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O TRIGO, O FERRO E O PONTO DE INTERROGAÇÃO.

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

O TRIGO, O FERRO E O PONTO DE INTERROGAÇÃO.

            Não raro me pego devaneando, como um cronista errante, atravessando as eras com os pés descalços do pensamento. Imagino-me, por capricho da imaginação, caminhando ao lado de um “australopitecus”, aquela criatura ainda titubeante entre o animal e o homem, à sombra de uma savana pré-histórica. Ele não fala, mas me olha,  ou talvez apenas me tolera,  enquanto esfrega duas pedras como quem tenta extrair o segredo do fogo ou o sentido da existência. Mal sabe ele que suas mãos, rústicas e hábeis, empurrariam o tempo adiante até parirem o Homo sapiens, esse que, convencido de sua sabedoria, inventaria a história e, nela, a tragédia da civilização.

            Foi numa tarde imaginária dessas, entre uma fogueira mental e uma dúvida ontológica, que me dei conta do quanto Rousseau tinha razão, ou ao menos uma razão possível, dessas que não se dissolvem mesmo sob o crivo dos séculos. Lá pelas tantas do seu "Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens", ele arremessa uma frase que ainda soa como um trovão nos salões da filosofia:

                        “Foram o ferro e o trigo que civilizaram os homens e puseram a perder o gênero humano.”

           

            Forte, não? Quase uma maldição disfarçada de insight.

            O trigo, esse símbolo da fartura, foi também a semente da posse. Antes dele, o ser humano comia o que a terra dava e caminhava para onde o instinto soprava. Depois dele, começou a cercar o mundo com arame e a cercar os outros com a lógica da propriedade. Surgiram o campo e o celeiro, mas também o vizinho invejoso, o ladrão de grãos, o guarda, o rei. a soldadesca impensante, o comerciante avaro e, por fim, o contador.E o ferro, bem… o ferro foi a extensão da força. Com ele, talhamos a lâmina e o arado. Aramos a terra, mas também dividimos o corpo do próximo. O ferro trouxe a espada e, com ela, a linha tênue entre a civilização e a carnificina.

            Se a natureza nos fazia irmãos sob o céu comum, a agricultura e a metalurgia nos tornaram adversários em territórios delimitados. A civilização nasceu, sim, mas nasceu como nasce um império: com sangue, suor e impostos.

            Avanço no tempo, com meu olhar crônico e meu corpo filosófico, até chegar aos dias de hoje, onde o ferro se transmutou em silício e o trigo em algoritmo. Na vitrine reluzente do mundo dos negócios, vendemos sonhos com código de barras e “querricodes” e prometemos liberdade, presos em uma assinatura mensal.

            Os CEOs de hoje são os faraós de ontem, sustentados por pirâmides corporativas, enquanto os servos da modernidade operam call centers e, aplicativos de entrega. A desigualdade persiste, mais polida, mais vestida, mas ainda igualmente brutal.

            Yuval Harari, por exemplo, em "Sapiens", é quase um Rousseau contemporâneo: traça uma linha entre a revolução agrícola e o surgimento das hierarquias, dos impérios e da infelicidade moderna. Segundo ele, a colheita do trigo foi também a semeadura da servidão.            Do outro lado, Steven Pinker, em "Os Anjos Bons da Nossa Natureza", defende que a civilização, com todo seu aparato técnico e moral,  nos tornou menos violentos, mais justos, mais humanos, ainda que à custa de uma liberdade primitiva que talvez nunca tenhamos compreendido.

            E eu? Eu sou apenas um cronista, perdido entre o machado de pedra e o cartão de crédito, observando o desfile de ideias com o olhar de quem já viu demais para crer cegamente, mas não o suficiente para desistir de pensar.

            Talvez Rousseau não estivesse maldizendo o progresso, mas sim alertando para o seu preço oculto. Não se trata de negar a civilização, mas de reavaliar o que entendemos por "progresso". E, quem sabe, de recuperar um pouco da pureza que o trigo domesticado nos roubou.

            Ao fim e ao cabo, suspeito que o gênero humano não foi tanto “posto a perder”, mas embarcou de bom grado na perda, com uma mão no arado e outra no punhal, e um olho sempre na cerca do vizinho.

Mas quer saber? Se é o trigo que nos ferra e o ferro que nos tritura, ainda prefiro a filosofia que, ao menos, nos confunde com elegância.

 

 
 
 

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