O VENENO DO FANATISMO
- Carlos A. Buckmann
- 22 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

O VENENO DO FANATISMO.
Por Beto Buckmann
Nos noticiários, já não é preciso perguntar se há guerra, mas onde ela está mais sangrenta hoje. Israel e Palestina, um conflito onde crianças aprendem antes a se esconder de bombas do que a escrever o próprio nome. Israel e Irã, dois mastodontes teocráticos e geopolíticos brincando com mísseis como se fossem peças de xadrez. Rússia e Ucrânia, o império nostálgico esmagando um povo que decidiu existir com liberdade. Diante desses horrores, a pergunta que ecoa não é mais “quem tem razão?”, mas sim: “onde foi parar a razão?”
É nesse cenário aterrorizante, apocalíptico, que relembro uma frase do filósofo francês André Comte-Sponville, extraída de seu livro “O Espírito do Ateísmo”, de um texto iluminado, que nos sacode como um tapa filosófico: “Não é a fé que leva aos massacres. É o fanatismo, seja ele religioso ou político. É a intolerância. É o ódio.”
Comte-Sponville é um pensador que soube caminhar pelas avenidas do espírito com os pés firmemente plantados no solo da razão. Ateu convicto, mas jamais um niilista vulgar. Filósofo materialista, mas com uma alma, sim, uma alma, devotada à ética, à ternura e à sabedoria dos antigos. Em O Espírito do Ateísmo, ele não combate a fé com pedras, mas com argumentos. E, mais importante: não confunde espiritualidade com superstição, nem fé com cegueira.
O que ele nos alerta com essa frase é algo de assustadora atualidade: o problema nunca foi a crença em Deus, é a crença doentia em qualquer coisa que se imponha como absoluta. O fanático não escuta. O fanático não duvida. O fanático já decidiu que você está errado antes mesmo de você abrir a boca.
E não pensemos que isso é exclusivo dos palcos internacionais. Esse veneno escorre também em nossas conversas de bar, nas redes sociais, nas salas de reunião. Nos negócios, por exemplo, o fanatismo aparece disfarçado de “verdade corporativa”, de “visão irrefutável do mercado”. Quantas vezes já vimos empresas ruírem por falta de escuta, por imposição de modelos autoritários, por intolerância a novas ideias?
Individualmente, também somos tentados pelo autoritarismo interior. Quando cortamos uma amizade por discordância política, quando deslegitimamos a dor do outro por ela não se parecer com a nossa, quando esquecemos que o outro é outro e, por isso mesmo, necessário.
Sponville não está só. Hannah Arendt já nos advertia sobre a banalidade do mal: ele não vem de monstros, mas de burocratas obedientes e de cidadãos que preferem repetir a pensar. Baruch Spinoza, outro espírito luminoso, dizia que “o ódio pode ser vencido apenas pelo amor, não pelo contra-ódio”. E Bertrand Russell, com sua ironia elegante, escreveu que “o problema do mundo é que os estúpidos são excessivamente confiantes, e os inteligentes são cheios de dúvidas”.
Todos eles, à sua maneira, convergem para a mesma advertência: o perigo está no excesso, na cegueira ideológica, na arrogância moral. Fé, ciência, política ou mercado, tudo isso pode ser virtuoso, desde que temperado pela humildade.
O antídoto? Talvez seja aquilo que o próprio Comte-Sponville chama de “espiritualidade sem Deus”: cultivar a interioridade, a compaixão, a lucidez, não por mandamento divino, mas por escolha humana.
Afinal, ser humano talvez seja justamente isso: saber que não sabemos tudo, e ainda assim decidir amar, escutar, respeitar.
E se nada disso funcionar, sugiro um último recurso de sabedoria prática: antes de explodir com alguém, tome um café e, se ainda estiver com raiva, tome outro. Se continuar, o problema não era a pessoa: era a marca do café. Ou não.




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