações sobre os perigos do preconceito e da intolerância. “Mulheres, Raça e Classe”, de Ângela Davis – Uma obra fundamental para os movimentos feminista e antirracista, abordando interseccionalidade e justiça social.

            Essas obras não apenas registraram momentos históricos, mas também influenciaram mudanças sociais ao provocar reflexões e mobilizar ações.

                A literatura dá voz ao oculto, influenciando e registrando a história. É como uma tocha que ilumina os caminhos da transformação social. Afinal, quem lê não apenas adquire conhecimento, mas, muitas vezes, ganha coragem para mudar o “STATUS QUO”.

            Penso, então, que escrever é um ato de rebeldia lúcida. É o esforço contínuo de registrar o efêmero, de tecer sentido no caos, de resistir à erosão do tempo com a tinta da consciência. Seja na ficção ou no ensaio, na poesia ou no manifesto, o papel do escritor é, como bem disse Maalouf, soar o alarme antes que seja tarde demais.

            E por falar em alarme, espero que esta crônica tenha servido ao seu propósito… porque, se não, talvez seja hora de instalar um detector de fumaça literário.

 
 
 

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