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O TIJOLO FINAL

  • Carlos A. Buckmann
  • 20 de jun.
  • 6 min de leitura

O TIJOLO FINAL (*)

(Da série A FILOSOFIA NA MPB)

            Esta é a última crônica desta série que, agora, se transforma em livro.

            Ao longo destas páginas, percorremos as veredas abertas por Paulo Cesar Pinheiro até chegar a Chico Buarque. E cada canção se revelou um tratado filosófico disfarçado de melodia.

            A MPB é uma fonte inesgotável de pensamento: suas letras carregam ontologias, éticas, críticas sociais e poéticas do existir que muitos manuais de filosofia ignoram.

            Mas, como ensina a própria arte de construir, todo livro precisa de um projeto, de um alicerce, de um último tijolo. Não teríamos como terminá-lo se não déssemos a ele uma forma, um contorno, um fim.

            E é com “Construção”, de Chico Buarque, que encerramos esta edificação, porque, ironicamente, esta canção fala do homem que constrói sem nunca ver a obra pronta, do operário que morre no meio do caminho, e do cronista que, ao escrever, também se ergue e se desmorona no mesmo gesto.

            O que significa construir quando a própria vida é uma construção provisória, feita de tijolos que podem desabar a qualquer instante? “Construção” é uma das canções mais brutais e belas da música brasileira, uma peça de precisão cirúrgica onde a repetição das frases, com pequenas variações, nos mostra que a rotina é um abismo disfarçado de normalidade.

            “Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última / E cada filho seu como se fosse o único”

            Começa pelo amor, mas um amor condicionado pelo "como se fosse". O operário não ama plenamente; ele ama como se fosse a última vez, porque talvez seja. A repetição da condicional revela a precariedade do afeto sob o jugo da necessidade.

            O filósofo Martin Heidegger diria que a autenticidade do “Dasein” (o ser-aí – a presença) só se revela diante da morte e aqui, o operário já vive cada gesto como se fosse o derradeiro, mas não por escolha existencial; por instinto de sobrevivência. O amor é urgente porque o tempo é escasso, e a fábrica, a obra, a construção não esperam.

            “E atravessou a rua com seu passo tímido / Subiu a construção como se fosse máquina / Ergueu no patamar quatro paredes sólidas”

            A travessia da rua é um ato banal, mas o passo tímido denuncia quem não se sente dono do espaço público, é um corpo que pede licença para existir. Depois, a metamorfose: o homem vira máquina.

            Karl Marx, nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, descreveu a alienação do trabalho como o processo em que o trabalhador se torna um apêndice da coisa que produz. Erguer paredes sólidas é o paradoxo máximo: ele constrói o que é estável, mas sua própria vida é flácida, insegura. As paredes são sólidas; ele, não.

            “Tijolo com tijolo num desenho mágico / Seus olhos embotados de cimento e lágrima”

            O desenho mágico, a beleza da arquitetura, o sonho do engenheiro, a promessa de um lar. Mas os olhos do trabalhador não veem a magia; veem cimento, pó, e lágrima. A magia é do projeto; a lágrima é do executor.

            Theodor Adorno, em sua crítica à indústria cultural, mostraria como a promessa estética da construção (o "desenho mágico") mascara a exploração material que a viabiliza. O operário é o olho que vê a beleza sem poder desfrutá-la, como Tântalo, rei da Frígia e filho de Zeus, que, no castigo mitológico, tem a água no queixo mas não pode beber.

            “Sentou pra descansar como se fosse sábado / Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”

            O sábado, dia de descanso, é aqui uma aspiração, não uma realidade. Ele senta como se fosse sábado, mas é um dia qualquer, porque para o operário todos os dias são iguais. O feijão com arroz, alimento da sobrevivência, é comido como se fosse um príncipe, a dignidade do gesto transforma a comida pobre em banquete. O operário não precisa de distinção para se sentir príncipe; ele precisa de fome. E a fome, quando saciada, é a maior das nobrezas.

