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O TESOURO NO ESPELHO

  • Carlos A. Buckmann
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

O TESOURO NO ESPELHO   

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)) 

            O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia um palco à espera de atores. As mesas de madeira escura refletiam a luz amarelada dos candeeiros a gás, uma afetação deliberada do proprietário, que achava que lâmpadas elétricas não faziam justiça às conversas que ali aconteciam. As cadeiras, de veludo verde desbotado, rangiam levemente quando os clientes se acomodavam, como se protestassem contra o peso das ideias.

            Pelas janelas de vidro fosco, via-se a névoa que envolvia os candeeiros da rua, transformando a cidade num cenário de conto de fadas para adultos.

            Os frequentadores habituais pareciam mais elegantes naquela noite. O velho anarquista vestira um colete; a jovem poetisa pousara um cravo vermelho na lapela; o casal que discutia felicidade agora debatia, em voz baixa, se a beleza é uma promessa ou uma ameaça. Na vitrola, um disco de Chopin, as noturnas, com os seus silêncios carregados de significado. Era a música perfeita para um encontro entre dois homens que fizeram da palavra a sua vida e da vida a sua obra-prima.

            A porta abriu-se e entrou Robert Louis Stevenson. Reconheci-o pelo ar de marinheiro em terra firme, a barba descuidada, os olhos que pareciam procurar horizontes distantes, o corpo franzino que a tuberculose castigara, mas não vencera. Trazia um chapéu de palha na mão e um sorriso de quem sabe que cada dia é uma ilha. Sentou-se à mesa junto à estante de viagens e pediu um uísque. "Escocês, se faz favor", disse, com um brilho de cumplicidade.

            Minutos depois, a campainha soou novamente. Era Oscar Wilde. Impossível não reconhecer a figura: a capa de veludo, o lenço de seda ao pescoço, a bengala com castão de marfim, o olhar lânguido que parecia avaliar o mundo e achá-lo ligeiramente vulgar. Parou à entrada, observou o café com um ar de quem entra num palco, e dirigiu-se à mesa, precisamente a de Stevenson.

            “Posso?” perguntou, com uma voz que modulava cada sílaba como quem oferece uma joia.

            “Por favor”, respondeu Stevenson, levantando ligeiramente o copo. “Um homem sozinho é apenas metade de uma conversa.”

            Wilde sentou-se, colocou a bengala sobre a mesa e pediu um absinto. "Verde como a esperança e amargo como a experiência", explicou, com um sorriso que não pedia desculpa por nada.

            O noturno de Chopin deu lugar a uma valsa vienense, mais ligeira, como se a música também quisesse dançar com eles.

            “Robert Louis Stevenson” disse Wilde, provando o absinto com a cerimônia de quem celebra um ritual. “O homem que transformou a Escócia em literatura e os mares do sul em lenda. ‘A Ilha do Tesouro’ foi o meu primeiro amor literário, sabia? Li-o aos doze anos, escondido debaixo dos lençóis, com um candeeiro a óleo a fumegar ao lado. A minha mãe teria preferido que lesse os salmos, mas eu preferia piratas.

            “E fez bem, riu Stevenson. Os salmos ensinam a temer Deus; os piratas ensinam a temer os homens, que é muito mais útil. Mas o senhor, Wilde, não precisava de piratas. Tinha os seus próprios tesouros. ‘O Retrato de Dorian Gray’...”

            “Ah, Dorian, Wilde suspirou, como quem fala de um amigo querido e problemático. O meu pobre rapaz que vendeu a alma para conservar a beleza. A crítica não perdoou, claro. Disseram que o livro era imoral, que corrompia a juventude, que devia ser queimado. Eu respondi que, se um livro é imoral, é porque o leitor o é também. O livro é apenas um espelho; se um macaco se olha nele, não pode esperar ver um apóstolo.”

            Stevenson bebericou o uísque, pensativo.

            “Conheço essa música. Quando publiquei ‘O Médico e o Monstro’, disseram que era uma história de terror barata. Não entenderam que o verdadeiro terror é o que habita dentro de nós. Jekyll e Hyde são a mesma pessoa, Wilde. O bem e o mal não são inimigos, são irmãos siameses.”

            “Irmãos siameses, repetiu Wilde, saboreando a imagem. Gosto disso. É mais elegante do que a minha dualidade. Dorian tem o retrato que envelhece enquanto ele permanece jovem. O senhor tem Jekyll que se transforma em Hyde. Eu tenho o rosto que mostro e a alma que escondo. Somos todos bifrontes, Stevenson. A diferença é que uns usam máscaras de teatro, outros usam a própria pele.”

            A valsa vienense deu lugar a uma peça mais melancólica, talvez um noturno de John Field. Aproximei-me para servir mais uísque a Stevenson e mais absinto a Wilde. Ambos agradeceram com a cortesia de quem está habituado a ser servido, mas vê em cada criado um semelhante.

            Stevenson riu, uma risada que terminou em tosse.