            “Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago / Dançou e gargalhou como se ouvisse música”

            O soluço do náufrago, aquele que engoliu água salgada e luta para não se afogar. O álcool não é vício, é anestesia. E a dança, o gargalho, só acontecem "como se" ouvisse música, como se a vida tivesse trilha sonora, mas ela não tem. O operário dança, mas é uma dança sem música, um movimento mecânico que tenta imitar a alegria que não sente. A vida autêntica, para Nietzsche, seria a que dança apesar do caos; mas este homem dança porque o caos o obriga a se movimentar.

            “E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido”

            A tragédia: O céu, que deveria ser o lugar da transcendência, é onde ele tropeça, porque o céu, para os de baixo, é apenas um andaime mal montado. Ele flutua como um pássaro, mas não é voo; é queda. E o chão o recebe não como herói, mas como "pacote flácido", objeto descartado, coisa sem forma. Ele se despedaça no meio do passeio público, e sua morte é um inconveniente para o tráfego.

            “Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

            Morrer na contramão é um último ato de desobediência involuntária. O tráfego, símbolo da ordem urbana, do fluxo produtivo, é interrompido pelo corpo inerte. Este homem, morto na contramão, é essa vida nua: sua morte não tem significado político, não é luto, é burocracia. Ele atrapalha o tráfego e isso é o único registro de sua passagem.

            “Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”

            A ironia máxima. "Deus lhe pague" é a gratidão forçada de quem recebe migalhas. A certidão para nascer, a concessão para sorrir, tudo é autorizado, tudo é permissão. Thomas Hobbes, em “Leviatã”, descreveu o contrato social como a troca da liberdade pela segurança. Mas aqui não há contrato; há uma dívida impagável. A vida é uma concessão, e o trabalhador agradece por ela, mesmo quando ela o mata. O Estado dá a vida, e o cidadão paga com a morte.

            “Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir / Pela fumaça, desgraça que a gente tem que tossir / Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair / Deus lhe pague”

            A cachaça, a fumaça, a queda, o pacote completo da miséria.

            A cachaça é "de graça", mas só porque o salário não dá para mais. A fumaça é desgraça, poluição, opressão, doença. Os andaimes pingentes são a precariedade do trabalho, que promete altura mas entrega queda. Tudo isso é agradecido, porque a alternativa é pior.

            “Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir / E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir / E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir / Deus lhe pague”

            A mulher carpideira, a amante, a esposa, que ama e que chora a sua morte. As moscas bicheiras, a decomposição que não espera o caixão. E a paz derradeira, a única paz possível: a morte.

            Para este homem, a vida é um pêndulo entre a dor e a morte, e a morte é a única redenção. O "Deus lhe pague" final não é uma oração, é um protesto.

            Esta série de textos, que agora se encerra, foi uma construção, tijolo com tijolo, palavra com palavra. Eu, cronista, como o operário, ergui paredes sólidas de pensamento, flutuei no ar das metáforas, e agora tropeço no céu da conclusão.

            Diferentemente do herói anônimo de Chico, eu tenho a vantagem de saber que esta é a última pá de cal. Posso escolher o fim. Posso sentar, como se fosse sábado, e olhar para a obra pronta. Ela não é mágica, nem lógica, nem flácida, é apenas humana, demasiado humana.

            Ao finalizá-la, percebo que a filosofia não está nas respostas, mas nas perguntas que a música nos obriga a fazer. O operário de “Construção” não leu Marx, nem Heidegger, nem Camus. Mas sua vida é a prova de que a filosofia é, antes de tudo, a experiência de quem constrói o mundo sem nunca possuí-lo.

            Este livro, é minha modesta parede. Caiu? Talvez. Mas enquanto esteve de pé, abrigou pensamentos.

            E isso, para o cronista que vos escreve, é o bastante.

            Despeço-me, não como quem morre, mas como quem termina uma jornada.

            Deus lhe pague, leitor.

            E que o amanhã seja, apesar de tudo, uma construção possível.

(*) Assista o clipe no YouTube:

 
 
 

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