            “O senhor é um grego perdido no tempo vitoriano, Wilde. A beleza pela beleza, a arte pela arte. Eu sou um calvinista em fuga. Acredito no pecado original, mas acho que Deus se distrai e a gente aproveita. As minhas histórias são sobre gente que faz escolhas erradas e paga por elas. O senhor escreve sobre gente que acha que não há escolhas erradas, apenas consequências interessantes.”

            “E não há? Wilde inclinou-se para a frente. O que é uma escolha errada? Quem define o erro? A sociedade? A igreja? A maioria? Eu aprendi na prisão que a sociedade é uma tirana disfarçada de mãe. Condena-te enquanto precisas dela e abandona-te quando precisas dela. Os meus ‘Contos’ são sobre isso: o gigante egoísta, o príncipe feliz, o rouxinol que morre por uma rosa. Todos fazem escolhas que a sociedade acha erradas, e todos são mais humanos por isso.”

            O silêncio que se seguiu era denso de reconhecimento mútuo. Dois homens, duas vidas marcadas pelo escândalo e pela genialidade, pela doença e pela perseguição, pela necessidade de criar num mundo que preferia destruir.

            Wilde pegou no copo de absinto e ergueu-o à luz.

            “Sabia que o absinto é chamado de ‘fée verte’, a fada verde? Dizem que dá asas à imaginação. Eu prefiro pensar que dá raízes. A imaginação precisa de raízes, Stevenson. Raízes na dor, na alegria, na memória, no desejo. O senhor viajou para enraizar-se noutras terras; eu fiquei para enraizar-me noutras palavras.”

            “Palavras são a minha pátria, concordou Stevenson. Quando estou doente, escrevo. Quando estou triste, escrevo. Quando estou feliz, escrevo para guardar a felicidade. ‘O Gabinete do Dr. Jekyll’ nasceu de um pesadelo, sabia? Acordei a gritar e a minha mulher disse: ‘Tu tens uma história aí’. E tinha. O medo é um excelente contador de histórias.”

            A noite avançava e os outros clientes iam saindo. O velho anarquista fechou o seu Proudhon e despediu-se com um aceno; a jovem poetisa guardou os versos na pasta; o casal que discutia felicidade saiu de mãos dadas, como se tivessem encontrado uma resposta provisória. Só eles ficaram, os dois gigantes, na mesa junto à janela.

            Aproximei-me para lhes perguntar se queriam mais alguma coisa. Wilde pediu outro absinto; Stevenson, um copo de água para acompanhar o uísque. Aproveitei para perguntar:

            Perdão, mestres, mas permitam-me uma questão. Os senhores escreveram num tempo em que a literatura ainda era levada a sério como forma de conhecimento e de transformação. Hoje, vivemos num tempo de imagens rápidas, de histórias que duram minutos, de personagens que se consomem como fast-food. O que sobra das vossas palavras? Elas ainda podem tocar os corações?

            Wilde riu, uma risada cristalina.

            “Meu caro, as minhas palavras nunca quiseram tocar corações; quiseram tocar inteligências. E a inteligência, felizmente, é mais resistente do que parece. Podem esquecer as frases, mas não esquecem o incómodo que elas causam. Uma boa frase é como um espinho: incomoda até ser arrancada.”

            “E as minhas histórias, acrescentou Stevenson, são sobre gente que procura tesouros. Hoje, os tesouros são outros, mas a procura é a mesma. Enquanto houver um rapaz a sonhar com ilhas, uma jovem a imaginar piratas, um velho a recordar aventuras, eu estarei vivo. As histórias não morrem, Wilde. Apenas mudam de roupa.”

            Quando a noite já cedia lugar à madrugada, levantaram-se. Stevenson deixou sobre a mesa um mapa antigo, desenhado à mão, com uma ilha imaginária e uma cruz vermelha a marcar o tesouro. Wilde deixou um espelho de bolso, pequeno, com a moldura de prata já oxidada. Despediram-se com um abraço, dois homens que sabiam que a vida é curta, mas as palavras são longas.

            Fui limpar a mesa, e guardar os copos, a pensar. Stevenson e Wilde, o escocês doente que viajou o mundo para encontrar histórias, e o irlandês genial que viajou para dentro de si mesmo e encontrou a eternidade. Um escreveu sobre a dualidade do bem e do mal, o outro sobre a dualidade da beleza e da fealdade. Ambos souberam que a literatura é o único lugar onde as contradições não precisam de ser resolvidas, apenas vividas.

            No meu livro de guardanapos, onde guardo as vozes que passam por este café, escrevi a frase que Wilde murmurou ao sair, como quem oferece uma última pérola:

            "A vida é demasiado importante para ser levada a sério. A arte, demasiado séria para ser levada de outra forma."

            E o Café Entre Fluxos fechou as portas naquela madrugada, guardando no silêncio o eco de duas vozes que, mesmo do outro lado da vida, continuam a ensinar-nos que a beleza e a aventura são as únicas coisas que valem a pena serem contadas.

 
 
 

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